Marcello Casal Jr/Agencia Brasil
Marcello Casal Jr/Agencia Brasil

Bolsonaro aceita pedido de demissão de Decotelli

Ministro da Educação listava no currículo pós-graduações e experiência como professor questionadas por instituições

Jussara Soares, Renata Cafardo e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2020 | 14h30

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro aceitou nesta terça-feira, 30, a carta de demissão de Carlos Alberto Decotelli, nomeado ministro da Educação na semana passada. Depois de seu currículo ter sido questionado por universidades estrangeiras e pela Fundação Getulio Vargas, o governo pediu que o economista deixasse o cargo para o qual nem chegou a ser empossado. Ele ficou cinco dias como ministro da Educação, o terceiro de Bolsonaro em um ano e meio de governo. 

O secretário-executivo do MEC, Antonio Vogel, também foi à sede do Executivo, mas negou que estivesse indo falar com o presidente. O governo não anunciou ainda o substituto de Decotelli e analisa vários nomes para um provável anúncio ainda nesta terça-feira. Um dos mais cotados é o atual reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Anderson Correa. Ele foi presidente da Capes já no governo Bolsonaro, é formado em Engenharia Civil pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e mestre pelo ITA. 

Em entrevista à CNN, Decotelli confirmou que a razão do pedido de demissão foi a nota da FGV desmentindo que ele seria professor da instituição, como o Estadão adiantou. Segundo ele, a fundação mentiu. Procurada, a FGV disse que reitera as informações dadas anteriormente e que ele “foi professor colaborador dos cursos de formação executiva”.

Na nota, a FGV informava que Decotelli não foi pesquisador ou professor da instituição. O presidente Jair Bolsonaro ficou irritado ao saber de mais uma incoerência no currículo do indicado, que já teve doutorado e pós-doutorado questionados por universidades estrangeiras e é acusado de plágio no mestrado. O governo então passou a pressioná-lo para que apresentasse uma carta de demissão. 

Decotelli perdeu o apoio do grupo militar que o indicou ao governo. O texto da FGV dizia que Decotelli cursou mestrado na instituição, concluído em 2008. "Prof. Decotelli atuou apenas nos cursos de educação continuada, nos programas de formação de executivos e não como professor de qualquer uma das escolas da Fundação", completa a nota.

A situação é comum na instituição em cursos latu sensu, como MBAs. Neles, professores são chamados como pessoa jurídica e atuam apenas em momentos específicos. Isso quer dizer que ele não fez parte do corpo docente da instituição, e sim foi apenas professor colaborador. "O presidente disse que se até a a FGV estava negando que fui professor era inviável continuar", disse Decotelli à CNN. Segundo o Estadão apurou, a nota da fundação abalou muito o economista. Para Decotelli, houve uma "construção fake da FGV" já que ele atuava na instituição, segundo ele, "há 40 anos".

Nomes

Outro cotado para substituir Decotelli é o ex-pró-reitor da FGV Antonio Freitas, defendido pelo mesmo grupo militar e pelo dono da Unisa, Antonio Veronezi, que tem exercido grande influência no governo. Ele é professor titular de Engenharia de Produção da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE). Na profusão de nomes sendo indicados, surgiu também o de Gilberto Gonçalves Garcia, que tem formação em Filosofia e foi reitor de várias universidades privadas.

Outro nome que surgiu foi o de Marcus Vinícius Rodrigues, que foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep/MEC) na gestão de Ricardo Vélez. Ele é engenheiro e ligado ao mesmo grupo militar de Decotelli. Rodrigues deixou o Inep depois de desentendimento com o grupo ligado a Olavo de Carvalho. 

Além dele, o evangélico Benedito Guimarães Aguiar Neto, que foi reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e hoje é presidente da Capes, no MEC, também é defendido por Veronezi. O secretário de Educação do Paraná, Renato Feder, também esteve com o presidente na semana passada e voltou a ter chances. 

A preocupação dos militares e de educadores é que integrantes ligados a Olavo de Carvalho agora tenham argumentos para indicar um nome que prevaleça. O deputado Eduardo Bolsonaro teria sugerido Sérgio Sant'ana, ex-assessor especial de Abraham Weintraub e ligado a olavistas do governo. O nome de Ilona Becskehazy, que é a atual secretária de Educação Básica no MEC, também está sendo defendido por grupos considerados ideológicos.

Na segunda-feira, o presidente chamou Decotelli para uma conversa e postou nas redes sociais que o economista estava sendo vítima de críticas para desmoralizá-lo. Mas deu um recado: "O Sr. Decotelli não pretende ser um problema para a sua pasta (Governo), bem como está ciente de seu equívoco." E não indicou que haveria posse, anteriormente marcada para esta terça. Decotelli saiu da reunião dizendo que era o ministro da Educação.

Segundo fontes, no entanto, o fato de Decotelli ser contestado agora por uma instituição do País o fragilizou. Na semana passada, ele foi questionado por Franco Bartolacci, reitor da Universidade Nacional de Rosário, que disse que ele não conclui o doutorado. Nesta segunda, a Universidade de Wuppertal, na Alemanha, também afirmou que ele não fez pós-doutorado na instituição. Decotelli mudou seu currículo na plataforma Lattes depois dos questionamentos.

Apesar de a nomeação ter sido publicada no Diário Oficial da União na quinta-feira, 25, Decotelli ainda não tinha poder para despachar. Ele já frequantava o MEC e preparava mudanças na pasta mas, oficialmente, os atos só teriam validade após a assinatura do termo de posse.  A cerimônia estava prevista para esta terça-feira, mas foi cancelada na segunda após a revelação de inconsistências no currículo do ministro. COLABOROU SANDY OLIVEIRA

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