Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE

'Coisas que eu queria saber aos 21'

Professor da PUC-Rio lembra de como foi sair do País para estudar matemática

O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2010 | 21h32

Me lembro bem dos meus 21 anos, porque foi uma época marcada por sentimentos contraditórios. Morava nos Estados Unidos havia um ano, já fazendo o doutorado em Matemática na Universidade de Princeton.

 

Estava feliz, mas meio perdido. Não sabia como avançar na minha pesquisa. Era um problema mais acadêmico do que emocional. Mas preciso voltar um pouco no tempo para falar dos motivos dessa minha insegurança...

 

Muitos alunos decidem para qual faculdade ir com base nas matérias de que mais gostam na escola. Como tinha facilidade em Exatas, cheguei a pensar em fazer Engenharia. Mas acabei escolhendo a carreira de matemático depois de participar da Olimpíada Brasileira de Matemática. Na primeira, fiquei no 18.º lugar – um bom resultado para quem ainda estava no 2.º ano do ensino médio. No ano seguinte, fui campeão. E isso me fez acreditar no meu talento e escolher meu caminho.

 

Prestei quatro vestibulares, três para Engenharia e um para Matemática. Passei em todos e, aos 16 anos, ingressei no curso de Matemática da PUC-Rio. Sei do preconceito que existe contra essa profissão. Na maioria das vezes, é pura falta de informação sobre a carreira. Você não precisa ser professor, que, em geral, é (lamentavelmente) mal pago. Também há a opção de ser pesquisador e, para isso, o mais certo é fazer o que eu fiz: emendar a graduação no mestrado e depois partir para o doutorado. Aproveitar o embalo e ir embora.

 

E eu fui tão embora que parei em Princeton. Lá percebi o quanto valorizava receber não apenas elogios, mas boas notas. As olimpíadas foram exemplo disso. A graduação e o mestrado na PUC também. No doutorado, me senti solto demais. Com um ano, ainda não tinha feito nenhuma prova. Cheguei a pensar em desistir, mas meu orientador me ajudou a colocar a cabeça no lugar.

 

Fazer doutorado é um desafio monumental: você tem de inventar seu próprio caminho, ampliar a fronteira da ciência. Apesar de difícil, cursar o doutorado fora do País foi muito enriquecedor. Eu recomendo a meus melhores alunos que façam o mesmo, pois é uma maneira de não isolar a matemática brasileira. Quando as pessoas desenvolvem sua tese aqui elas tendem a fortalecer áreas que já são dominantes, o que é uma distorção. Mas é claro que não adianta ir para outro país se você não está pronto.”

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