Denise Andrade/AE
Denise Andrade/AE

Coisas que eu queria saber aos 21

Ator Juca de Oliveira fala sobre formação

Estadão.edu

21 Fevereiro 2011 | 22h53

"Naquela época, o futuro de todos nós do interior que trabalhávamos e estudávamos em São Paulo se resumia a uma tríplice escolha: Advocacia, Engenharia ou Medicina. Eu morava em pensão, trabalhava num banco até as 18h30 e depois ia para o Colégio Roosevelt, em Pinheiros, até a meia-noite, me preparar.

 

Escolher o que? Diziam que Engenharia era bom, trabalhava-se ao ar livre e em contato com os operários, construindo prédios, pontes ou projetando aviões no ITA. Mas o ITA (aviões!) ou a Politécnica eram sonhos inatingíveis para nós, estudantes pobres, que chegávamos do interior deficientes em física e matemática, além da prosaica necessidade de trabalhar para ganhar a vida.

 

Medicina, na USP, também complicava, pois além da física e da matemática encarava-se química e biologia.

 

Restava-me Direito, embora eu relutasse na escolha, esperando por um milagre qualquer que me levasse a Harvard ou a alguma famosa academia inglesa, quem sabe alemã, embora não soubesse falar nem inglês, nem alemão.

 

Vocação. Um belo dia, um querido colega do Itaú, Aldo, descendente de lituanos, na casa de quem eu sempre buscava um pouco do calor familiar que perdera ao sair de São Roque (sou de São Roque) sugeriu que seguisse o exemplo dele e fizesse um teste vocacional no Instituto de Organização Racional do Trabalho (Idort). "De graça?", perguntei. De graça! E lá fui eu, correndo, me submeter aos testes, dezenas deles, durante vários dias. Era uma coisa nova. Não se falava em nada vocacional naqueles dias.

 

As minhas opções para o teste seriam Direito, Medicina, Engenharia e uma quarta, a carreira militar. Por que acrescentar às opções clássicas a carreira militar? É que eu acabara de servir o Exército no 2.º Batalhão de Caçadores de São Vicente, para onde eram enviados os reservistas de São Roque. Durante a incorporação, o que primeiramente me atraiu na possibilidade de uma carreira militar foi a segurança: casa, comida, roupa lavada, transporte, tudo de graça! Para quem trabalhava desde os 12 anos morando em pensões escolhidas pela conveniência do aluguel barato, o quartel com tudo pago, além da estabilidade, um salário garantido até o final da vida, representavam uma atração irresistível. Em segundo lugar, a farda! Eu, cadete de Agulhas Negras, com a farda de gala estourando num Baile da Literária em São Roque, provocaria desmaios em cadeia nas ex-colegas de grupo escolar, que a paisana sequer me olhavam... Se o teste aprovasse a vocação, tentaria a Academia de Agulhas Negras, custasse o que custasse.

 

Duas semanas de testes e a longa espera pelo resultado. Finalmente, as surpresas: não deveria tentar nem Engenharia nem Medicina, por apresentar dificuldades de raciocínio no campo espacial... Campo espacial? Até hoje não sei o que é isso, o que me levou a concluir pela excelência do teste. Devia, sim, fazer Direito, no que, segundo o teste, me sairia muito bem. Academia militar, não! Pelas minhas dificuldades com disciplinas rígidas e espírito excessivamente liberal e democrático. E, finalmente, a grande e insuspeitada surpresa: deveria fazer teatro! Como? Um caipira do interior com sotaque? Sim, para desenvolver a capacidade oral e a necessidade compulsiva de comunicação. Além disso o teatro me ajudaria a escapar dos "lugares comuns e estereótipos banais sob os quais me escondia...". Ah, deveria também praticar natação! Onde um estudante paupérrimo, morando em pensões com cinco companheiros num quarto, poderia naquela altura encontrar uma piscina para nadar?

 

Mas como minha confusão era absoluta, tomei a decisão de aceitar absolutamente sem discutir todas as sugestões do teste. E foi o que fiz: esqueci Medicina, Engenharia e a carreira militar. Me matriculei no famoso Cursinho do Castelões da Rua Direita para o vestibular na Faculdade de Direito da USP, entrei para a Associação Cristã de Moços para praticar natação e iniciei a caça ao teatro.

 

Teatro. Um belo dia, encontro num jornal um anúncio do Grupo dos Jovens abrindo testes para atores no Colégio Porto Seguro. O teste consistia em representar um trecho de qualquer personagem. Na Livraria Teixeira, especializada em teatro, encontrei Henrique IV de Pirandello, um texto que vira no Teatro Bela Vista com Sérgio Cardoso e Nídia Lícia, um espetáculo inesquecível protagonizado pelo genial e portentoso ator. Traduzi um trecho do Ricardo, decorei e lá fui com a cara e a coragem.

 

Cândida Teixeira, a diretora do teste e do espetáculo que faríamos, era também professora da Escola de Arte Dramática, cuja existência eu ignorava. Também lá estava uma lindíssima atriz já no elenco, Nilcedes Brito, nada mais, nada menos, que Glória Menezes! Fiz o teste, ninguém me disse uma única palavra e me despedi na certeza de que ali se encerrava minha breve carreira de ator teatral. Três semanas depois, recebi na pensão da minha mãe na Rua Jaceguai, onde morava a essa altura, um aviso: "sábado, 14 horas, comparecer ao Colégio Porto Seguro para início dos ensaios da peça A Via Sacra, de Henri Gheon, direção de Cândida Teixeira".

 

Entre os meses de ensaios e a estreia da peça no Colégio Des Oiseaux, prestei vestibular para as Arcadas e entrei com excelente classificação. Fiz a peça careca, graças ao trote. Todos gostaram da minha interpretação. Eu amei, resolvi prestar exame para a Escola de Arte Dramática, entrei e mais tarde tranquei a matrícula na São Francisco. Me formei, Flavio Rangel que vira meu exame público no Maria Della Costa me convidou para A Semente, do Guarnieri, no TBC. Aceitei, estreei em 1960 como profissional e aqui estou representando e escrevendo teatro há 51 anos. Se o teste deu certo, quem deve responder é o meu público, a quem devo toda a minha vida."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.