Chuvas de verão e riscos geológicos: a experiência de campo com estudantes universitários

Estamos atravessando mais um período chuvoso e várias cidades brasileiras enfrentam problemas ligados as enchentes e aos deslizamentos em morros. O noticiário dos jornais e da televisão anunciam verbas do governo federal para atendimento emergencial das comunidades afetadas.Na caça de culpados os administradores públicos e São Pedro são os eleitos preferenciais. Assim, a água, que apareceu nos primórdios do nascimento do Planeta Terra e deu origem à vida biológica, hoje mata.Geralmente as pessoas mais afetadas são as de baixa renda, porque acabam ocupando as áreas inundáveis e as encostas por falta de opção de moradia. Os terrenos geologicamente instáveis, as chuvas de verão e a construção de casas sem orientação técnica se encarregam dos acidentes.A longo prazo, uma reforma urbana no âmbito dos municípios pode resolver o problema. Nessa reforma seriam realocadas as populações que vivem em situações de risco geológico iminente. Não é preciso dizer que isto pode custar caro aos cofres públicos e envolve interesses distintos num mesmo espaço urbano. É um desafio ao qual os políticos não podem se furtar.A maioria das universidades está instalada em territórios destes municípios. Elas, sejam públicas ou privadas, têm um importante papel social a desempenhar neste cenário.Tomando como exemplos os cursos de Engenharia Civil e de Geologia e numa rápida garimpada em trabalhos publicados em anais de congressos nestes últimos 20 anos, vemos que por iniciativa de alguns professores a sala de aula foi transferida para o campo. Nestes artigos estão registradas as experiências com estudantes universitários numa atividade prática e de ação real com a comunidade.A abordagem do tema, que na maioria dos vezes é feita virtualmente num plano de ensino formal com a simples exposição de casos ocorridos em desenhos e em fotografias, ganha vida. A sistemática das observações de campo, como método a ser seguido para o conhecimento das condições dinâmicas do meio físico, não está nos livros didáticos.São roteiros de estudos que podem ser encontrados em vasta documentação técnica gerada ao longo dos anos pelo serviço público e que, adaptados, podem ser facilmente aplicados. Uma vez levantados os dados, a elaboração de uma síntese pode propor tanto medidas preventivas como a concepção de projetos de obras de engenharia.Contudo, para que isto ocorra um ingrediente deve fazer parte do grupo de estudantes e professores: a vontade política.Neste tipo de atividade é visível que sem a vontade política os objetivos não serão alcançados, pois a maioria dos cursos de Engenharia Civil e de Geologia são voltados para capacitar alunos para o mercado de trabalho e não para a construção de uma consciência crítica da futura profissão como uma função social.Embora seja um processo lento de envolvimento de trabalho, esse método de aprendizado tem mostrado que algumas disciplinas dadas nestes cursos são um instrumento dinâmico de intervenção em áreas de risco geológico.Por último, esta proposta de aula prática possibilita uma abordagem multi e interdisciplinar dos conteúdos da grade curricular e produz benefícios concretos em áreas onde não se dispõe de informação técnica e a um custo praticamente zero.Os dados gerados durante o processo de pesquisa podem, por exemplo, ser integrados em um trabalho de conclusão de curso e estimular mentes e corações no caminho de um trabalho comunitário junto a população envolvida.* Geólogo, doutor em Ciências pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, pós-doutor em Hidrogeologia pela Universidade Politécnica da Catalunha, professor da Universidade Federal de Santa Catarina - http://www.geocities.com/heraldocampo

Agencia Estado,

16 de março de 2004 | 13h33

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.