Christian e o briefing digital

Estudante conhece a (falta de) rotina de uma agência de propaganda voltada para a web

Marina Azaredo, Especial para O Estado de S. Paulo

28 Julho 2009 | 06h05

Christian Michelassi, de 18 anos, cursa o 3º semestre de Publicidade e Propaganda na ESPM. É estagiário do blog Newronio, um "verificador de tendências" da universidade. Escreve sobre comunicação, consumo e mídias sociais.   Andre Matarazzo, de 34, criava sites nos anos 90. Fez publicidade voltada para a web numa grande agência, rodou por Holanda, Suécia, Canadá e Japão. Voltou em 2006. Com uma sócia, abriu a Gringo como um pequeno estúdio voltado para clientes do exterior. Hoje com 43 funcionários, ela atende a gigantes como Coca-Cola e Microsoft.   Christian e Andre se encontraram na Gringo, no Itaim, zona sul de São Paulo, para trocar ideias sobre o ramo da publicidade que mais cresce no Brasil: de 2007 para 2008, a verba para web aumentou 44%, segundo o Inter-Meios, da revista Meio & Mensagem.   Christian nunca tinha pisado numa agência digital. André não cursou Publicidade - fez Hotelaria, mas abandonou. O estudante conheceu a rotina da Gringo e o desenvolvimento de um dos principais trabalhos da empresa, um site para a Microsoft. Prova de que a publicidade digital vai muito além dos banners. Ela se confunde com entretenimento e recorre a sites, vídeos, animações, games, redes sociais. Envolve a web e também celular e bluetooth - com o chamado mobile marketing.   As paredes rabiscadas da Gringo têm datas de projetos, desenhos, piadas. Uma mesa de sinuca é a primeira coisa que se vê ao entrar. "Não controlo horário, é tudo flexível", diz Andre, de jeans, camiseta e tatuagens nos braços e na cabeça raspada. Redatores, programadores e designers usam bonés e até chinelos.   Christian: "O que você analisa na hora de contratar?" Andre: "Olho sempre o portfólio. Não é preciso ter material muito bom ainda. Mas consigo ver como a pessoa pensou, se tem cópia, ou ideias brilhantes."   "É preciso ter formação acadêmica?", insiste Christian. "Nunca pedi currículo. Prefiro bater papo, saber o que a pessoa já fez, como pensa."   Agora é Andre quem engata uma pergunta. "Você acha que o curso prepara para o mercado?", diz. "Acho que sim. Os professores têm muito contato com o mercado, e isso ajuda."   Falando em professores, a reportagem pediu a eles e a publicitários dicas para quem quer entrar na área. A necessidade de ser "fuçador" foi unanimidade. "Tem de ser curioso por natureza, pesquisar, gostar de tecnologia", enumera Vicente Mastrocola, professor de Criação Digital da ESPM.   "É preciso entender como a sociedade consome informação", diz Eduardo Menezes, um dos idealizadores da Mil Casmurros (www.milcasmurros.com.br), campanha para a microssérie Capitu, da TV Globo, que levou um dos 32 leões brasileiros no Festival de Publicidade de Cannes deste ano - um site estimulava o internauta a ler e gravar na webcam passagens do livro de Machado de Assis, que foi fatiado em mil trechos. Como Andre, Menezes considera a faculdade dispensável. "Cursei até o 5º semestre de Publicidade na UFRGS. Foi frustrante."   Roger Rocha, sócio da agência Tribo Interactive, discorda. "É fundamental a sistematização do conhecimento que uma boa faculdade oferece."   Luli Radfahrer, graduado em Publicidade pela USP e hoje professor da universidade, diz que o ensino superior não prepara para a propaganda do futuro. "O publicitário tem perdido terreno para gente de Administração e Engenharia."   Formado em Administração, Marcelo Castelo aventurou-se pela web há dez anos, pela "vontade de empreender". Começou com o site fulano.com.br e criou, com quatro sócios, a F.Biz, que se destaca em mobile marketing. Apesar de ter pós em Marketing, ele diz que o diploma nem sempre conta. "Temos muitos programadores sem faculdade."   A diversidade é uma marca do mercado. Entre os 70 funcionários da Tribo, há 12 perfis diferentes: publicitários, claro, mas também designers, jornalistas, administradores e especialistas em Tecnologia da Informação.   E os salários, são mais altos que na publicidade convencional? "Não. A fatia do bolo do online ainda é pequena", diz Roger. A concorrência limita ganhos. "Três pessoas podem se juntar e fazer sites."   Formado em Ciência da Computação, Leandro Guedes, de 26, é um exemplo do sucesso dos pequenos. Em 2007, criou a Blue Mobile, especializada em marketing via bluetooth. A empresa de Juiz de Fora tem dois funcionários e dois sócios, mas atende a clientes como TIM e Cervejaria Devassa. "Meu hobby virou negócio", diz Guedes.

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