Janete Longo/AE - 29/1/2010
Janete Longo/AE - 29/1/2010

Civita enfrenta maratona jurídica para criar curso de pós em Jornalismo

Empresário defende mudança na legislação para facilitar o endowment (doações) a universidades no Brasil

Sergio Pompeu, Estadão.edu

30 Novembro 2010 | 10h39

Roberto Civita passou 50 anos envolvido diretamente no desenvolvimento editorial e empresarial da editora Abril, fundada em 1950 por seu pai, Victor Civita. Foi o criador e é editor chefe da revista Veja desde que foi lançada, em 1968, e desde 1990 presidente do Conselho de Administração do grupo. Estudou Física Nuclear em Rice, no Texas, e formou-se em Jornalismo na Universidade da Pensilvânia e em Economia pela Wharton School, nos.

 

Como surgiu a idéia do curso de pós-graduação em Jornalismo em parceria com a ESPM?

Eu estudei em três universidades americanas, meus filhos estudaram em mais três. E as seis universidades americanas em questão não cansam de escrever carta, revista, folheto, e-mail, mandar visita pedindo dinheiro. Eu me formei faz mais de 50 anos e eles se formaram há uns 20, 25 anos e continuamos recebendo o tempo todo solicitações: "Mande dinheiro para a sua alma mater." Pensei: "Vou mandar dinheiro para os Estados Unidos, para escolas ricas, com fundos de endowment (doações) gigantescos, de centenas de milhões ou até de bilhões de dólares e aqui não tem virtualmente nada?" Então eu disse: não vou doar dinheiro para a minha alma mater, vou tentar fazer aqui o que eles fazem lá. O que eu posso fazer que eu entendo, que possa fazer uma contribuição verdadeira? A única coisa que eu sei mesmo fazer na vida é ser editor, me considero um editor. E ao longo desses anos todos - estou na Abril há mais de 50 anos - participei da criação de um monte de revistas, 20, 30, 40. Vi ao longo do tempo o que estava faltando na formação das pessoas que fazem essas publicações. Eu disse: "Quero fazer endowment de uma escola que pegue um pessoal que esteja no meio de carreira. Lá pelos 30 e poucos, 30 e muitos de idade, com 10, 15 anos de experiência, no momento que se decide nas empresas quem vai subir, quem está encaminhado para dirigir uma operação. Então, eu disse: "Quero montar uma coisa para preparar as pessoas para dirigir veículos de comunicação - não comercialmente, editorialmente. Porque tem o lado de dirigir como empresários, empreendedores, ou como dirigentes comerciais. Mas é outro mundo. Estou separando Igreja e Estado aqui. Estou falando do lado jornalístico. Eu poderia também criar uma escola (e talvez venha a fazê-lo) para administração da empresa de mídia. Mas é mais perto de Administração de Empresas, tem um monte de escolas. Ao passo que, do lado da pós-graduação em Jornalismo, não tem virtualmente nada. Um dia fiz uma lista das coisas que gostaria de fazer num curso. Fiz uma lista de umas 15 disciplinas. Aí decidi procurar uma instituição de bom nível, em São Paulo, com a qual pudesse desenvolver esse projeto.

 

O senhor sempre pensou numa instituição privada?

