Nara Dip
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Com crianças pequenas, novas formas de abraçar em meio à pandemia

Entre os principais desafios ampliados pela pandemia está a interação, o educar pelo toque

Luciana Alvarez, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2020 | 10h00

Assim que puder voltar a dar aulas presencialmente, a vontade de Isabela de Oliveira Silva vai ser dar um abraço bem apertado em cada um dos seus alunos, que estão na faixa dos 3 anos. “Com as crianças pequenas, o acolhimento costuma ser também corporal, não só verbal. O toque e o carinho estão sempre presentes na escola, de forma muito natural”, diz a professora do Colégio Stance Dual. Porém, ela sabe que esses abraços vão precisar esperar mais um pouco, por causa da covid-19.

“A afetividade é fundamental para os pequenos, mas temos de pensar que ela não está só no toque. Está no tom de voz, na escuta, em respeitar os sentimentos”, cita. Enquanto o momento do encontro frente a frente não chega, ela já pensa em estratégias para lidar com a situação “com leveza”, como trocar o cumprimento tradicional por uma dancinha. “Vamos ter de ressignificar o beijo e o aperto de mão, levando de uma maneira lúdica. Não é o ideal, mas é o necessário temporariamente.” 

Em qualquer idade, para aprender na escola, a criança precisa se sentir segura e também incluída no grupo, explica Taís Bento, sócia da consultoria SOS Educação. “Culturalmente, o abraço faz parte da forma como nos entendemos em segurança, pertencentes a um grupo.” Para os mais novos, que são mais sensoriais, o peso do toque é maior. “O colo traz a segurança desde que nascem. O toque do adulto é uma forma como entendem cuidado e carinho.” 

Embora as crianças menores normalmente demandem mais abraços, também são muito flexíveis. “Os pequenos têm uma capacidade imensa de adaptação a contextos, novas regras. O desafio do professor é achar alternativas de levar segurança. Podemos usar como inspiração culturas que não usam tanto o contato físico”, sugere Roberta Bento, sócia da SOS Educação. Ela cita cursos voltados à educação infantil que ela fez nos Estados Unidos. “Os professores usam rimas, coreografias. Até o ‘high five’ fazem sem tocar na mão do outro. Mesmo assim, o professor consegue deixar o aluno em um estado de humor positivo, predisposto a aprender.”

Futuro. Para pais em busca de uma escola de educação infantil, a pandemia traz desafios extras. É necessário saber como está a rotina e como era antes, pois com o passar do tempo as atividades normais devem ser retomadas. “As famílias ainda vão precisar filtrar o que da proposta da escola é só marketing. Houve uma perda muito grande de alunos no segmento, tem colégios lutando pelo equilíbrio financeiro”, alerta Roberta.

Mesmo sem vacina, toques e carinhos vão estar liberados na Grão de Chão quando as aulas voltarem. “Pegou na mão, fez um carinho? Em seguida o educador passa o álcool em gel, para proteger a todos. Estamos seguindo orientações de um infectologista, como usar luvas, avental e um escudo facial para troca de fraldas, trocar de blusa ou de avental se uma criança babar. O afeto não é só o abraço, mas não podemos negar um colo”, diz Paula Antunes Ruggiero, diretora pedagógica da instituição.

A escola tem planejado outras formas de cumprimento para evitar beijos e abraços e tipos de brincadeiras que evitem aglomerações. Ainda há uma preocupação maior com a higienização dos materiais e aproveitamento dos espaços. “Temos uma área ao ar livre, onde as crianças já costumavam trabalhar, que vai ser ainda mais explorada.”

 psicanalista Elisa Soares do Amaral, mãe de dois meninos de 5 anos da Grão de Chão, reconhece a dificuldade de um distanciamento social absoluto. “Sei que vai haver rodízio de espaços, higienização quando cada turma sair, formas de diminuir o número de contatos. Mas distanciamento total é impossível: eles brincam muito próximos, pulam um sobre o outro.” 

Ainda que saiba dos riscos, a mãe pensa em mandar de volta os filhos para a escola assim que possível. “Vejo que eles já apresentam uma dificuldade para se relacionar com outras crianças. Quando encontram alguém, ficam numa excitação gigante, uma tensão, sentem vergonha. As opções de risco que a sociedade está fazendo são muito injustas com as crianças.”

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