Damien Meyer/AFP
Damien Meyer/AFP

Citando riscos educacionais, painel de cientistas defende reabertura das escolas nos EUA

Comitê norte-americano aponta que ensino online é ineficaz para maioria de crianças no ensino primário e aquelas com deficiência

Apoorva Mandavilli, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2020 | 16h00

Entrando no polêmico debate sobre a reabertura das escolas, um importante comitê de cientistas e educadores recomendou que, se possível, crianças mais novas e aquelas com necessidades especiais retornem às aulas presenciais nos Estados Unidos.

O relatório - divulgado pela prestigiada National Academies of Science, Engineering and Medicine - é menos prescritivo no caso das escolas primárias e secundárias, mas fornece uma base para as instituições escolares decidirem se e como abrirem, com ajuda de especialistas em saúde pública, das famílias e professores.

O comitê enfatizou as precauções habituais como lavagem das mãos, distanciamento físico e redução de atividades em grupo, incluindo o período de almoço e de pausas das aulas.

Mas os especialistas foram mais além das diretrizes emitidas pelo Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) e outros grupos, insistindo também no uso de máscaras cirúrgicas por todos os professores e funcionários das escolas durante as horas de atividade e por todos os alunos, incluindo os da escola primária.

Checagens regulares de sintomas devem também ser realizadas e não só de temperatura. No longo prazo, as escolas deverão aprimorar seus sistemas de filtragem de ar e ventilação, e o governo federal, bem como os Estados, devem financiar tais medidas, o comitê insistiu.

O ensino online é ineficaz no caso da maioria das crianças da escola primária e aquelas com necessidades especiais, concluiu o painel de cientistas e educadores. Na medida do possível, “deveria ser uma prioridade a reabertura das escolas para as aulas presenciais, especialmente no caso das crianças de menor idade”, afirmou Caitlin Rivers, epidemiologista na Johns Hopkins e membro do comitê.

Mary Kathryn Malone, mãe de três crianças, está ansiosa pela reabertura das escolas em Mount Vernon, Ohio, onde vive. Sua filha de nove anos sente falta das suas amigas e a de três anos só fica parte do dia na creche e não no período em que Kathryn trabalha.

Mas ela está mais preocupada com seu filho de sete anos que precisa de atenção porque tem déficit de atenção, dislexia e é hiperativo.“Num dado momento os três estavam há três semanas sem fazer os trabalhos da escola”, disse Mary Kathryn, que é professora de francês no Kenyon College. “Quando vi a montanha de deveres de casa acumulando, foi muito estressante”.

A Academia Americana de Pediatria também recomendou que as escolas reabram, recomendação que foi citada amplamente pelo governo Trump que vem defendendo um retorno à uma vida aparentemente normal apesar do aumento do número de infectados em muitos Estados.

Muitos estudos sugerem que o vírus apresenta riscos mínimos à saúde dos menores de 18 anos. E o estudo do comitê diz que as evidências de como as crianças são facilmente infectadas ou propagam o vírus para outros, incluindo os pais e professores, são “insuficientes” para se tirar conclusões.

Escolas e transmissão comunitária

Outros especialistas se mostraram agradecidos pela distinção feita no estudo entre crianças mais novas e mais velhas. “Acho que é um dado inteligente”, disse o Dr. Ashish Jha, diretor do Harvard Global Health Institute. “O risco é diferente no caso de um aluno do terceiro ano comprado com aquele que está já no décimo ano escolar, e digo isto como pai”, afirmou.

Mas Jha e outros especialistas observaram que o comitê não se manifestou quanto à transmissão comunitária do quando as escolas abertas poderão se tornar locais inseguros porque uma grande quantidade do novo coronavírus estará circulando. “Eles deixaram de lado a questão mais crítica”, segundo Jha.

Mas Rivers afirmou que as escolas têm de decidir como e quando abrir, fechar ou reabrir levando em conta muitos fatores, incluindo os níveis da doença na comunidade, além de também traçar planos para o que fazer quando alunos ou professores forem infectados. “Mesmo com amplas medidas para atenuar o problema não é possível reduzir o risco a zero e isto tem de ser incluído nas discussões”, acrescentou ela.

