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Com Bolsonaro e Milton Ribeiro, MEC terá corrupção como marca

Enquanto isso, o Brasil vive sua maior crise educacional, em um retrocesso de aprendizagem nunca visto e com consequências imprevisíveis para o futuro da nação

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2022 | 11h25

Terminou na prisão a história de um ministério da Educação que operou no modo inacreditável por três anos e meio. O primeiro que assumiu a cadeira mandou carta às escolas para obrigar crianças a cantar o hino nacional e dizer o slogan da campanha de Jair Bolsonaro. O segundo xingou acadêmicos, estudantes e o Supremo Tribunal Federal, e teve de fugir para fora do Brasil. O terceiro, pastor Milton Ribeiro, também teve sua cota de absurdos, como distribuir Bíblias em eventos de educação e ignorar ajuda às escolas na pandemia. Mas foi pego, mesmo, naquilo que o governo que tanto defendia mais dizia combater: a corrupção.

Ribeiro, que já teve altos cargos na Universidade Mackenzie, chegou ao ministério em 2020 depois de mais uma disputa entre militares e evangélicos, que marca a pasta desde janeiro de 2019. No início, tentou construir um perfil discreto para contrastar com seu antecessor, Abraham Weintraub. Sem aparecer na imprensa com declarações bombásticas, passou a dar total acesso a pastores, como revelou o Estadão, para controlar sua agenda e distribuir recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) aos aliados do governo. 

As denúncias mostram superfaturamento de ônibus escolares, milhares destinados a obras ou programas de robótica em escolas de municípios que entravam no esquema. Prefeitos revelaram pedidos de barra de ouro em troca de ajuda dentro do MEC para liberação de verbas. O velho e conhecido toma lá dá cá com dinheiro da educação, em plena pandemia, quando 40 milhões de estudantes penavam para tentar aprender em um precário ensino remoto.

Há décadas, o FNDE é balcão de negócios no ministério, disputado por políticos, que não gostaram de ver pastores de olho no que era deles. Uma solução seria o fundo passar a liberar verbas que sejam só repasses automáticos, como ocorre com a merenda, por exemplo. Novas regras teriam que prever sempre critérios técnicos, como tamanho da população e vulnerabilidade. 

Mas isso tudo exige uma reforma que Bolsonaro não está disposto a bancar. Um MEC que nunca fez sequer política educacional não vai pensar em reformar a si próprio pelo bem da transparência. 

Enquanto isso, o Brasil vive sua maior crise educacional, em um retrocesso de aprendizagem nunca visto e com consequências imprevisíveis para o futuro da nação. Não era tão difícil tentar – ao menos – mudar esse destino. No País e no exterior, há inúmeros exemplos de experiências que ajudam a melhorar a qualidade do ensino, que fazem as crianças aprenderem, de fato, quando estão na escola. O dinheiro precisaria ser destinado a formar e avaliar professores, para alfabetização, para escolas em tempo integral. 

Agora se sabe que o plano para o MEC não era apenas o da trincheira ideológica, mas também de alimentar o grupo que alimenta a trincheira. E nada acaba com a prisão do ministro. Quem assumiu o ministério foi o então secretário executivo de Ribeiro, Victor Godoy, que também recebia os mesmos lobistas com frequência. E ainda, não dá para esquecer que, em áudio revelado pela Folha de S. Paulo, Ribeiro dizia ser Bolsonaro quem pedia a ele que se encontrasse com os pastores.

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