Filipe Araujo/AE - 16/3/2010
Filipe Araujo/AE - 16/3/2010

Coisas que eu queria saber aos 21

Paulo Bonfá, de 38 anos, apresentador de rádio e TV

Estadão.edu

29 Novembro 2010 | 23h31

"Não cresci querendo ser comunicador ou artista. Sempre me preparei para ocupar um cargo executivo, quem sabe abrir meu próprio negócio. De certa forma, isso acabou acontecendo na minha carreira. Para quem não sabe, sou formado em Administração pela FGV e em Economia pela USP. E o que isso tem a ver com o trabalho de apresentador de rádio e TV?

 

Vamos voltar um pouco no tempo. Estudei a vida inteira no Santa Cruz, um colégio tradicional da zona oeste de São Paulo. Quando eu tinha uns 14, 15 anos, meu hobby era juntar os amigos – como o Marco Bianchi, que era meu vizinho e colega do Santa – nas noites de sábado e gravar fitas cassete falando bobagens. Era uma coisa totalmente amadora, que circulava entre a família e na escola, e as pessoas curtiam. Mas eu não achava que esse negócio de ser apresentador poderia virar profissão.

 

Chegou a hora de escolher a carreira e eu não tinha certeza do que queria. Tive a ajuda de meu pai, engenheiro eletricista, na decisão. Quando eu estava no 3.º ano, ele me apresentou a amigos seus de diferentes profissões. Bati um papo com essas pessoas para entender o que elas faziam. Dessas conversas, escolhi o curso de Administração. Na dúvida, seria um especialista em nada. Brincadeira. A visão generalista da graduação abriria um leque de especializações muito bacana.

 

Entrei na FGV em 1990, aos 18 anos, e resolvi prestar o vestibular da Fuvest. Queria continuar jogando vôlei, esporte que praticava desde os 12, e soube que na USP tinha um bom time adulto. Estava no último ano do juvenil no Clube Pinheiros e não queria parar. Daí pensei em fazer qualquer coisa, sei lá, Meteorologia, só para jogar vôlei. Entretanto, meus pais me convenceram a tentar algum curso que complementasse minha formação em Administração.

 

Cogitei fazer Direito na São Francisco, só que o curso era de manhã – já tinha aulas na FGV – ou à noite – mas a faculdade era longe de minha casa. Olhei as opções de cursos noturnos na Cidade Universitária e escolhi Economia na FEA. Daí passei a estudar de manhã e à noite e estagiar à tarde, numa construtora. Às vezes, cabulava aula para jogar vôlei.

 

No meu primeiro ano na USP, o Bianchi, que estava estudando na ECA, me chamou para gravar uma fita daquelas que a gente fazia quando era moleque, para um trabalho do curso. Pensei: ‘já que a nota é sua, vamos lá’. E não é que o professor adorou? Ele mostrou a gravação ao diretor da USP FM, que também gostou e nos convidou para apresentar um programa na rádio. Ficamos quatro anos lá, com um programinha semanal que a gente gravava às 11 horas da noite.

 

Nesse meio tempo, continuava fazendo Administração e levando Economia com mais tranquilidade, cursando as matérias legais primeiro. Saí da USP só em 1997. Depois do estágio na construtora, fui trainee numa multinacional da área de engenharia e trabalhei num banco de investimentos. Formado na FGV, aos 21 anos eu fui para os Estados Unidos fazer uma especialização em Marketing pela San Diego State University. Queria entender melhor do assunto, conhecer o American way of life e voltar fluente em inglês. Foram seis meses sensacionais.

 

De volta a São Paulo, montei com amigos um escritório para representar uma empresa de equipamentos de climatização de ambientes. Deixei a sociedade depois de dois anos, quando fui contratado por uma rádio comercial. Com 27 anos, fiz o MBA em Comunicação da ESPM. Já estava trabalhando na área há algum tempo e queria entender melhor a parte teórica da coisa.

 

Não que minha formação anterior fosse um desperdício para a carreira que segui. Aproveitei bastante o Santa Cruz por causa de sua tradição humanística. A gente tinha aulas de filosofia, geopolítica e história das religiões, por exemplo. Isso despertou meu interesse por muitas outras coisas e gerou um repertório cultural que é essencial para se trabalhar com comunicação.

 

As faculdades me ajudaram a criar um método de trabalho muito baseado em teorias da Administração – organizar tempo e fluxo de tarefas e delegar funções é bem mais fácil para mim. E esse conhecimento eu aplico involuntariamente. Tanto que nunca tive um empresário, um agente, o que é muito comum no meio artístico. Eu mesmo administro meus negócios. Por isso que me considero um empreendedor, apesar de não me encaixar no estereótipo.

 

Porém, por conta dessa formação, sou um pouco ansioso. Sempre quero saber como será o amanhã, a próxima semana, os cinco anos que ainda virão. Essa é minha curiosidade existencial. Mas sei que não tem resposta. O segredo é seguir fazendo, seguir vivendo."

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