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Carreiras tradicionais têm destaque no mercado, mostra estudo

Medicina, Odontologia e Engenharia Civil são áreas em que há boa remuneração e facilidade de encontrar emprego

Paulo Saldaña, O Estado de S. Paulo

27 Agosto 2013 | 10h37

O que você quer ser quando crescer? Para responder a essa tão repetida pergunta, além de questões existenciais e inspirações vocacionais, três pontos costumam ser considerados na escolha de uma carreira: vou conseguir emprego, ganharei bem e, se possível, terei uma jornada de trabalho não muito extensa? O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), do governo federal, criou um ranking com essas variáveis para entender qual carreira tem maior potencial de retorno.

Com base em dados do Censo de 2010, o instituto chegou a várias conclusões. Em qual carreira, na média, se ganha mais? A resposta é Medicina, com R$ 6.940 mensais, ante Turismo, Viagem e Lazer, com R$ 2.884,15 (última posição em um ranking de 43). Quem trabalha mais? Setor militar e de defesa, com 42,46 horas semanais. E quem, em idade ativa, tem mais chance de conseguir trabalho? Medicina aparece no topo outra vez, com uma taxa de ocupação de 91,8%.

O índice, batizado de Você na Universidade, mostra um cenário fixo: um homem de 49 anos na cidade de São Paulo. Para o ranking geral, a questão salarial teve peso 2 e a jornada também foi levada em conta como diferencial.

Como as condições de trabalho e oportunidades variam pelo País, o Estadão.edu escolheu três carreiras líderes no levantamento geral – Medicina, Odontologia e Engenharia Civil – e buscou entender quais são as diferenças por Estado. Nesse caso, a referência usada é sempre a de profissionais com idade entre 44 e 49 anos. Os dados completos estão no endereço: compaso.com.br/universidade.

Em Medicina – a carreira líder em remuneração –, a distância salarial é enorme: um médico do Distrito Federal recebe, em média, cerca de R$ 9 mil a mais do que um profissional na mesma faixa etária que atua na Paraíba, onde está a menor média salarial. Nas outras duas carreiras, essa distância varia entre R$ 5 mil e R$ 6 mil – também entre as duas unidades da federação.

As médias salariais por Estado mostram, porém, uma tendência: os ganhos na Região Norte são os maiores do País nas três carreiras analisadas. Médicos desses Estados têm salário quase 10% maior do que o registrado no Sudeste, a região mais rica do País. Os valores revelam a necessidade de profissionais. “O salário é uma forma de atrativo”, diz o professor Roberto Lobo, ex-reitor da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em ensino superior e carreira.

O déficit de médicos no Brasil é conhecido e levou o governo federal a lançar o programa Mais Médicos, com a proposta polêmica de trazer profissionais de outros países. Na semana passada, o Ministério da Saúde anunciou que o Brasil receberá 4 mil médicos vindos de Cuba.

Em falta. Na área de Engenharia Civil, que representa outra conhecida lacuna no País, os profissionais dos Estados do Norte conseguem, na média, ganhos 9% superiores do que os do Sudeste. “Ainda formamos poucos engenheiros e uma quantidade ainda menor de bons profissionais para a indústria. O número de ingressantes começou a crescer agora, mas precisamos saber se as instituições serão capazes de formá-los”, diz Lobo.

Morador de Rondônia, o estudante do 4.º período de Engenharia Civil Pedro Henrique Gonçalves, de 26 anos, escolheu a carreira principalmente pela perspectiva de ganhos altos. “Eu gosto de cálculos, mas não queria ser professor”, diz. “Pelo que pesquisei, o curso de Engenharia não era muito disputado aqui no Estado antigamente, mas ficou muito procurado com a construção das usinas do Rio Madeira. Temos de apostar no crescimento do Estado, nas propostas que estão surgindo com o crescimento da população aqui mesmo”, defende. Ser engenheiro civil em Rondônia tem sido um bom negócio. A taxa de ocupação da carreira no Estado é a maior do País, com índice de 94%.