Para os autores do relatório, reabrir as escolas é uma prioridade pois as escolas preenchem muitas funções além de prover educação. “Tem a ver com os cuidados da criança, nutrição, serviços de saúde, apoio social e emocional”, disse a Dra. Enriqueta Bond, que preside o comitê. “Estas funções na verdade são subestimadas, na minha opinião, nos debates que vêm ocorrendo a respeito”.

Reformas nas escolas

Cerca de 54% das escolas públicas precisam modernizar ou substituir suas instalações e 41% têm de trocar seus sistemas de ar condicionado e ventilação, segundo análise do Escritório de Contabilidade do Governo (GAO). “Um dos aspectos chocantes para mim é o fato de mais de 50% das escolas estarem em péssimo estado”, disse Bond.

Novas evidências indicam que o coronarívus circula no ar e muitos espaços internos necessitam de um melhor sistema de filtragem do ar para evitar infecções. “Entre hoje e setembro é necessário instalar novos sistemas de ventilação”, disse ela.

Nesse ínterim as escolas têm de adotar soluções mais simples: antes de chegar a temporada de frio, precisam copiar as medidas adotadas na Europa e as aulas serem dadas ao ar livre, instalando tendas ou improvisar salas de aula externas, disse Jennifer Nuzzo, epidemiologista no Johns Hopkins Center for Health Security.

Contratação de funcionários

As escolas também devem contratar funcionários extra para substitui professores ou atendentes que não queiram retornar, e implementar recomendações como manter o distanciamento social nas salas de aula e garantir que grupos de crianças fiquem com um professor particular.

O fato é que 28% dos mais de 3,8 milhões de professores que trabalham em tempo integral têm mais de 50 anos de idade e um terço dos diretores têm mais de 55 anos, e são grupos de idade com alto risco de contraírem a forma grave da covid-19.

Numa pesquisa realizada, 62% dos professores e administradores disseram estar preocupados com o retorno das aulas enquanto o vírus continuar a ser uma ameaça. “O problema no caso do pessoal que trabalha nas escolas não foi muito debatido”, disse Bond.

O peso das desigualdades sociais

As desigualdades raciais e socioeconômicas são uma outra preocupação séria. As comunidades em que as crianças lutam para aprender em escolas onde faltam professores e estão dilapidadas são as mais fortemente atingidas pela pandemia, disse Keisha Scarlett, membro do comitê e diretora da área de equidade, parcerias e engajamento na Seattle Public Schools.

O ensino remoto com frequência é difícil para as crianças de famílias de baixa renda. Em todo o país, 30% das famílias indígenas e 20% das famílias latinas ou negras não têm acesso à Internet e só têm acesso a um smartphone, comparado com 7% das famílias brancas e 4% das famílias asiáticas.

Os adultos nessas comunidades também são pessoas que trabalham em serviços essenciais que não podem ficar em casa com os filhos, disse Scarlett. As taxas de hospitalização por causa da covid-19 são quatro a cinco vezes mais altas entre as populações indígenas, latinas e negras do que entre os indivíduos de raça branca. “A covid-19 exacerbou essas disparidades”, disse Scarlett.

O estudo também ressaltou diferenças importantes entre as escolas urbanas e rurais. Em torno de 26% das pessoas nos distritos rurais e 32% dos que vivem em áreas tribais não têm acesso bom à Internet.

Orientação do governo norte-americano

O CDC tem oferecido orientação limitada quanto à reabertura das escolas e deixa para os líderes distritais a tomada de uma decisão para qual eles não estão preparados.

O novo relatório oferece diretrizes mais detalhadas sobre como reabrir, incluindo uma lista de especialistas para consultar - como epidemiologistas que interpretam as taxas de transmissão da doença. Forças tarefa locais também devem levar em conta o número de infecções por coronavírus, hospitalizações e mortes e a porcentagem de testes com resultado positivo para a doença.

O presidente Donald Trump afirmou que recomendações menos detalhadas do CDC foram “duras e caras”. Mas as feitas pelo novo estudo provavelmente estão fora do alcance de muitas escolas, custando aproximadamente US$ 1,8 milhão no caso de um distrito escolar com oito estabelecimentos e cerca de 3.200 alunos. “Em minha opinião isto é prioritário”, disse Nuzzo. “A economia depende disto. O futuro do país depende disto”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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