Cidade no Espírito Santo adota 'botão de pânico' em escolas

Patrulha escolar sorteia escolas que são visitadas, e onde alunos são revistados

Clarissa Thomé,

10 Fevereiro 2010 | 19h06

No início do ano letivo, 50 escolas municipais de Vila Velha, no Espírito Santo, receberam um novo equipamento eletrônico - um botão antipânico, dispositivo que fica em poder do diretor para acionar equipes de segurança em caso de violência. A iniciativa foi tomada para inibir o tráfico de drogas, furtos e roubos nas dependências escolares e nas redondezas. O aparato de segurança adotado pela Secretaria Municipal de Educação inclui ainda blitze da patrulha escolar, com revista de alunos, e instalação de câmeras. Especialistas em educação e violência ouvidos pelo Estado criticaram as medidas.   De acordo com o secretário Heliosandro Mattos, a decisão de intensificar a segurança nas escolas ocorreu depois do assassinato de um aluno numa instituição estadual, no ano passado. "Os pais deixam seus filhos aos nossos cuidados, acreditando que a escola é um local seguro, de proteção. Temos o dever de garantir isso, além de uma educação de qualidade", afirmou.   Das 92 escolas municipais de Vila Velha, 50 receberam o botão antipânico na terça-feira e 10 estão equipadas com circuitos de câmera.   A patrulha escolar sorteia, diariamente, 30 escolas, que são visitadas. Agentes munidos de detectores de metal vão às salas de aula e fazem a revista dos estudantes.   "A revista é garantida por mandado judicial da Vara da Infância e Adolescência. Inclusive a juíza Patrícia Neves acompanha algumas blitze. No ano passado, recolhemos nove armas brancas, além de grande quantidade de drogas e material pornográfico", afirmou Mattos.   O botão antipânico lembra um controle remoto. A patrulha escolar é acionada em caso de emergência e leva de nove a quinze minutos para chegar à instituição que pediu socorro. Em caso de dano ao patrimônio ou de risco de vida, a Polícia Militar é avisada pela própria equipe de segurança. As câmeras são compradas por cada escola (a administração é descentralizada), e custam entre R$ 8 mil e R$ 13 mil.   "Conseguimos zerar os episódios de violência na Escola Municipal Antônio Bezerra de Farias, que fica na Vila Garrido, e tinha alto índice de ocorrências", comemora Mattos.   Mas o professor Sergio Kodato, coordenador do Observatório de Violências e Práticas Exemplares da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, alerta que o efeito pode ser apenas temporário.   "Momentaneamente os casos de violência direta caem para zero; mas a agressividade e destrutividade podem tomar outras formas como o bullying, a violência simbólica, a falta de motivação para o estudo".   Para o professor, o medo e o controle repressivo são prejudiciais para desenvolvimento saudável, o exercício da cidadania e autonomia. "A delação, o vigiar e punir formam mentes totalitárias".   A educadora Maria de Fátima de Paula, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) defende que as instituições busquem outras formas de coibir a violência, que incluam o diálogo e a participação dos pais na definição do projeto pedagógico da escola.   "Acho que essas medidas fazem parte de um processo bastante autoritário e que, no limite, podem ferir o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Muitas vezes, ações extremas podem ter efeito perverso. Em vez de ajudar o controle, a ordem e reduzir a violência podem acabar exacerbando essas práticas", afirmou a professora, que é especialista em relações de poder nas escolas e práticas disciplinares.

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