Ocupação. Em Medicina e Odontologia, essas taxas são ainda mais altas em Rondônia, de 95,8% e 94,7%, respectivamente. A possibilidade de melhores salários atrai gente de fora, como o paulistano Mauricio Cavalcante, de 42 anos.

Formado em Odontologia em São Paulo, Cavalcante se mudou há 12 anos para Porto Velho, Rondônia. “Na época em que terminei a faculdade, vi que o mercado já estava saturado. Queria ter o retorno do investimento que fiz nos estudos. Então, pesquisei onde havia poucos cursos de Odontologia e vim para cá”, diz ele. "O mercado de trabalho na região é promissor, há poucos profissionais da área "Eu mesmo preciso de dentistas, não tenho como cuidar sozinho de tudo. O investimento é grande na formação, mas, se o profissional souber trabalhar, o retorno é certo”, explica.

Odontologia aparece em segundo lugar no ranking geral de carreiras do Ipea. Tem a segunda melhor taxa de ocupação, com 89,96%, mas a renda é apenas a oitava melhor – média mensal de R$ 4.238,65.

Por Estado, esse valor varia de R$ 3.837, na Paraíba, a R$ 9.696, média do Distrito Federal – diferença de 152%.

Presidente do Conselho Regional de Odontologia do Distrito Federal, o cirurgião-dentista Samir Najjar ressalta que a média salarial da capital federal destoa do restante do País por causa do perfil da população, formada por muitos funcionários públicos. Najjar faz ressalvas em relação ao posicionamento da carreira no ranking. “A média salarial para um profissional de quase 50 anos pode ser essa, porque ele tem clientela formada e tempo de mercado. Mas, para quem está chegando, a situação é bem diferente”, diz.

O cirurgião ressalta o aumento de cursos nas últimas duas décadas – eles colocam atualmente, todos os anos, 10 mil dentistas no mercado. Najjar afirma que, caso o quadro se mantenha sem alterações, quando os dentistas recém-formados estiverem com 50 anos, dificilmente a carreira estará no topo. “Quem está entrando no mercado hoje tem sofrido muito. Há clínicas contratando  com salário de R$ 1,6 mil para uma jornada de 44 horas semanais”, completa. Um projeto de lei no Congresso Nacional prevê piso salarial de R$ 7 mil para a carreira.

Carga horária. Entre as três carreiras analisadas, Odontologia tem a menor carga horária de trabalho. Com uma jornada de 38 horas semanais, de acordo com o ranking do Ipea, Odonto tem a 14.ª menor carga horária das 43 carreiras.

Em relação aos médicos, a jornada semanal é, na média, de 41,9 horas – a 41.ª do ranking. E o nível de exigência começa cedo. O recém-formado Hugo Tadeu Amaral, de 27 anos, chega a trabalhar 60 horas semanais na residência da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu. “Estou gostando. Trabalhar muito é coisa que já se espera desde a faculdade”, conta ele, que é de São Carlos, cidade onde se formou, mais especificamente na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Quando escolheu a carreira, Amaral já sabia o que viria pela frente. “Médico ganha bem, o que seduz muita gente, mas trabalha muito”, afirma.

O diretor do curso de Medicina da Federal de São Paulo (Unifesp), Antonio Carlos Lopes, diz que a carreira exige dedicação desde a faculdade. “Os cursos bons são de tempo integral. E, quando o médico chega ao mercado de trabalho, tem os plantões fixos, e o profissional ainda precisa trabalhar em vários lugares para ter um ganho adequado.”

O consultor em recursos humanos Gustavo Costa, da Unique Group, defende que questões salariais e de jornada não ficaram obsoletas, “porque ninguém vive de brisa", mas ressalta que a geração que chega ao mercado tem olhado com mais atenção para suas próprias propostas de valor. “As pessoas estão se perguntando mais o que faz sentido para elas, independentemente da estabilidade do emprego. E o mercado está passando por uma adaptação, para entender um profissional que quer fazer aquilo que o move”, diz. / COLABORARAM RODRIGO BURGARELLI e QUETILA RUIZ, ESPECIAL PARA O ESTADO

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