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Com casos crescendo, tensão para 2021 é grande nas escolas

Mães e pais tentam controlar a ansiedade diante das incertezas do próximo ano letivo

Media Lab Estadão, O Estado de S.Paulo
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28 de dezembro de 2020 | 14h06

Em novembro, quando voltaram as aulas presenciais em uma das três escolas em que leciona espanhol, a professora Vera Regina Gherardini – chamada de Verinha pelos alunos – não segurou a emoção: foi às lágrimas ao ver um grupo de crianças pequenas sentadas em roda no pátio.

Ao chegar à sua turma de adolescentes, no entanto, ela precisou lidar com outro tipo de sentimento: a preocupação. “Por mais informados que eles sejam em relação à pandemia, percebi que nem sempre conseguem controlar o ímpeto de chegar perto, de tocar. É preciso ficar o tempo todo lembrando dos cuidados, é uma tensão permanente”, descreve a professora.

 A experiência de retorno às aulas de Verinha, com 30 anos de carreira e quase 700 alunos em três escolas particulares, sintetiza a montanha-russa de emoções ao final de um ano letivo totalmente atípico. E representa bem os diferentes pontos de vista sobre o que deverá ocorrer em 2021.

 De um lado, muita gente defende que as aulas presenciais sejam retomadas, em nome do aprendizado e do bem-estar mental não apenas dos estudantes, mas também dos pais e dos professores. De outro, há o temor de que as aulas presenciais contribuam para aumentar os índices de contaminação e se tornem a porta de entrada da doença em muitos lares brasileiros.

Na Europa é diferente

Qual lado deve pesar mais quando se planeja o ano letivo de 2021? Um grupo de pediatras de vários Estados lançou na semana passada um manifesto defendendo a volta às aulas, com base em pesquisas que demonstram que, com os protocolos corretos, o risco de contaminação nas escolas é pequeno e os eventuais casos podem ser rapidamente identificados e isolados.

 O manifesto cita uma série de dados científicos que corroboram a tese do retorno às escolas, especialmente o fato de que as crianças têm índice de infecção até cinco vezes menor que o dos adultos (sendo que, quanto menor a criança, menor o risco) e apresentam baixíssimo índice de complicações – além de não serem “superdisseminadoras”, como chegou a ser especulado no início da pandemia. “As escolas, seguindo os cuidados indicados, não são locais de maior infecção. A experiência europeia provou enfaticamente isso”, diz o manifesto. Apesar de no outro lado do Atlântico a quantidade de testes realizados em vários países ser superior à dos que são feitos no Brasil.

 Os dois problemas desse ponto de vista estão exatamente nessa última frase. As escolas em que Verinha leciona seguem todos os protocolos, pois abrigam filhos da elite econômica de São Paulo e dispõem de toda a infraestrutura adequada, e mesmo assim as recomendações nem sempre são seguidas. Além do mais, usar as experiências europeias como referência talvez não faça sentido para o Brasil, onde tantas escolas principalmente públicas não têm sequer os elementos mais essenciais para a prevenção à covid-19, como água, sabão e papel.

Ganhos e perdas

No Brasil, 26% dos estudantes da rede pública que deveriam ter feito aulas online durante a pandemia simplesmente não têm acesso à internet, de acordo com pesquisa do Instituto DataSenado.

 O movimento Todos pela Educação, organização da sociedade civil que tem como objetivo melhorar a qualidade da educação básica do Brasil, vem chamando a atenção para o agravamento das desigualdades em decorrência desse abismo de condições de acesso à tecnologia. Para contribuir com o processo de volta ao presencial, o Todos pela Educação divulgou na semana passada um documento com 25 recomendações para a retomada das aulas, destinado aos prefeitos e às prefeitas que iniciarão o mandato em 2021.

Construído com base em orientações de especialistas, o documento aponta, como primeira diretriz, a necessidade de se “elaborar um planejamento de retorno gradual das aulas e atividades presenciais em conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde”. Entre as demais diretrizes, estão “realizar um reordenamento curricular que envolva os anos letivos de 2020 e 2021” e “comunicar com clareza à comunidade escolar como será o retorno”.

Em São Paulo, governo promete  plano de retorno gradual

O vaivém nas diretrizes anunciadas por governantes e gestores de instituições de ensino ilustra bem o dilema de quem precisa decidir sobre a abertura ou não das escolas durante a pandemia.

No dia 7 de outubro, o governo de São Paulo autorizou a retomada das aulas presenciais para o ensino médio e no dia 3 de novembro para o ensino fundamental. Em novembro, contudo, várias escolas particulares da capital registraram casos entre os alunos e voltaram atrás na oferta de aulas presenciais.

No dia 17 de dezembro, o governador João Doria anunciou que o ano letivo será iniciado em 4 de fevereiro com aulas presenciais, independentemente da situação da pandemia em cada região. O que muda, dependendo da fase, é o nível de ocupação das escolas, o que poderá exigir um rodízio dos alunos.

Em áreas nas fases vermelha ou laranja, as escolas de educação básica – que atendem desde a educação infantil até o ensino médio – poderão receber diariamente até 35% dos alunos matriculados. Na fase amarela, atenderão até 70% dos estudantes e, na fase verde, 100%. As prefeituras têm autonomia para estabelecer seus próprios critérios.

Protocolos precisam continuar

“As famílias precisam entender o quanto é importante ter os seus filhos frequentando a escola, para continuarem a aprendizagem e serem acolhidos em vários aspectos, principalmente no emocional”, disse o secretário da Educação de São Paulo, Rossieli Soares, durante o anúncio do plano para o próximo ano letivo. Ele ressaltou que estudos e experiências internacionais dão embasamento científico para a decisão.

No ensino superior, a flexibilização será menor. Mesmo na fase verde, a presença em cada dia deve se limitar a 70% dos alunos matriculados. Na fase amarela, o porcentual cai para 35%, enquanto nas fases vermelha e laranja essas instituições não poderão receber estudantes. A exceção fica por conta dos cursos na área médica, que têm autorização para atividades presenciais em qualquer fase da pandemia.

Todas as instituições de ensino precisarão seguir os protocolos sanitários, independentemente da fase em que a região se encontra. Para abastecer as escolas dos materiais necessários, a Secretaria de Educação já distribuiu uma série de insumos destinados tanto aos estudantes quanto aos servidores: 12 milhões de máscaras de tecido, 440 mil face shields (protetor facial de acrílico), 10,7 mil termômetros a laser, 112 mil litros de álcool em gel, 10 mil totens de álcool em gel, 221 mil litros de sabonete líquido, 78 milhões de copos descartáveis, 100 milhões de rolos de papel-toalha e 1,8 milhão de rolos de papel higiênico.

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