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Coisas que eu queria saber aos 21

Antônio Abujamra, 79, pensador do teatro e da TV

O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2010 | 21h35

"Aos 21 anos, eu queria saber nada menos que tudo. Acho que, inconscientemente, já queria ler a obra de Santo Agostinho, Shakespeare, Proust e Baudelaire, entre tantos outros autores excepcionais. Coisa que eu fiz anos depois e, agora, refaço.

 

Nasci em Ourinhos, interior paulista, em 1932. Passei por Sorocaba e São Paulo antes de chegar a Porto Alegre, onde cursei Filosofia e Jornalismo na PUC do Rio Grande do Sul. Só fiz faculdade porque o que estava na minha cabeça já não me interessava. Mas eu queria algo breve e, por isso, escolhi as graduações mais rápidas da PUC.

 

Da minha época de universidade, lembro que as discussões com professores e colegas não eram nada excepcionais. Sempre com a triste confiança no futuro, mas sabendo que a vida é um mal digno de ser gozado...

 

Passei três anos na PUC – três anos esperando para sair do Brasil. Naquela época, trabalhei como ator no Teatro Universitário de Porto Alegre, com a peça Assim é se lhe Parece, de Luigi Pirandello. O teatro, todos sabem, tem relação com tudo. E eu precisava de uma força original o suficiente para melhorar minha cabeça e poder criticar mais a mim e ao mundo.

 

Fiz outras coisas no teatro amador, até que, bem depois dos meus 21 anos, em 1959, ganhei uma bolsa para estudar literatura espanhola em Madri. Passei três anos na Europa, o que foi a melhor coisa da minha vida. Viajei por todo o continente e também pelo norte da África inteiro, até o Egito, vendo e lendo muito Flaubert.

 

Trabalhei em Paris com os diretores Jean Vilar e Roger Planchon. Na Alemanha, participei da grande fase do Berliner Ensemble, companhia de teatro fundada pelo dramaturgo Bertolt Brecht. Também vi muito teatro inglês e estendi o passeio até a Irlanda.

 

Curioso que o que mais me marcou nesse período na Europa foram os 28 dias em que fiquei hospedado na casa de João Cabral de Melo Neto, em Marselha, na França. Aprendi mais sobre poesia do que em qualquer universidade brasileira.

 

Embora minha cabeça não tenha mudado, as viagens serviram para que eu me conhecesse melhor e tomasse um rumo, após perceber que a essência do meu progresso estava em poder aceitar a minha decadência. Ou seja, progredir até morrer, porque viver é morrer. E não me arrependo de nada."

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