JF Diório/Estadão
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Com novo coronavírus, inadimplência no ensino superior cresce mais de 70% e evasão sobe 32,5%

Entidade que representa mantenedoras de ensino superior do País, projeta que, se a situação continuar, 21% das instituições podem não conseguir quitar a folha de pagamento de junho

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

25 de maio de 2020 | 13h05
Atualizado 25 de maio de 2020 | 18h47

   

SÃO PAULO - Com a pandemia do novo coronavírus, a taxa de inadimplência nas instituições de ensino superior privado do País aumentou de 15,3% para 26,3% em abril, ante o mesmo mês do ano passado. Com isso, o índice aumentou 72% no período.  Já a taxa de estudantes que trancaram a matrícula ou desistiram do curso subiu 32,5% no mês de abril em relação ao mesmo período de 2019, conforme levantamento divulgado nesta segunda-feira, 25, pelo Semesp. A entidade, que representa mantenedoras de ensino superior do País, projeta que, se a situação continuar, 21% das instituições podem não conseguir quitar a folha de pagamento de junho.

"Neste momento, a gente quer ver o impacto da pandemia, da paralisação das aulas presenciais e da crise econômica. O estrago só não é maior porque teve o ingresso de alunos no primeiro semestre, antes da pandemia, e 70% dos alunos ingressam no primeiro semestre", diz Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp.

Os dados de inadimplência e evasão correspondem a 146 instituições de ensino superior e são referentes a cursos presenciais e EAD.  No recorte que avaliou a taxa de evasão, a alta foi puxada pela desistência em cursos presenciais, que foi de 47% em relação a abril de 2019, principalmente de calouros. Nos cursos EAD, que costumam ser mais baratos, a taxa caiu 2,6% no período.

O levantamento também avaliou o impacto da pandemia de acordo com o porte das instituições. As de grande porte, com mais de 7 mil alunos, sofreram mais com a inadimplência: a taxa foi de 29,5%, enquanto as de pequeno e médio porte tiveram índice de 25,2%.

A situação se inverte no quadro que analisou a evasão, onde o porcentual foi maior nas instituições pequenas e médias, que passou de 2% para 3,1%. Nas de grande porte, subiu de 1,8% para 1,9%.

"Houve o ingresso de novos alunos e, depois de 15 a 20 dias, as aulas foram suspensas no modelo presencial e ocorreu a deterioração da renda de alunos e de suas famílias. Em abril, a taxa de evasão é historicamente baixa, mas ela cresceu. O efeito da crise se dá mais fortemente na inadimplência do que na evasão, porque as pessoas querem fazer o curso superior, mas a falta de dinheiro impede que elas paguem a mensalidade."

O Semesp, que representa 708 instituições de ensino superior no País, projeta que, caso inadimplência e evasão continuem aumentando, os impactos financeiros já poderão ser sentidos pelas instituições a partir do próximo mês.

"Se continuar nesse ritmo de crescimento, 21% das instituições não vão conseguir pagar a folha de pagamento em junho e 39% das instituições terão prejuízo superior a 20% da receita líquida em 2020."

Capelato analisa que, se reduções de mensalidades forem aplicadas, o cenário pode ser ainda mais grave: "30% das instituições terão de fechar até o final de 2020".

A ampliação do Fies somada a criação de linhas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para que as instituições possam manter o financiamento que oferecem são caminhos apontados pelo diretor-executivo para amenizar os impactos da situação.

"Teria de alargar o Fies. Subir de 100 mil vagas para 500 mil, não só para aluno novo, mas para inadimplente para segurar o aluno. No Brasil, ainda temos poucos jovens no ensino superior."

Para Hugo Cysneiros, advogado da Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (ANEC), o ensino superior foi atingido por uma “tempestade perfeita”, já que as universidades particulares ainda não se recuperaram da crise econômica e as instituições perderam uma parte significativa de sua renda por causa da pandemia. “O aluno que trabalhava pra pagar o curso foi demitido ou teve  redução de jornada e remuneração. Os profissionais liberais ficaram sem trabalho”, constata Cysneiros. 

O advogado também afirma que, por conta do ensino remoto instituído durante a pandemia, alguns alunos entenderam que o serviço é diferente daquele que foi contratado – no caso, o ensino presencial. “Ainda que esteja sendo prestado, para eles não justifica estar sendo cobrado da mesma forma".

São Paulo

Epicentro da doença no País e Estado que lidera o ranking de quantidade de instituições de ensino superior no Brasil - de acordo com a entidade -, São Paulo apresentou um crescimento de 73,2% da taxa de inadimplência e a evasão foi de 20,5%. Segundo o Semesp, 45% das instituições que participaram da pesquisa são do Estado.

Na região metropolitana, o atraso no pagamento aumentou quase 80% (79,7%). No interior, o índice ficou próximo a 70% (68,5%)./COLABOROU RENATO VIEIRA

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Correção: o texto informava que a taxa de inadimplência no ensino superior superava 70%. Na verdade, 70% é a proporção de aumento da taxa de inadimplência. A informação foi corrigida.

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