JF Dioriio/Estadão
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Colégios privados de SP vão priorizar ensino infantil e 3º ano do médio na volta às aulas

Plano de retomada proposto pelo governo paulista pegou instituições de surpresa e não agradou a sindicatos de escolas e docentes

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - O plano de retomada das aulas presenciais no Estado de São Paulo, anunciado nesta quarta-feira, 24, pelo governo estadual, pegou alguns colégios da capital paulista de surpresa, que já esperavam um retorno para agosto com 20% dos alunos. A possibilidade de estender o prazo para setembro e ampliar o contingente para 35% fez as instituições repensarem o planejamento: a maioria pretende voltar com todas as séries, mas dando prioridade à maior frequência de estudantes do ensino infantil e do 3º ano do ensino médio.

Segundo as novas regras, as aulas iniciam em 8 de setembro, primeiro com 35% dos alunos das escolas, depois com 70% e em seguida com 100%. As orientações valem para todas as turmas, do infantil ao médio, e também para o ensino superior, nas redes pública e privada. O diretor da Associação Brasileira de Escolas Particulares (Abepar), Mauro Aguiar, confirmou uma reunião nesta quinta-feira, 25, para discutir as medidas.

Em carta aberta, a Abepar elogiou o cuidado das autoridades estaduais em relação ao retorno gradual das atividades presenciais, contou que ajudou a elaborar o plano, mas apresentou discordâncias. "Esse diálogo, salutar e indispensável, deve ser mantido como regra comum, especialmente em situação excepcional como a que vivemos hoje. O Plano recém-divulgado pode, no entanto, merecer aprimoramentos. Algumas das decisões apresentadas surpreenderam a comunidade escolar e pareceram em desacordo com as tendências observadas nos encontros realizados pelo comitê liderado pelas autoridades estaduais", disse.

"Dois pontos merecem destaque. Um deles é a regionalização. Havia a expectativa de que as autoridades pudessem considerar as realidades específicas de cada região do Estado quanto às taxas de transmissão do novo coronavírus e às demais condições de enfrentamento da covid-19. Outro ponto a merecer revisão, na visão da Abepar, diz respeito ao tratamento único para os diferentes ciclos de ensino – da Educação Infantil ao Ensino Superior. A Educação Infantil deve receber especial atenção até por força das implicações sociais que ela tem para as famílias, especialmente para as que têm filhos matriculados na rede pública. Como voltar ao trabalho se não há escolas e creches abertas para deixar os filhos?"

Os diretores de alguns colégios, porém, já têm em mente como farão essa retomada. Aguiar, que também dirige o Colégio Bandeirantes, disse que no plano anterior da escola, com retorno previsto para agosto, a prioridade eram os alunos do 3º ano do ensino médio — e continua sendo. "Eles iriam todos os dias para a escola, porque vão fazer vestibular no fim do ano e você tem de checar como está o aproveitamento deles, precisamos avaliar bem qual a situação deles. Agora vamos ter de replanejar tudo, melhorar um pouco."

A instituição que fica na Vila Mariana, zona sul paulistana, tem, ao todo, 2.653 alunos e a ideia é que todas as séries façam parte dos 35% da primeira fase da retomada. No entanto, exceto os estudantes do último ano do ensino médio, os demais iriam à escola em dias alternados. Com isso, haveria um ensino híbrido, com aulas presenciais e online. Para garantir as medidas de segurança em saúde a alunos, professores e funcionários, o Bandeirantes terá consultoria do Hospital Sírio-Libanês para planejar a volta às aulas, assumir o ambulatório da escola e fazer a medição de temperatura dos alunos que retornarem.

No Morumbi, também na zona sul, o Colégio Miguel de Cervantes estuda a retomada das aulas presenciais há um tempo, segundo a diretora-geral Lourdes Ballesteros. Com 1.580 alunos, a instituição de elite considera uma boa notícia o retorno em setembro e com mais do que 20% dos estudantes. "Felizmente, temos um colégio com muito espaço e agora ampliamos, então para nós será mais fácil", disse. A escola também vai voltar com todas as séries e prioridade para o ensino infantil, principalmente para amenizar a preocupação de pais que terão de retornar ao trabalho, e 3º ano do ensino médio.

A instituição também contratou uma consultoria do Hospital Israelita Albert Einstein para formular e adaptar os protocolos de saúde com base nas orientações do governo estadual. Professores e funcionários receberão equipamentos de proteção individual, haverá enfermaria com duas salas de isolamento e há estudo de soluções para medir a temperatura dos alunos. O ensino híbrido também será marca na escola. Um dos critérios para definir quem retornará primeiro será o estado de saúde dos estudantes. "Temos alunos com problemas de saúde e vamos dar suporte a eles", disse Lourdes, cuja ideia é que estes fiquem em casa. O colégio também abre a possibilidade de trabalhar com aulas aos sábados.

