TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Centro de São Paulo vira sala de aula de matemática

Professor estimula pedestre a aprender cálculo e álgebra em poucos minutos

Guilherme Soares Dias, Especial para o Estado

15 Março 2014 | 20h34

SÃO PAULO - "Matemática financeira", "álgebra", "cálculo", dispara o professor de Matemática Márcio Barbosa, de 54 anos, tentando chamar a atenção dos passantes para o quadro branco no meio do calçadão da Rua 15 de Novembro, no centro de São Paulo. A voz tímida não surte efeito em parar os apressados em horário de almoço, que lançam olhares desconfiados.

Ele trabalha há oito anos dando aulas nas ruas. "Quando o DVD se tornou barato e foi difundido pelas casas, preparei aulas em vídeo e comecei a vendê-lo", conta. Barbosa explica que trabalha com a autoestima dos alunos. "A maioria das pessoas tem dificuldade com Matemática. Faço exercícios de algoritmo, porcentagem e tabuada simplificados e empolgo quem precisa da matéria", prega.

Mas parece difícil chamar a atenção numa cidade com tantos estímulos visuais. Enquanto ninguém para, ele brinca com a calculadora. O músico que divide o espaço com o professor tem um fiel espectador e ganha seus primeiros trocados. O público que passa pelo local é diverso, vai desde os engravatados da Bolsa até moradores de rua.

Barbosa usa um método chamado de "Matemática de Braços Cruzados" por facilitar contas complexas. "Não tenho tempo de um professor comum. Bombardeio as pessoas em 15 minutos com técnica de cálculo com rapidez. Tento reverter o quadro de quem não sabe nada. Já vi até aluno de Engenharia que tem dificuldade", diz.

Parte do público-alvo dele vai fazer concurso público. Durante essas provas, o professor lembra que o candidato só tem três minutos para resolver os exercícios, por isso, ele tenta simplificar os cálculos. "Primeiro, faço a pessoa memorizar a tabuada em cinco segundos. Isso mexe com todo mundo. É um vínculo forte na memória da gente", afirma, agora com tom de voz de um vendedor convincente.

O objetivo, segundo Barbosa, é satisfazer o aluno. O trabalho vai além de resolver exercícios. "Gosto de fazer os estudantes ficarem apaixonados e fazer frutificar o que aprendem." Os DVDs do professor das ruas são vendidos em kits (R$ 100 por cinco discos). "Cada um sai por R$ 20 e tenho máquina de cartão", já adianta. Ele trabalha das 9h às 19h nas ruas e vende cerca de 25 caixas de DVDs por dia, ganhando mais dinheiro do que quando trabalhava em sala de aula.

O segurança Rogério Vieira, de 36 anos, que viu uma aula do professor na frente da prova de um concurso, aparece com interesse em comprar os DVDs. "Não passei por causa da Matemática. Ele ensinou umas contas e uma delas caiu na prova."

Transição. Na década de 1980, Barbosa desistiu do curso de Engenharia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), para dar aula de cálculo. Na sala, o professor conta que o estresse era grande já que queria fazer com que todos os alunos aprendessem a disciplina a todo custo. "Isso me rendeu um problema emocional e desenvolvi psoríase", revela.

Hoje, casado com uma ex-aluna, com quem tem dois filhos, Barbosa se divide durante a semana entre São Paulo e Rio, onde fica no Largo da Carioca. Ele admite que as aulas na sala eram mais fáceis já que era o centro das atenções, enquanto na rua divide o espaço com outros estímulos visuais. "Mas gosto de ficar na rua. Tenho o maior prazer em hipnotizar as pessoas. Acabo sendo um pouco artista." Nas suas aulas ao vivo, Barbosa nunca foi roubado. "Todo mau caráter tem repúdio à Matemática."

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