Coisas que eu queria saber aos 21: Inezita Barroso

Cantora, folclorista e apresentadora da TV Cultura fala sobre trajetória na música e sonhos da juventude

Estadão.edu, O Estado de S. Paulo

08 Novembro 2014 | 16h00

"Tempo é conceito. Segundos, horas ou memórias. Ele pode ser alongado como encordoamento da viola caipira e afinado pelo ponteio da consciência. Pode unir o presente e o passado mais longínquo na rapidez da nota semifusa. Quando eu tinha 21 anos - lembro como se fosse ontem, mas isso foi em 1946 ! -, o tempo imperativo era o presente. Naquela época, concluía o curso de Biblioteconomia, recém-iniciado pela Universidade de São Paulo.

Viajava lendo Mário de Andrade. E sonhava em viajar pelo Brasil, conhecendo a música do povo. Queria saber um jeito de unir a arte que via nos teatros e nas rádios em São Paulo com a imensidão dos ritmos brasileiros. Nunca me concentrei em ser compositora, me apaixonei por escutar, recolher, registrar e interpretar. Foi sempre minha matéria-prima.

Desde criança fui musical. Ouvia a viola nas fazendas dos tios. Cantava as músicas do rádio. Assim, entrar no ramo foi natural. Descobri que a música encantadora e tocante não tem tempo. Não é antiga ou moderna. Esses rótulos são feitos por quem os vende. A sede de aprofundar no Brasil me levou para os rincões. Rodas de viola, desafios de repente, danças gaúchas, congadas, reisados, folguedos mil. Fiz isso de jipe sem rumo definido e sem parada final. Queria levar novos sons para rádios, gravadoras e, depois, para TVs. 

Aprendi a pesquisar e dialogar com compositores. Ajudei a lançar vários. Rompi com preconceitos e paradigmas. Como mulher, tenho orgulho de ter feito um LP só com compositoras estreantes. Uma mulher interpretando mulheres. Juntei histórias durante toda a vida. O tempo amadureceu minha ideia sobre o cantar. Também me mostrou que folclore é algo ainda recusado por muitos na mídia e na arte. Mesmo que não reconheçam. O que vale mesmo é seguir o seu tempo. Fazer o que acredita pode não dar dinheiro - e quase sempre não dá -, mas conhecer como a arte se materializa fora dos modelos comerciais é o maior retorno à curiosidade inquietante da juventude sobre a cultura brasileira. Esse é o mote de minha carreira.” / Depoimento a Guilherme Soares Dias, especial para o Estado 

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