Pensei primeiro que não podia ser estadual ou federal. Porque você não consegue fazer nada com as estaduais ou federais. Elas estão presas pelos seus regulamentos. Mesmo com sete advogados, em 20 anos, você não consegue montar. Sei porque o Mindlin (o empresário e bibliófilo José Mindlin, morto no ano passado, que conseguiu depois de muita persistência doar sua Biblioteca Brasiliana para a USP), por exemplo, me contou a aventura dele. E eu não queria universidades com fins lucrativos. Sou da velha tradição de que as melhores universidades do mundo, por definição, não buscam lucro. Não tenho nada contra o lucro, mas acho que não combina muito com o mundo universitário. E, olha, eu sou um defensor da livre iniciativa. Mesmo. Desde sempre acredito que, bem regulada, bem controlada, é a melhor solução encontrada até hoje neste planeta para gerar riqueza e desenvolver países. Mas não gosto dela no ensino universitário. Então eu disse: "Vou procurar uma escola que não seja nem estatal nem for profit." Lembrei da ESPM, quando voltei dos Estados Unidos fiz um curso no que viria a ser a ESPM anos depois. E eu sou do conselho da ESPM desde sempre. Fui lá e disse: "Vocês gostariam de montar uma escola de pós-graduação em Jornalismo assim? Eu teria enorme prazer em bancar isso." Não tinha a menor ideia de como era a legislação brasileira, a regulamentação, a dificuldade. Mas eles ficaram encantados. Aí eu chamei dois escritórios de advocacia.

 

Foi muito complicado achar um meio de colocar o projeto em prática?

Eu disse aos advogados: “Quero fazer um endowment.” Aí disseram: “Não tem aqui.” Como não tem? Porque você não pode dar dinheiro para uma escola, uma universidade, o que for, dizendo onde deve ser gasto. Ou seja: se você dá, você deu, mas eles podem fazer o que querem com isso. "Mas quero que gastem para montar o tal curso de pós-graduação." Seis meses de trabalho para encontrar uma fórmula, um jeito de fazer. E encontramos um jeito. Estou à disposição de quem quiser seguir o caminho, não é segredo, é complicado só. Tive de montar um instituto e fazer um acordo entre o instituto e a escola. E tem mais uma complicação. Porque no Brasil, para fazer a doação, você paga imposto. É como se deixasse o dinheiro para seus filhos. Qualquer doação para universidade, hospital, escola, museu, é tratado exatamente, do ponto de vista fiscal, como herança.

 

Quando deveria ser estimulado...

Nos Estados Unidos é o contrário. Quanto mais você doar para universidade, museu ou hospital, mais crédito você tem para o seu Imposto de Renda. Você tem benefício fiscal, xis por cento do que você doou é um crédito contra os seus impostos futuros. Aqui, não. Na hora da doação você paga o imposto. Eu disse: "Bom, vou pagar o imposto, vou montar o instituto, vou fazer isso tudo." Que é, repito, muito mais complicado do que deveria ser se o Brasil quer estimular esse tipo de coisa. Porque tem pouca gente que quer chamar advogados, montar institutos, pagar impostos, coisa e tal. O objetivo do Brasil deveria ser inverter isso, mudar a legislação para facilitar.

 

Mas muita gente não tem clareza do que quer fazer, pode só querer ajudar.

Sim, mas você pode dar dinheiro para uma universidade construir um estádio ou um ginásio, um prédio, uma sala. Ou uma cátedra. O que eu defendo é o direito do doador de escolher o que ele quer fazer. É tão mais divertido, atraente, para as pessoas dizerem: "Ah, eu quero deixar meus quadros para o museu, esta coleção aqui. Eu quero acertar com o museu onde vão pendurar meus quadros e tal". Mas você não consegue. Três amigos meus queriam doar uma coleção de quadros estupenda para a Pinacoteca. Depois de dois anos de negociação, desistiram.

 

E depois desses seis meses de trabalho jurídico?

Fomos eu, José Roberto Whitaker Penteado, que é o atual presidente da ESPM, e o diretor de Pós-Graduação (Richard Lucht) aos Estados Unidos visitar as três ou quatro melhores escolas de Jornalismo. Fomos a Nova York, visitar Columbia e uma nova que eu recomendo que todo mundo conheça, a Cuny, City University of New York, que tem três anos. É fantástico ver as duas, porque uma tem um século e a outra está nascendo agora. Depois fomos a Chicago visitar a Northwestern, que tem uma escola maravilhosa de Jornalismo, chamada Medill. E fomos a Berkeley, na Universidade da Califórnia, em São Francisco.

