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Coisas que eu queria saber aos 21: Victor Navasky

Editor emérito da revista 'The Nation' e editor da 'Columbia Journalism Review' fala de sua formação

Estadão.edu,

25 Junho 2012 | 20h55

"Aos 21 anos, eu estava no Swarthmore College (Navasky cursou liberal arts, que, equivalente à nossa graduação, é muito mais um ciclo básico de preparação para a pós), na Pensilvânia. Judeu, nascido em Nova York, era um apoiador convicto do Estado de Israel e da ONU.

Israel tinha surgido quando eu tinha 12, 13 anos. Ainda apoio a existência de Israel, mas hoje eu seria muito mais sensível à questão dos direitos dos palestinos. Continuo acreditando na paz mundial, mas sou menos ingênuo sobre as dificuldades e corrupção que cercam iniciativas como a ONU. Só que nesse caso eu acho bom ter sido ingênuo, acreditado em alguma coisa.

Se fosse dizer algo a quem tem 21 anos hoje seria: fique aberto a todas as possibilidades que a vida apresenta e não seja intimidado por instituições ou pessoas em posição de autoridade que tentam te desencorajar de seguir suas paixões e desejos, de desenvolver seu potencial. Não internalize os valores dos que estão em cargos de autoridade.

Aos 20, quando estava no segundo ano em Swarthmore, fui editor do jornal dos alunos, um semanal chamado Phoenix. Era 1952 e os estudantes não podiam visitar as alunas nos dormitórios. Como experiência, abriram uma exceção para as tardes de domingo, das 2 às 4 horas, mas as portas tinham de ficar abertas.

Uma tarde, o telefone tocou no corredor e era uma ligação para uma aluna. Foram chamá-la e a porta do dorm não só estava fechada, como trancada. Bateram e quando a moça atendeu viram um homem abotoando a camisa. Sob a camisa a pele era marrom, a pele dela era branca e logo depois o reitor – uma pessoa muito agradável, John Mason – anunciou que a experiência de intervisitas tinha sido suspensa. Demos na capa do jornal a foto do reitor olhando pela porta aberta de um dorm com a manchete ‘Peek a Boo’ (aquele ‘Achou!’ que as pessoas dizem quando brincam com crianças). O texto ironizava Mason por tentar fiscalizar o comportamento dos alunos.

Fui chamado ao gabinete do reitor, ouvi um sermão. Ele disse que estavam pensando em proibir novatos como eu, do segundo ano, de editar o jornal. Disse que o que tínhamos feito não tinha graça nenhuma e deveríamos ser mais sérios no futuro, escrever sobre coisas mais importantes.

Fui o primeiro da família a chegar à faculdade e fiquei deprimido com a bronca, achando que tive sorte por não ser expulso. Também fiquei chateado com o risco de novatos perderem a chance de editar o jornal por minha causa.

Uns dias depois, tivemos uma aula de Ciência Política com um professor visitante da Universidade da Pensilvânia. No fim da aula, com a sala lotada, ele perguntou quem era Navasky. O professor me chamou e, diante da classe, deu os parabéns. Disse: ‘A missão de um jornal estudantil é ser uma pedra no sapato da administração.’ Levei a lição daquele dia em Swarthmore muito a sério. Acredito que o papel do jornalista é ser a pedra no sapato dos poderes constituídos."

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