Coleção leva ciência ao grande público

O dinamarquês Niels Bohr (1885-1962) foi um dos maiores físicos da história da humanidade responsável pela criação do modelo de átomo que incentivou o desenvolvimento da física quântica. Seu raciocínio era tão intenso que ele não conseguia se desprender do trabalho mesmo quando se divertia, o que provocava comentários típicos de mentes brilhantes - como nos raros momentos em que ia ao cinema, assistir a faroestes de Tom Mix. Um dia, após uma sessão, ele desabafou: "Não gostei desse filme, é muito improvável. Que o canalha fuja com a linda garota é lógico e sempre acontece. Que a ponte despenque logo que a carruagem passe é improvável, mas ainda aceito. Que a heroína fique pendurada no penhasco, sobre um precipício, é ainda mais improvável, mas de novo vou aceitar. Vou aceitar até que, em certo momento, Tom Mix esteja passando por perto com seu cavalo. Mas, que haja um cameraman filmando a cena toda, isso já é mais do que consigo aceitar!"A história é contada pela professora de física Maria Cristina Abdalla no livro Bohr - O Arquiteto do Átomo (200 páginas, R$ 22), um dos seis volumes iniciais da coleção Imortais da Ciência, série que serve como um cartão de visitas de uma nova editora, a Odysseus. Disposta a investir em obras que aprofundem o conhecimento humano por meio de uma linguagem mais acessível, a editora lançou também outra coleção, que reconta a mitologia grega por meio de livros traduzidos direto do grego.Além de Bohr, já foram lançadas as biografias de Darwin, Lavoisier, Newton, Arquimedes, Oswaldo Cruz & Carlos Chagas e Platão & Aristóteles. "Descobrimos que há um grande interesse do público em desvendar um assunto aparentemente árido demais e, melhor, que também há profissionais dispostos a contar essas histórias", comenta Stylianos Tsirakis, editor responsável pela Odysseus.Ele nasceu no Brasil, mas sua família ainda vive na ilha de Creta, onde chegou a freqüentar o equivalente ao curso fundamental, o antigo primário. Sempre se interessou por obras sobre o conhecimento e, ao perceber o aumento no número de títulos científicos nas prateleiras das livrarias, decidiu batizar sua editora com a coleção. Inicialmente, pensou em traduzir livros estrangeiros, mas a maioria que lhe interessou foi escrita na década de 60."Minha intenção é desmistificar a ciência mas sob um olhar moderno; por isso, contatei o mundo acadêmico para sentir o interesse de professores brasileiros para escrever as obras", conta Tsirakis. A primeira pessoa com quem falou foi Marcelo Gleiser, professor titular de física e astronomia no Darmouth College, em New Hampshire, nos Estados Unidos. A adesão foi imediata e Gleiser assumiu a coordenação da série, incumbindo-se de listar os nomes dos biografados e contatar os profissionais que escreveriam sobre eles. "Houve uma certa dificuldade, pois ainda existe uma resistência do meio acadêmico em escrever obras para um grande público", comenta o editor.As respostas afirmativas, porém, logo foram chegando e, aos poucos, a coleção começou a tomar forma. Gleiser não se preocupou apenas em chamar profissionais unicamente ligados à universidade, acreditando também na sensibilidade da escrita de outros autores.É o que explica a presença do escritor Moacyr Scliar na série - médico especializado em saúde pública, ele conta a história de dois dos maiores cientistas brasileiros, Oswaldo Cruz (1872-1917) e Carlos Chagas (1878-1932). "Ambos representam uma combinação de talento e dedicação, ambos lutaram muito contra o preconceito de seus colegas e até o da população, e ambos tiveram seus nomes reconhecidos pela comunidade científica internacional numa época que a ciência brasileira ainda não tinha muita visibilidade no exterior", comenta Gleiser.Para quem não se lembra, Cruz foi responsável pela erradicação de diversas doenças nas grandes cidades, como febre amarela, peste e varíola. E Chagas, ao investigar o que ocorria com os trabalhadores na construção da estrada de ferro entre Belém e o Rio de Janeiro, não só identificou uma nova doença (que levaria seu nome) como também o seu agente causador e o mecanismo de transmissão.O volume é complementado por um texto do professor Amilcar Baiardi, que conta a história da ciência no Brasil desde a época do descobrimento até os dias atuais.Gleiser também não foi ortodoxo ao selecionar os biografados, incorporando dois filósofos, Platão (428-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), cuja história é contada pelo professor de filosofia Marco Zingano. "Eles não eram cientistas no sentido moderno da palavra, pois não criaram fórmulas matemáticas para descrever os fenômenos naturais nem realizaram experimentos em laboratórios para testar as suas hipóteses", justifica Gleiser. "Mas dedicaram grande parte de sua obra ao estudo e à exploração metódica do mundo natural através da razão tentando explicar a ordem e a desordem da Natureza por meio de padrões geométricos e argumentos intuitivos e lógicos."Apenas um volume da coleção não foi escrito por um brasileiro: Arquimedes - Uma Porta para a Ciência, sobre um dos maiores matemáticos da história, tem o texto da americana Jeanne Bendick. O resultado, porém, ficou aquém do esperado e a solução foi adicionar um posfácio escrito por Elza Gomide, professora do Instituto de Matemática e Estatística da USP, que, sintetiza a importância histórica do grego que viveu em uma época 250 anos anterior a Cristo.A série Imortais da Ciência foi lançada no início do mês e, desde então, vem conquistando uma boa procura. O ator, jornalista e diretor Oswaldo Mendes, por exemplo, interessou-se pelos volumes sobre Lavoisier, Darwin e especialmente Bohr, um personagem que conhece bem - ao lado de Carlos Palma e Selma Luchesi, ele participa da peça Copenhagen, que trata da ética envolvendo personagens verdadeiros como os físicos Heisenberg e Bohr, vivido por Mendes."A coleção consegue o que era uma obsessão para o Bohr: falar da ciência em língua de gente", comenta o ator. "O conhecimento é uma conquista de todos, do espírito humano, e não apenas dos cientistas. Mas o conhecimento só é de todos quando se transmite de forma compreensível, quando a linguagem, sem abdicar do rigor, amplia a possibilidade de seu entendimento a um número cada vez maior de pessoas."Segundo ele, o sucesso de quase dois anos de Copenhagen confirma quanto o desafio do conhecimento fascina o público, especialmente os jovens. "Tanto a peça como a coleção procuram aproximar a ciência do nosso cotidiano, da nossa história imediata."O próximo volume a ser lançado no início do ano conta a história de dois cientistas, Feynman e Gell-Mann. Um dos volumes mais esperados é sobre o criador da teoria da relatividade, Albert Einstein, que, além de cientista, desenvolveu um importante papel como pacifista mundial.

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