SBPC/Divulgação
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Coisas que eu queria saber aos 21

Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), fala sobre sua formação

Estadão.edu

25 Abril 2011 | 23h12

"Quando vi o resultado do vestibular, chorei. Tentei Medicina na USP e na Escola Paulista de Medicina, atual Unifesp. Fui aprovada na minha terceira opção, Ciências Biomédicas na Unifesp. Achei uma derrota, mas aí meu pai disse para eu dar uma chance ao curso. Se eu não gostasse, poderia sair e tentar Medicina de novo.

 

Ainda bem que ouvi o conselho. Comecei a me apaixonar pela faculdade logo nas primeiras aulas. Fiz parte da segunda turma da graduação, que era inédita no Brasil. Não tinha nem registro, imagine! Acabou sendo um curso de sucesso, copiado por outras universidades do País.

 

Entrei na Unifesp em 1967. Tinha acabado de voltar dos Estados Unidos, onde fiz o equivalente ao nosso 3.º ano do ensino médio com uma bolsa do programa de intercâmbio da American Field Service. Fiquei na Pensilvânia, em uma casa de família, estudando em uma das melhores escolas públicas do país. Fui tão bem-sucedida que ganhei uma bolsa para fazer o college lá mesmo, mas preferi voltar ao Brasil.

 

Tive que revalidar o diploma com uma prova de português, história e geografia. Fiz dois meses de cursinho e passei no vestibular. Sempre gostei muito de ler e ver filme e, na faculdade, agreguei mais pessoas a uma turminha que se reunia para discutir literatura e cinema. Éramos um bando de adolescentes dando uma de intelectual, como se tivéssemos autoridade para avaliar (o cineasta sueco Ingmar) Bergman!

 

Na Unifesp, também começamos outra atividade: a luta contra o regime militar. A ditadura havia começado três anos antes, mas endureceu de fato em 1968, com a entrada em vigor do Ato Institucional n.º 5. Foi uma época horrorosa. De vez em quando aparecia na sala de aula alguém que a gente não conhecia, com certeza um infiltrado do governo. Invadiram repúblicas, torturaram colegas e professores. Participei de passeatas e, por sorte, nunca me machuquei. O nome do (Sérgio Paranhos) Fleury (delegado do Dops, símbolo da repressão durante a ditadura militar) me dá arrepios até hoje.

 

A luta contra a ditadura foi uma marca fundamental na minha vida. Acho que ajudou a terminar de formatar a minha personalidade, junto com toda a influência de família, amigos e professores. Por isso, não abro mão do direito à liberdade.

 

Antes da formatura, comecei a fazer licenciatura em Biologia na USP, para aprender um pouco de psicologia e técnicas de ensino. Estava na segunda graduação quando comecei o doutorado, em Biologia Molecular, na Unifesp - pulei o mestrado por decisão do meu orientador.

 

Defendi a tese em dezembro de 1974. Poderia ter sido antes, só que, se fizesse isso, perderia a bolsa da Fapesp e, naquela época, não havia financiamento para estudos no pós-doutorado. Com tempo para aprimorar o trabalho, consegui emplacar artigos em revistas indexadas.

 

Voltei aos Estados Unidos para fazer pós-doutorado na University of Southern California com bolsa de um programa americano. De novo, quiseram que eu ficasse por lá: me ofereceram um emprego fantástico e o começo de uma posição em alguma universidade. De novo, voltei. Achei que lá seria mais uma e, aqui, talvez ajudasse a construir o ambiente das ciências.

 

Sei que sou boa cientista, com um trabalho reconhecido, mas me orgulho mesmo é das pessoas que formei. Minha resposta à sociedade por tanto investimento em minha educação é ver ex-alunos ocupando posições de destaque aqui e lá fora e produzindo ciência, tecnologia e inovação.

 

É de cortar o coração ver que muitos jovens brasileiros não têm as oportunidades que eu tive. Estamos perdendo talentos! A luta para melhorar a educação no País é da sociedade, não só do governo. E nós, cientistas e professores, precisamos nos envolver mais, conscientizar as pessoas do seu direito à educação de qualidade."

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