Com crise financeira, foco muda para gestão corporativa

Instituições e alunos começam a investir menos em formação na área de derivativos, por exemplo

Daniele Carvalho, de O Estado de S. Paulo,

01 de dezembro de 2008 | 16h17

O vendaval que sacudiu os mercados financeiros internacionais já começa a ter seus reflexos nos bancos acadêmicos. Em tempos de crise, as principais escolas de formação do País acompanham atentamente a movimentação de seus alunos: saem da agenda especializações na área de mercado financeiro e entram em pauta disciplinas ligadas a assuntos como governança corporativa, controladoria e regulação. Cursos como MBAs devem ser, na avaliação das universidades, os primeiros a refletir os impactos da crise. "São voltados para a formação de mão-de-obra para o mercado corporativo, por isso estão mais suscetíveis à demanda dos empregadores. E se adaptam mais rapidamente a estas mudanças", diz o coordenador do curso de pós-graduação do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), David Kupfer. Uma coqueluche até poucos meses, a especialização em derivativos - investimentos de risco - já não é passaporte para a obtenção de um bom emprego. Por conta disso, o Ibmec-Rio começa a se preparar para uma possível mudança na demanda por seus cursos de MBAs. O diretor acadêmico Antônio Duarte já espera redução por cursos voltados para o mercado de capitais e maior procura pelos ligados a finanças corporativas. "Vai haver maior interesse em assuntos como informações assimétricas, cadeira que estuda a avaliação de riscos. Este assunto está ligado, entre outras coisas, à avaliação de concessão de crédito."  Este é o movimento que está sendo avaliado pelo recém-formado em economia André Buscacio. "Acredito que serei mais útil e terei mais oportunidades na empresa em que trabalho se tiver especialização em gestão corporativa", afirma ele, que é assistente da Deloitte.  A realidade é mais dura para os recém-formados em economia nos EUA. Os recrutadores de Wall Street estão cancelando ou adiando visitas às universidades como Harvard, Princeton e Stanford. Até o ano passado, esse seleto de grupo alunos era disputado com pelas mais renomadas instituições financeiras. Diante da mudança de cenário, eles terão de correr atrás de emprego. Graduação O cenário traçado para a graduação dos economistas já é diferente. Nas principais escolas de economia do País, independentemente da vertente adotada, há consenso de que o conteúdo pouco mudará. "A formação básica do profissional não sofre alteração. Ele precisa conhecer todos os grandes teóricos. A mobilidade será maior nas disciplinas eletivas. Nelas, os alunos certamente vão querer ter contato com os assuntos que vêm à tona com a crise", diz Fernando Postali, vice-coordenador de graduação da FEA/USP.  A necessidade de manter o embasamento teórico também é ressaltada por Marcelo Paixão, diretor-adjunto de graduação do Instituto de Economia da UFRJ. Para ele, momentos de crise apuram o interesse dos alunos por disciplinas com maior teor da história da economia, relações internacionais e políticas.  Tiago Souza, que cursa economia na FGV-Rio, diz que a crise financeira aguçou seu interesse por assuntos como política econômica e controladoria. "Tenho planos de me matricular em eletivas relacionadas a esses assuntos. Realmente não dá para penar em derivativos e mercado financeiro agora", avalia ele.  Para Marcelo Paixão, uma importante lição foi aprendida, principalmente no Brasil. "Se alguém quer se utilizar de mecanismos como o dos derivativos, tem de conhecê-lo bem. Caso contrário, podem se transformar em mecanismos diabólicos. Tenho a impressão de que algumas empresas que tiveram perdas não sabiam exatamente com o que estavam lidando", afirma ele, defendendo que as disciplinas voltadas para derivativos não serão totalmente esquecidas.  Em relação a mestrados e doutorados, todos os ouvidos pela reportagem afastam influências oriundas da crise. "São cursos de formação e não de informação, que demandam dedicação integral dos alunos. Seu objetivo não é o mercado de trabalho, argumenta Renato Fragelli, diretor da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE), da FGV.

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