Tasso Marcelo/AE-4/2/2010
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Coisas que eu queria saber aos 21

O economista Marcelo Neri, coordenador do Centro de Políticas Sociais da FGV, fala sobre sua formação

Estadão.edu

30 Maio 2011 | 22h51

“Queria seguir os passos de meu pai e prestei vestibular para Administração, na PUC-Rio. Passei. Tinha uma vida tranquila, pois o curso era à noite e eu ainda não podia estagiar. Mas meu pai deu um ultimato: ou eu começava a trabalhar ou fazia outra faculdade. Preferi estudar e fiz vestibular na PUC de novo, desta vez para Economia diurno. Levei as duas graduações por um tempo, só que desisti de Administração na reta final.

 

Economia me fez ver que Administração como uma colcha de retalhos, no sentido de que não há uma teoria por trás do negócio. É mais um conjunto de técnicas. O oposto de Economia, uma grande construção conjunta onde muita gente já colocou seu tijolo, ou seja, tem um rigor teórico estruturado. O curso reúne ciências sociais, história, filosofia, e ao mesmo tempo matemática, entre outras matérias de Exatas. Essa combinação abre um leque de opções muito grande para o recém-formado. Ele pode seguir a carreira acadêmica, como eu fiz, ou trabalhar no setor público, no privado, no mercado financeiro, etc.

 

Minha faculdade foi apaixonante. Jovens professores, que haviam acabado de concluir o mestrado, tornaram-se meus grandes mestres. Também gostava de assistir a seminários e debates, coisa que muitos alunos ignoram. Nesses eventos, a gente encontra profissionais que se destacam no seu ofício propondo novas ideias. Foi assim que conheci o outro lado de alguns deles, que estavam formulando o que seria o Plano Cruzado, como Edmar Bacha, Francisco Lopes e Dionísio Dias Carneiro. Quando o plano foi lançado, em 1986, eu já sabia dos detalhes de sua operação.

 

O economista carioca olhava muito para o Brasil, no sentido de desenhar planos que são as bases do regime macroeconômico. Por causa disso, talvez, o Rio foi decaindo, já que seus economistas não ligavam muito para a própria terra. Como filho da PUC, acabei herdando essa preocupação com o desenho de políticas.

 

Pós-graduação. O início da minha carreira foi focado no Plano Cruzado. Minha primeira pesquisa de verdade foi a dissertação de mestrado, apresentada à própria PUC, sobre o plano - que eu vi sendo criado mas não funcionou. Estudei inflação e consumo, faces humanas da macroeconomia, sob a orientação do professor Gustavo Franco, que viria a ser presidente do Banco Central.

 

No doutorado, parti para a Universidade Princeton, nos Estados Unidos, com o objetivo de me aprofundar nessa linha da economia das pessoas e da distribuição de renda. Fui em busca dos conhecimentos de Angus Deaton, um grande especialista em consumo. Acabei orientado pelo canadense David Card. Para quem não o conhece, ele publicou um livro em meados dos anos 90 contrariando a ideia de que o aumento do salário mínimo gerava desemprego. Ganhou, em 1995, na época em que me orientava, a John Bates Clark Medal, uma espécie de Prêmio Nobel para economistas americanos de até 40 anos. Também fez parte da minha banca Ben Bernanke, atual presidente do Fed, o Banco Central americano.

 

Aprendi com o professor Card muito sobre a essência do meu trabalho hoje - o processamento e análise de grandes bases de dados. Falando nisso, a sigla que dei à unidade que criei e coordeno na Fundação Getulio Vargas (FGV), o Centro de Políticas Sociais (CPS), é uma homenagem à Current Population Survey, a equivalente americana à nossa Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad) - matéria-prima básica do meu trabalho. E tinha que ter política no nome, e não estudos, como era tradição na FGV.

 

História. Não foi a minha primeira experiência de vida no exterior. Morei na África do Sul entre os 14 e 16 anos, em razão de uma transferência de meu pai. Ali, tive o meu primeiro contato com questões sociais ao ver de perto o apartheid. Talvez nesse momento tenha surgido uma definição do que eu achava importante para minha vida. Também aprendi a enxergar o Brasil com outros olhos. Voltei ao País para prestar vestibular.

 

Naquela época, gostava de subir a Pedra da Gávea à noite, para contemplar o Rio. Além de praticar esportes, lia muito e me arriscava na cozinha, preparando sushi, ceviche, essas coisas meio cruas. Achava interessante a ideia de controlar todo o processo - pescar o peixe e depois prepará-lo. Fiz isso algumas vezes.

 

O mundo real, para mim, sempre foi como a cozinha, onde estão os ingredientes crus, e não o prato pronto do restaurante. Dizendo de outra maneira: gosto da história, mais ainda da que está acontecendo agora, porque assim eu posso estudar a coisa viva - como foi na época do Plano Cruzado e, com o Real, a queda da pobreza, a redução da desigualdade e o Bolsa-Família. Descobrir mudanças, propor soluções, testá-las, ver o que deu certo e errado, como a sociedade absorve as ideias que se põem em prática, esse é o meu trabalho.

 

O economista é um cara meio megalômano. O administrador acha que vai resolver os problemas de uma empresa. Já o economista tem certeza que vai solucionar os problemas da humanidade, o que é uma grande abstração, cá para nós. Mas a gente tem esse espírito de todos os dias querer dominar o mundo, tal como no desenho Pinky e o Cérebro.”

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