Coisas que eu gostaria de saber aos 21: Flávio Fava de Moraes

Diretor geral da Fundação Faculdade de Saúde da USP fala sobre a juventude

Estadão.edu,

22 Abril 2014 | 15h03

"Em 1959, era estudante de Odontologia na USP e morava em república na Vila Mariana. A vida estudantil tinha suas peculiaridades. Havia mais rigidez com responsabilidade, as aulas eram professorais e os estudantes tinham senso de disciplina mais acentuado. Não havia liberalidade e era inimaginável uma situação de desrespeito entre alunos e professor. Felizmente por convivência materna e familiar sempre li precocemente. Na faculdade, já tinha lido umas 12 obras de George Bernard Shaw e até hoje a leitura é hábito que cultivo.

Nós também éramos mais politizados. Fui presidente do centro acadêmico, discutíamos temas como habitação, reforma agraria, participação compartilhada nos órgãos colegiados e fim da cátedra. Entrei na USP em 1957 e sai em 1961. A cidade universitária tinha menos cursos e minhas aulas eram no Bom Retiro, na região central. A odontologia era bem diferente antes da invasão tecnológica. Hoje há raio-X panorâmico, antes era dente por dente, não existia laser, além disso, os materiais eram uma limitação grande. Eu era solteiro e tinha uma vida bem autônoma.

Desde os 14 anos, quando vim para São Paulo tinha que cuidar do dinheiro, andar de ônibus e bonde sozinho, mandar roupa para lavar. Isso foi útil e me deu uma maturidade precoce. Nasci em Lins e passei a maior parte da infância em São José Rio Preto. A família da minha mãe era acadêmica. Eu tinha uma tia formada em Geografia na USP. A universidade era conversa cotidiana na família. O sonho de estudar na USP vinha desde menino. A maior inspiração era meu tio e padrinho Palmiro Favas. Ele tinha uma das melhores clinicas odontológicas em São Paulo e influenciou na minha decisão de escolher a profissão, com a intenção de que depois eu trabalhasse com ele. Mas já no segundo ano da faculdade, quando passei pela histologia e patologia, pensei que meu mundo era aquele. Fiz carreira acadêmica. Sou um dentista que nunca clinicou.

Tive uma vida normal de rapaz na década de 60. Casei muito jovem, com 23 anos, e tive trajetória de carreira acadêmica muito boa. Nunca sai da USP. Em 1982, fui diretor de Instituto de Ciências Biomédicas e depois diretor cientifico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Fui reitor da universidade de 1993 a 1997 e hoje, aos 75 anos, sou diretor geral da Fundação Faculdade de Medicina. Essas passagens me deram uma uma boa quilometragem e demonstram que aquela dedicação e responsabilidade da época estudantil valeram a pena."

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