 

Como é a linha dessas escolas?

São todas de pós-graduação, não tem graduação. Eu não queria nem ver graduação. A minha alegria foi que a lista de disciplinas que eu tinha elaborado... levei para lá e mostrei aos reitores. Um deles me falou: "Senhor Civita, como é que o senhor elaborou essa lista?" Eu disse: "Com base naquilo que eu vivi ao longo dos últimos 50 anos, o que eu sei que os jornalistas de meio de carreira precisam saber para a frente." Ele me olhou e disse: "Gozado. Você sabe que nós levamos dois anos discutindo nosso currículo? Dois anos. Pesquisas, brigas, entrevistas, conferências. E chegamos à mesma lista!" Fiquei feliz, porque era essencialmente a mesma lista. Voltamos animadíssimos. E iniciamos o trabalho de estruturar o curso, de recrutar um diretor, um coordenador, um assessor técnico da ESPM. E de começar a esboçar essa história, convidar os professores. Hoje acho que já temos, de 16 disciplinas, 15 professores.

 

Que lacunas o sr. encontrou na formação de jornalistas nesses 50 anos de experiência?

Tendo feito curso de Jornalismo ou não, você começa normalmente numa redação como repórter. Vai aprendendo fazendo. Num certo momento, alguém te chama e diz: "Agora você vai ser editor ou vai chefiar pessoas." Quem te preparou para lidar com gente? Ninguém. Quem te ensinou a organizar, planejar, lidar com talentos? E administrar talentos? E estimulá-los? E remunerá-los? Ninguém. E assim por diante. As pessoas vão subindo na carreira sem ter sido preparadas para os novos degraus que vão galgando. Então o objetivo deste curso é pegar as pessoas de maior talento. Não vamos ensinar Jornalismo, não vamos ensinar a escrever uma matéria, isso já fizeram. Não vamos ensinar a fazer títulos, nos meter no beabá de checagem, de verificação, de equilíbrio. Se não sabe depois de dez anos é melhor esquecer o assunto. O objetivo é ensinar o que não sabe depois de dez anos e precisa saber para os próximos dez. Porque muda tudo. Tua vida muda. E ninguém te preparou.

 

E as disciplinas do curso?

Tem História do Jornalismo, é bom. Ética na Imprensa, que é colocar a pessoa dentro de situações que surgem todos os dias nas redações. Teve um sequestro. A família está pedindo para não dar nada, a polícia está pedindo para não dar nada. Eu publico ou não publico? Eu tenho dúvida sobre esta acusação, o que eu faço? Eu tenho obrigação de contar tudo o que sei ou posso guardar uma parte para mim, por que solicitaram sigilo? E assim por diante. As questões éticas básicas você enfrenta discutindo não só na prática. O curso tem Formação e Comunicação na Era Digital: tem gente que já sabe tudo e gente que não sabe nada. Outra é o Jornalista e os Números, um dos grandes problemas das redações.

 

Saem erros crassos por causa disso...

As pessoas que entram no ramo jornalístico normalmente estão fugindo dos números. E elas precisam aprender números e ordens de grandeza.

 

As dimensões.

Exatamente. Especialmente dimensões. E precisam saber comunicá-los (os dados numéricos). Porque acontecem coisas terríveis na imprensa com gente que não sabe lidar com números. E assim por diante. Tem um pouco de tudo aqui. E eu garanto a você: quem sobreviver ao curso (risos), quem se formar no fim, está apto a assumir a direção do que for, desde que tenha algum talento.

 

Boa parte do público do Estadão.edu ainda está pensando em termos de graduação. O que é importante para um jornalista mais jovem levar em conta?

