Sergio Castro|Estadão
Sergio Castro|Estadão

Colégios estimulam alfabetização precoce

Antes de iniciar o 1º ano do fundamental, quando o processo deveria começar, crianças já sabem ler e escrever; especialistas se dividem

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

25 Janeiro 2016 | 03h00

Aos 5 anos, Davi já descobriu uma nova habilidade. Ao entrar no mercado, no shopping, ou mesmo durante um passeio de carro com os pais, as letras vão saltando à sua vista e ele, quase inconscientemente, começa a formar palavras. “Ele está descobrindo esse novo mundo e está muito curioso. O tempo todo nos faz perguntas, por exemplo, qual o som da junção das letras L e H”, conta Ivani Costa Almeida, de 29 anos, mãe de Davi.

Desde que entrou no colégio Renovação, na zona sul de São Paulo, aos 3 anos, Davi já teve o processo de alfabetização iniciado. Por isso, agora, antes mesmo de iniciar o 1.º ano do ensino fundamental, que é quando o processo deveria começar, ele já sabe ler e escrever. Os primeiros estímulos foram com a contação de histórias e a apresentação do alfabeto, assim como fazem outras escolas particulares de São Paulo na educação infantil.

No colégio Eduque, na zona sul, a gestora pedagógica Tatiana Duarte diz que o processo começa já no berçário, com crianças com menos de 3 anos. “As crianças já fazem parte de um contexto letrado desde que nascem, observam os pais lendo jornais e livros, escrevendo nos celulares ou a lista do mercado. Isso possibilita que pensem sobre a nossa língua desde muito cedo”, afirma.  

Por isso, a escola trabalha com os bebês em rodas de leitura e os coloca para observar os professores escrevendo os nomes deles em seus materiais. Com o estímulo desde cedo, a partir dos 4 anos a escola já estabelece alguns parâmetros para as crianças. Por exemplo, aos 4 é esperado que já saibam escrever o próprio nome sem copiar e reconhecer o nome escrito dos colegas. Aos 5, que já saibam escrever palavras com sílabas simples, como boneca.

No colégio Equipe, na região central, os alunos já a partir dos 3 anos são estimulados para a alfabetização. No entanto, Luciana Fevorini, diretora, afirma que os parâmetros de ensino só são demarcados a partir do 1.º ano do ensino fundamental. “Respeitamos o tempo e a curiosidade de cada criança e vamos dando os estímulos de acordo com o que cada um pede. Se ao final da educação infantil ele já tiver uma hipótese de como funciona a língua escrita e que há uma regularidade entre as letras, fizemos o nosso papel.”

Segundo Luciana, há três anos, quando foi anunciado que a partir de 2016 seria obrigatória a matrícula de crianças de 4 anos na educação infantil, muitas escolas particulares adiantaram o início da alfabetização. “Eles entenderam que teriam de adiantar o conteúdo, sem perceber que para as crianças esse é um período muito mais importante de descoberta e socialização”, diz.

Brincar. Antônio Batista Gomes, coordenador de pesquisas do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação e Ação Comunitária (Cenpec), afirma que a educação infantil deve ter o aprendizado ligado ao brincar, incluindo a introdução à alfabetização.

Para ele, modelos de aprendizagem focados na repetição de exercícios dão pouca liberdade de raciocínio para as crianças e são pouco produtivos para o processo.

Gomes afirma que brincadeiras que estimulem a criança a ter contato com a língua – não só escrita, mas também oral – são mais eficientes por despertar a curiosidade. Como, por exemplo, estimular a criança a contar suas próprias histórias. “A língua escrita já faz parte do mundo da criança. Ela não necessariamente precisa ser alfabetizada, mas ter acentuado esse contato com a forma escrita. Senão, a meta de alfabetização aos 6 anos vai ser impossível de ser cumprida”, afirma.

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