Victor Vieira/ESTADÃO
Victor Vieira/ESTADÃO

Com crise financeira da USP, hospital reduz atendimentos

Pronto-socorro do HU perdeu servidores que aderiram ao plano de demissão voluntária e passou a receber só urgências e emergências

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

18 Março 2015 | 03h00

SÃO PAULO - A crise financeira da Universidade de São Paulo (USP) fez o Hospital Universitário (HU), no câmpus do Butantã, zona oeste da capital, reduzir os atendimentos. Depois da adesão de funcionários ao plano de demissão voluntária (PDV), aposta da reitoria para sanar as contas da instituição, o pronto-socorro passou a atender apenas a urgências e emergências. Casos de menor gravidade são encaminhados para postos de saúde. Pacientes já relatam queda da qualidade do atendimento.

Cerca de 200 servidores, segundo fontes da reitoria, aderiram ao programa - o dado oficial não foi informado nesta terça-feira, 17, pela Superintendência do HU. De acordo com o Sindicato dos Médicos, 213 funcionários da unidade entraram no PDV nos últimos meses. O efetivo equivale a 12% do quadro do hospital, que atende à parte da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS) na zona oeste.

Na unidade, uma faixa informa que, conforme a avaliação do médico, poderá haver encaminhamento. Foi o que aconteceu na manhã desta terça com a cabeleireira Fernanda Santos, de 35 anos. Com dor no abdome, ela foi aconselhada a procurar um posto. 

“Achei que fosse resolver logo”, lamentou. “Meu marido também ia trazer a filha para tratar uma dor de garganta, mas já falei que teremos de ir para outro lugar.” Segundo Fernanda, o atendimento piorou nos últimos tempos. “Não é mais como era antigamente”, afirmou.

A maior perda é na área de enfermagem, mas também houve adesão de médicos e funcionários da área administrativa. O primeiro grupo já saiu no fim de fevereiro e o restante vai se desligar da unidade entre este mês e abril. 

Com as demissões, segundo médicos do HU, houve deslocamento de funcionários para atender às demandas de emergência. Além disso, leitos foram fechados. O Estado apurou que oito dos 20 leitos das unidades de terapia intensiva e semi-intensiva foram desativados. Pacientes confirmam a situação.

O diretor clínico do HU, José Pinhata Otoch, teme que a crise prejudique as atividades de ensino. “O HU tem uma base acadêmica. Por meio da prestação de serviços de saúde, formam-se profissionais de diversas áreas.” Segundo ele, as atividades da graduação e pós, por enquanto, seguem normalmente. 

Prejuízo. Para Otoch, a retirada de profissionais para os serviços de urgência e emergência, no entanto, vai prejudicar os atendimentos secundários e terciários, mais complexos, obrigações do HU. Segundo Gerson Salvador, médico do hospital e diretor do sindicato, três leitos foram fechados no centro cirúrgico. “Pacientes permaneceram internados em macas de pronto-socorro e cirurgias foram canceladas”, disse. Segundo ele, cortes afetaram o pronto-socorro de oftalmologia e o ambulatório de ortopedia. 

Além do PDV, após a USP ser obrigada a respeitar o teto constitucional - o salário do governador (R$ 21,6 mil) -, desde setembro, muitos médicos deixaram de fazer horas extras e plantões, o que afetou a escala. Por ora, as vagas no HU não serão repostas porque contratações estão congeladas na universidade desde fevereiro do ano passado.

Reitoria diz que apoia transferência de funcionários

A reitoria da Universidade de São Paulo (USP) informou nesta terça que vai apoiar as unidades no remanejamento de pessoal após a saída de todos os 1.452 servidores que aderiram ao plano de demissão voluntária (PDV). A dificuldade de repor as vagas no Hospital Universitário (HU) é a falta de profissionais especializados de saúde nas outras unidades. A reitoria não comentou as restrições de atendimento no HU.

Procurada, a Superintendência da unidade não detalhou quais foram as razões das mudanças nos atendimentos. Questionada sobre o número exato de demissões, o órgão não respondeu à reportagem. Nesta terça, a Secretaria Municipal de Saúde informou que não foi observado o aumento de demanda nos equipamentos públicos de saúde da região.

Além do PDV, a reitoria aposta na transferência do HU para a Secretaria Estadual de Saúde para aliviar suas contas. A medida, porém, enfrenta resistência de alunos e professores. Além disso, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que não tinha interesse em assumir a unidade. 

Um grupo foi designado para avaliar a proposta do reitor Marco Antonio Zago. Segundo a USP e a secretaria, as negociações sobre a desvinculação ainda não avançaram. O Sindicato dos Médicos é contra a medida e alega que o atendimento à população pode piorar. A reitoria, porém, afirma que ensino, pesquisa e extensão são prioritários. 

Mais conteúdo sobre:
Hospital Universitário USP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.