DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Coisas que eu queria saber aos 21: Bill Kovach

Jornalista, ex-diretor da sucursal de Washington do 'The New York Times', fala do início da carreira

Estadão.edu,

29 Outubro 2012 | 21h38

"Terminei o ensino médio e no dia seguinte entrei para a Marinha, aos 18 anos. Queria trabalhar em submarinos, como meus dois irmãos mais velhos durante a Segunda Guerra Mundial, mas não tinha vaga.

Acabei num contratorpedeiro. Prestei serviço militar até os 22. Navegávamos ao longo do Oceano Atlântico para monitorar o tráfego de submarinos russos – eram tempos de Guerra Fria.

Ajudava os mergulhadores da embarcação e às vezes também mergulhava, embora não fizesse parte do time. Passei muito tempo observando os recifes de corais do Caribe. Ali, me interessei pela vida marinha. Quando voltei para casa, em 1954, decidi fazer faculdade de Biologia.

Após me formar em uma universidade do Tennessee, fui convidado por Duke, na Carolina do Norte, para assumir uma cadeira de professor assistente e fazer mestrado em Biologia Marinha. Este seria meu caminho natural, mas já estava casado, tinha dois filhos e não era mais protegido pela G.I. Bill (lei do governo americano de auxílio a veteranos de guerra). Precisava encontrar um summer job para sustentar a família.

Um amigo me chamou para cobrir férias de repórteres do jornal da minha cidade, Johnson City. Eu lia jornais, mas não pensava que havia pessoas escrevendo aquelas notícias. Na terceira semana de trabalho, eu estava em um café e vi um juiz assinando mandados de busca e apreensão em branco e entregando-os ao xerife. Achei aquilo estranho e ilegal. Publiquei uma reportagem sobre o que presenciei e tanto o magistrado como o xerife foram chamados a dar explicações a órgãos de controle. A repercussão da notícia me fez tomar gosto pelo jornalismo. Liguei para Duke e desisti da vaga. Tinha encontrado o que queria fazer na vida.

Meses depois, fui destacado para acompanhar a eleição para o Senado, viajando por todo o Tennessee. O primeiro colega que conheci nessa cobertura foi David Halberstam, de um veículo da capital, Nashville. Ele tinha estudado em Harvard e feito pós em Jornalismo em Columbia – anos depois, ganharia o Prêmio Pulitzer. Quando terminou a campanha, David foi para o The New York Times e me indicou para a vaga dele.

Trabalhar na capital fez minha carreira decolar. Peguei o início do movimento de defesa dos direitos civis dos negros. Conheci seus líderes, entre eles Martin Luther King. O jornal me mandava para qualquer lugar do país onde aquela discussão estava mais quente. Virei expert no tema e me empolguei tanto com a história que, hoje, vejo que assumi um lado: acreditava que aqueles negros, que estavam sendo mortos, apanhando, estavam certos.

Moralmente, eu estava do lado correto. Mas jamais pensei em tentar entender por que os brancos, muitos deles meus vizinhos, estavam matando os negros. Como jornalista, eu tinha a obrigação de conversar com eles, entender sua posição e ajudar o público a fazer isso. Enfim, o outro lado da questão também merecia ser examinado. Talvez esses brancos tivessem razão, talvez não, mas, quaisquer que fossem as motivações deles, eu tinha a obrigação de publicá-las. Se o discurso fosse somente de ódio, claro, ficaria de fora do jornal. Mas eu nunca ouvi aqueles brancos e não conheço quem tenha feito. É algo de que me arrependo.

Se você é um jovem jornalista ou pretende ingressar na profissão, deixo duas dicas: seja curioso e cético. Se você não suporta não saber alguma coisa, seu negócio não é jornalismo. É preciso fazer perguntas constantemente. E toda vez que alguém te contar algo, pense: como essa pessoa sabe isso? Ela consegue me mostrar de onde veio a informação? Será que trabalha para alguém que paga a ela para espalhar essa informação? É preciso continuamente documentar o que se vê e se ouve, não acreditar em qualquer coisa. Tudo flui a partir disso. Sua curiosidade te faz perguntar e o seu ceticismo, duvidar das respostas. Daí a reportagem se escreve sozinha. É como jogar semente na terra: o texto brota da boa apuração.”

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