Acervo Pessoal
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'Inteligência artificial já consegue inferir estado cognitivo e estilo de cada aluno'

Especialista atua na área de ciência da computação com ênfase em inteligência artificial e destaca a necessidade de uma legislação específica para a área

Entrevista com

Rosa Maria Viccari

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

01 de abril de 2022 | 15h00

Ninguém duvida que - em mais tempo ou menos tempo - a inteligência artificial vai revolucionar a educação. Mas quais desafios tecnológicos, orçamentários e éticos estão no caminho?  "Com dados, a inteligência artificial consegue inferir, com relativo sucesso, o estado cognitivo, afetivo, estilo de aprendizagem, aptidões e, também, os pontos fracos de cada aluno", explica Rosa Maria Viccari, professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora da Cátedra Unesco (órgão ligado às Nações Unidas) em Tecnologias de Comunicação e Informação na Educação.

"Por outro lado, o histórico de um determinado estudante pode ser utilizado quando este for procurar vaga em uma escola ou fazer processo seletivo para um emprego. Neste contexto, a necessidade de uma legislação específica vem sendo aconselhada por diferentes pesquisadores da área." Rosa Maria Viccari atua na área de ciência da computação com ênfase em inteligência artificial aplicada à Educação, abordando temas como sistemas tutores inteligentes, sistemas multiagentes e lógica para a computação.

Com o avanço das tecnologias, é esperado um aprendizado cada vez mais personalizado. Como observa esse avanço, considerando o estágio das aplicações tecnológicas atuais?

A tecnologia apresenta bons resultados na busca de soluções para problemas delimitados, como a personalização. Com dados, a inteligência artificial consegue inferir, com relativo sucesso, o estado cognitivo, afetivo, estilo de aprendizagem, aptidões e, também, os pontos fracos de cada aluno. Esses dados permitem que sistemas avançados de ensino personalizem estratégias, conteúdos e atividades. Mas sistemas que possuem essas capacidades são ainda muito caros, requerem muito esforço de programação e treinamento. No Brasil, ainda são pouco utilizados. Podemos vê-los em ação e algumas plataformas de ensino de segundo idioma. Juntamente com a inteligência artificial, tecnologias como a Realidade Aumentada e a Realidade Virtual vêm facilitando o desenvolvimento de aplicações que não eram viáveis até então. Com essas tecnologias é possível gerar sensações de participação e possibilitar experiências antes só possíveis em laboratórios físicos, muitas vezes pouco acessíveis pelo custo. Esses sistemas conseguem obter sucesso se estiverem aptos a trabalhar um conjunto de competências e habilidades necessárias na formação dos estudantes, como autonomia, capacidade de atuar em ambientes compostos por grupos de pessoas e por sistemas automáticos inteligentes que participam em situações de tomada de decisão, capacidade de resiliência. Essas necessidades são mais difíceis de serem automatizadas do que, por exemplo, o ensino de lógica matemática.

A personalização da educação envolve coleta de dados e vemos um questionamento às grandes empresas de tecnologia, as Big Techs, que administram essas informações. Quem deve administrar tais dados e de que forma?

A inteligência artificial teve um crescimento espetacular em termos de resultados com o aprendizado de máquina, o “Machine Learning”, baseado em grande quantidade de dados. Uma grande quantidade de dados sobre uma determinada população pode auxiliar governos a traçarem políticas públicas em várias áreas, dentre elas a educação. Essas ações podem ser gerais, para um país, mas também específicas para uma determinada região. Os dados fazem a diferença para a adequação das ações. Por outro lado, o histórico de um determinado aluno, obtido por meio do uso de diferentes aplicações educacionais – como, tutores inteligentes, assistes pessoais educacionais, chatbots e plataformas – podem ser utilizados quando este for procurar vaga em uma escola, ou mesmo, fazer um processo seletivo para um emprego. Neste contexto, a necessidade de uma legislação específica vem sendo aconselhada por diferentes pesquisadores da área.

É a questão do monitoramento versus privacidade. Como você enxerga a questão da privacidade nas tecnologias educacionais?

Certamente a adaptação é feita por meio da monitoração. Logo, é preciso existir um conjunto de recomendações de boas práticas no uso das informações pessoais. Instituições como a Unesco, a Unicef e a OCDE, dentre outras, estão publicando documentos sobre o tema para orientar os países membros. Dentro desse contexto, um dos temas relevantes da pesquisa é a ética nos sistemas de inteligência artificial. Pessoalmente, considero a forma da legislação um pouco mais complexa. É difícil contemplar avanços rápidos da tecnologia bem como explicar o processo utilizado pelos algoritmos de inteligência artificial, por exemplo. Ou seja, o direito de um indivíduo saber como um algoritmo chegou a uma determinada decisão que o afeta versus o sigilo industrial da empresa que é proprietária do algoritmo. Logo, estamos frente a situações complexas, sejam elas educacionais ou não.

As tecnologias podem colaborar para a valorização da diversidade e promover a inclusão de grupos historicamente prejudicados? 

Se falarmos do ensino para pessoas portadoras de deficiência isso é viável com a tecnologia atual. Por exemplo, com os avanços da visão computacional e do processamento da linguagem natural, é possível utilizar produtos disponíveis para o reconhecimento de imagens e descrição do seu conteúdo, em tempo real. Também temos aparatos tecnológicos, frutos da computação, neurociência e engenharia eletrônica, feitos para manter a atenção dos alunos durante aulas presenciais. Porém, sistemas de reconhecimento de imagens podem apresentar viés de aprendizagem e discriminar pessoas. Penso que precisamos estar atentos a estas e a outras tecnologias e decidir o que nos serve como seres humanos.

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