Já no Colégio Santa Maria, com 2,7 mil alunos, a diretora Diane Clay Cundiff diz que a escola, na zona sul, tem condições de já voltar com 100% dos estudantes e evita falar sobre quais farão parte da primeira fase da retomada proposta pelo governo. "O que precisaremos é chegar em setembro e olhar a realidade. É difícil hoje tomar decisão do que é mais indicado. Não fico me organizando para uma realidade como se fosse definitivo." Apesar disso, ela cita que a prioridade seriam as crianças do primário devido aos pais que vão voltar ao trabalho. "Estamos em mais de 100 mil metros quadrados de área verde, todo mundo vai estar num lugar arejado e tem como fazer atividades dentro e fora da sala."

De forma similar, Carlos Dorlass, diretor-geral do Colégio Marista Arquidiocesano, com 2.830 alunos, afirma que a instituição tem espaço para acolher os 35% dos estudantes nos espaçosos ambientes do prédio. A escola, na região sul de São Paulo, tinha planos de retomar aulas em 3 de agosto e também viu de forma positiva o adiamento para setembro. "Vamos fornecer para todos os alunos máscaras, álcool em gel e saquinhos para permitir que o aluno possa fazer substituição da máscara. Temos proteção para todos os funcionários e delimitamos espaço nas salas de aula de 1,5 metro", explica.

Para os alunos que não retornarão ao presencial na primeira fase, a escola já montou salas com equipamentos para transmissão simultânea das aulas. A ideia é que, 20 dias antes da volta, o colégio envie uma pesquisa aos pais e estudantes a fim de identificar quem poderá retornar efetivamente, considerando aspectos de saúde também. "Nosso primeiro olhar é para os pais que não conseguem trabalhar no sistema home office", disse Dorlass. A Escola da Vila, com unidades no Butantã (oeste) e no Morumbi (sul), informou que está avaliando quais são as séries-chave e processos que devem ocorrer prioritariamente nas aulas presenciais.

A Conexia Educação, empresa de soluções educacionais com trabalhos em escolas de todo Brasil, como Colégio e Curso de A a Z no Rio de Janeiro e Colégio Dom Bosco de Curitiba, disse que já vislumbrava que a retomada em fases seria a melhor alternativa. "Estamos orientando nossas escolas a iniciarem a primeira fase com a Educação Infantil e Ensino Fundamental 1, já que existe uma necessidade de liberar os pais também para o retorno às atividades. Na sequência, Ensino Fundamental 2 e por último o Ensino Médio, pois esses alunos têm maior autonomia no acompanhamento dos conteúdos e atividades online", disse Sandro Bonás, CEO da companhia.

Plano contraria sindicato de escolas particulares

Em nota, o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp) afirma que "vai aguardar a publicação do decreto que definirá as regras gerais para a retomada das atividades no Estado", mas vê positivamente a busca por uma solução.

O Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Siees-SP) emitiu nota de repúdio contra a retomada de aulas em 8 de setembro. "Causou estranheza a marcação dessa data, pois já estava acertada uma reunião que aconteceria antes desse anúncio, com a Secretaria de Educação, exatamente para discutir como seria essa volta nas escolas particulares em todo o Estado", disse a entidade.

"A escola particular não pode ser culpabilizada e nem ser refém do demorado tempo das redes públicas estaduais e municipais, que ainda não estão preparadas para promover a volta dos seus alunos à sala de aula. Nem por isso deixamos de ter competência e capacidade para que sejam tomadas todas as providências necessárias para uma volta segura. Mas não ao custo de sermos obrigados a ficar atrelados ao ensino básico estatal", afirma.

Já para a presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Maria Izabel Noronha, a volta foi "prematura". "Estou muito preocupada. É difícil adaptar prédios escolares."

Sobre as críticas

Em nota nesta quinta-feira, 25, a Secretaria Estadual de Educação lamentou as colocações do Siees-SP. Afirmou ter realizado quatro videoconferências, com a Abepar e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, para construção dos protocolos que foram apresentados por Rossieli. 

"A crítica do Sieesp sobre a data de retorno prevista, anunciada para 8 de setembro, está pautada apenas em interesses próprios e econômicos, enquanto o governo de SP planeja este retorno pautado em medidas de contenção da epidemia, atendendo aos interesses da população e sem colocar nenhuma vida em risco", diz a secretaria, que reforçou também que somente quando todas as regiões do Estado permanecerem na etapa amarela por 28 dias consecutivos é que será possível reabrir as escolas.

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