Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Coisas que eu queria saber aos 21: Marilda Sotomayor

Para professora da USP, carreira acadêmica oferece dinamismo, diversificação intelectual e gratificação

Estadão.edu,

10 Dezembro 2012 | 21h59

"Aos 21 anos estava cursando licenciatura em Matemática na Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras da antiga Universidade do Brasil (hoje UFRJ). Queria ser professora de matemática de curso secundário, como a minha mãe, que despertou em mim o gosto por esta disciplina quando eu ainda era criança e disputava com seus alunos a resolução de problemas que ela selecionava dos livros do Ary Quintela.

 

Estes livros, que eram muito respeitados e temidos pelos estudantes, eram adotados no ginásio que cursei da Escola Normal Carmela Dutra, onde me formei em professora primária.

 

Tudo ia bem até que, ao se aproximar o fim do curso, as conversas com os colegas sobre as possibilidades de profissão que a licenciatura proporcionava me fizeram despertar para uma realidade pouco animadora. Parecia que todo aquele conhecimento que adquirira na faculdade estaria fadado ao esquecimento, visto que deveria ensinar somente o que aprendera no curso secundário. Era angustiante imaginar parar de estudar e não ter mais o desafio de resolver problemas novos de matemática!

 

Foi aí então que, através de uma palestra proferida a convite de nossa turma pelo professor Lindolpho de Carvalho Dias sobre a carreira de matemático, tomei conhecimento de que existia o Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), do qual o professor Lindolpho era diretor, e que formava mestres e doutores em Matemática.

 

Um mundo novo, no qual eu parecia me encaixar bem, estava abrindo suas portas para mim. Quando terminei a graduação, ingressei no Impa e fiz os cursos de iniciação científica para complementar o meu curso de licenciatura, e logo depois fui aceita no mestrado em Matemática, sob a orientação do professor Elon Lages Lima, notável, entre outros méritos, por sua excelente e numerosa obra bibliográfica matemática de penetração em todos os níveis, incluindo a pesquisa.

 

Graças ao trabalho pioneiro de alguns poucos pesquisadores, entre os quais estava Mauricio Peixoto, lenda viva da matemática brasileira, o Impa já estava entre os melhores centros de pesquisa em matemática da América Latina. Nessa época, o prestigioso título de mestre em Matemática conferido pela instituição já era disputado por professores de diversas universidades brasileiras.

 

Ainda no início do mestrado fui contratada pelo Departamento de Matemática da PUC-Rio, onde trabalhei até 1993, quando me mudei para o Departamento de Economia da UFRJ. Em 1997 vim para o Departamento de Economia da USP, onde estou até a presente data.

 

No meu doutorado, com título outorgado pelo Departamento de Matemática da PUC-Rio, mas realizado na sua maior parte no Impa, fui orientada por Jack Schechtman. A idéia era fazer uma tese em Processos Estocásticos, mas, dizendo querer testar a minha habilidade em tratar com a Economia Matemática, Jack me propôs um problema em Crescimento Econômico. Era uma extensão do problema abordado por ele em sua tese de doutorado, realizado na Universidade da Califórnia em Berkeley, sob a orientação do grande economista matemático David Gale (1921–2008).

 

Tendo sido bem sucedida, Jack me convenceu a transformar aquele problema na minha tese.

 

Este trabalho foi aceito para publicação no Journal of Economic Theory, o que me animou a seguir com a carreira científica. Em janeiro de 1983, com uma bolsa de pós-doutorado do CNPq, rumei para Berkeley, esperando aprimorar, com Gale, meus conhecimentos sobre Crescimento Econômico. Porém, para meu desapontamento, Gale não estava mais interessado nesta área. Estava envolvido com a Teoria dos Mercados de Matching, o ramo da Teoria dos Jogos que está sendo homenageado este ano através da premiação, com o Nobel de Economia, dos matemáticos Alvin Roth e Lloyd Shapley. Gale e Shapley escreveram o artigo seminal neste assunto em 1962. Shapley foi premiado por ter sido um dos fundadores da teoria, enquanto Roth, por ter liderado as aplicações aos mercados de matching do mundo real.

 

Voltei, então, o meu interesse para a nova teoria, dando início a uma profícua colaboração com Gale, que gerou vários artigos em coautoria. Mas foi com Alvin Roth, então professor da Universidade de Pittsburgh, que escrevi o mais relevante deles. Trata-se do livro Two-sided matching. A study in game-theoretic modeling and analysis, publicado em 1990 pela Cambridge University Press. Este livro, que compila toda a teoria de matching existente até o ano de sua publicação, teve o mérito de atrair a atenção de um grande número de economistas para uma área de pesquisas que era, até aquela época, de interesse quase exclusivo de matemáticos. Devido a ele, eu e Roth recebemos o Lanchester Prize de 1990, um dos prêmios mais cobiçados na área de Pesquisa Operacional, e outorgado pela Operation Research Society of America. Em 2010 fomos homenageados com um congresso intitulado Roth and Sotomayor: Twenty years after, organizado na Universidade Duke, para celebrar os 20 anos de publicação do livro.

 

Tenho ensinado regularmente Teoria dos Jogos, orientado alunos em Desenho de Mercados, organizado congressos e escrito artigos em matching, que me renderam vários prêmios e honrarias acadêmicas - a mais prestigiosa foi ter sido eleita fellow da Econometric Society em 2003.

 

Para o jovem que se defronta com o problema de escolher a carreira, diria que, como foi no meu caso, a vida acadêmica é uma opção que vale a pena. O trabalho na universidade oferece um ambiente ímpar: dinâmico, intelectualmente diversificado e estimulante, além de ser uma atividade que pode ser extremamente gratificante, na medida em que promove a interação com jovens estudantes e permite o contato com especialistas de diversas áreas do conhecimento."

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