Uma das disciplinas do curso envolve conhecer seu público. Quem é seu público? O que se sabe sobre ele? Como você o define? Faço isso há décadas na Abril. Sempre que posso almoço com a cúpula de uma redação e faço perguntas: "Me conte do seu leitor ou da sua leitora. Quantos anos tem? Tem filho, não tem, trabalha, vai à academia? Quando chega em casa, tem quem prepare o jantar para ela? Janta com a família ou é cada um por si? Assistindo à televisão ou não?" E assim por diante. Tem que conhecer seu leitor! Individualmente e coletivamente.

 

O sr. acha que falta ao jornalista uma compreensão melhor do seu papel como formador de opinião, dos mecanismos de formação de opinião, até para entender melhor a relevância do que faz?

No dia a dia você não está formando opinião pública, está fazendo reportagem. Meu primeiro conselho é: "Não se preocupe com isso, não comece por aí." Quando você chega a ser diretor do Jornal Nacional, de Veja ou do Estadão, aí você começa a pensar no papel do seu veículo na formação. Mas aí também eu não me preocuparia muito com isso. Porque as pessoas formam sua opinião, felizmente, pela multiplicidade de meios.

 

Quando se fala de Jornalismo hoje, existe sempre como pano de fundo a "questão de US$ 1 bilhão": Qual o futuro do Jornalismo? Nos meus contatos com estudantes digo: "Vocês não têm de atrelar seu futuro ao futuro do jornalismo diário impresso. A demanda pelas informações jornalísticas só tem crescido, então não importa tanto o meio."

Plenamente de acordo.

 

O sr. certamente é muito mais preocupado com a questão, faz parte do seu negócio.

O importante é lembrar o seguinte: o que o bom jornalismo faz? Seleciona, organiza, verifica (ou deveria), analisa, ilustra, explica -- deve ter mais meia dúzia de verbos. Isso independe do meio. E isso continua sendo necessário. Aliás, eu diria cada vez mais necessário, na enxurrada de informação que tem aí. Acho que todo mundo precisa de alguém para selecionar e organizar, e verificar, e chancelar a informação. Então eu não vejo, independente das plataformas, eu não vejo nenhum risco. Muito pelo contrário, vejo um aumento dessa necessidade. Porque, com cada vez mais informação, ou você dedica o seu dia inteiro a ir atrás ou você precisa de alguém que faça para você. Então, o jornalismo tem de continuar.

 

As pessoas se informam em diferentes escalas, em diferentes momentos do dia...

Se vai ser em papel, em iPad, se é em tablet, nos seus óculos, não importa. O que importa é a função.

 

O tablet, para esse momento em que o Ricardo Gandour (diretor de Conteúdo do Grupo Estado) chama de desintermediação provocada pela internet, é uma boa aposta para retomar receita, de cobrar pelo produto jornalístico?

Receita é uma questão importante para quem está preocupado: "Bom, mas quem vai pagar meu salário?" O jornalista diz: "Eu sei que o que eu faço é necessário, mas quem vai pagar meu salário?" Bom, se não tiver receita, não vai ter salário. Eu acho que vai ter receita e salário. Acho que vão ter mudanças impossíveis de imaginar hoje, mas no conjunto eu tenho certeza de que a função é necessária. Que alguém ir buscar a informação é necessário. Que os amadores não podem fazer isso, os amadores, que não tem nada a fazer na vida a não ser entrevistar gente e ouvir um que acha isso, outro que acha o contrário. E quem vai organizar? Quem vai hierarquizar? Isso é questão para jornalista profissional fazer. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Vai ser monetizável? Eu tenho certeza de que as pessoas vão estar dispostas a pagar por isso. Porque é um serviço valioso. E não venha me dizer que está tudo de graça na internet. Só se você não tiver mais nada para fazer na vida. Mesmo assim, no fim de 12 horas que você passe na internet, no fim do dia você tem uma boa visão do conjunto? Não. Você precisa de profissionais, para filtrar, para escolher, ponderar. Para avaliar. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Nenhuma.

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