WERTHER SANTANA/ESTADÃO
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Enem 2021: candidatos relatam medo de contrariar governo Bolsonaro na redação

Primeiro dia do exame ocorre neste domingo, 21, em todo o País. Demissão coletiva no Inep e suspeitas de interferências indevidas deixam estudantes preocupados

Ana Paula Niederauer e José Maria Tomazela , O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 13h49
Atualizado 02 de dezembro de 2021 | 10h46

Participantes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que tem seu primeiro dia de aplicação neste domingo, 21, relataram ansiedade diante do contexto da crise no Inep (órgão federal que organiza a prova) e das falas recentes do presidente Jair Bolsonaro. Os estudantes de diferentes partes do País disseram temer que questões e temas específicos sejam suprimidos e relataram “cuidados” com opiniões a serem dadas na elaboração da redação. A correção da redação do Enem não prevê avaliação de opiniões, mas dos argumentos do candidato. Uma das regras, segundo o edital, é não desrespeitar os direitos humanos no texto

Em São Paulo, a participante Beatriz Benjamin Chagas, de 22 anos, que chegou com duas horas de antecedência ao Colégio Objetivo, na Avenida Paulista,  disse se sentir insegura. "Todos esses acontecimentos às vésperas da prova só trazem insegurança.”

Ela enfatizou que tem medo de expor opiniões no tema da redação que possa desagradar o governo. "Querendo ou não eu vou ter que seguir a política deles para tentar uma boa nota. Eu não posso falar exatamente minha opinião porque tenho medo de retaliações", disse Beatriz.

Com o sonho de cursar museologia, a produtora cultural Alice Beatriz Gallina, de 23 anos, teme pelo futuro do Enem, após as crises recentes. " Eu lembro que no passado a prova tinha questões impactantes, bem elaboradas e que de alguma forma colocavam na ‘parede’ o governo. Eu tenho preocupação de perder esse caráter de questões importantes do País.”

Para o estudante Rafael Alves, de 17 anos, que chegou às 11h30 ao local de prova na capital paulista,  participar do Enem já traz o nervosismo natural de quem almeja entrar em uma universidade. "É normal ter um pouco de ansiedade, mas temos que tentar", disse Alves.

Para Alves, que pretende cursar Tecnologia da Informação, "é melhor não escrever opiniões contrárias ao governo Bolsonaro na redação".

Como mostrou o Estadão, o Inep enfrenta sua pior crise desde o roubo do Enem em 2009. Às vésperas da aplicação do exame de 2021, o órgão viu uma debandada: 37 servidores pediram exoneração denunciando a pressão para trocar itens da prova e criticando a “fragilidade técnica” da cúpula da autarquia responsável pelo exame. 

O Inep, o Ministério da Educação e o governo federal sustentaram ao longo das últimas semanas que o exame não será prejudicado pela demissão e negaram interferências indevidas no conteúdo da prova. 

O estudante Pedro Luiz da Silva Domiêncio, de 18 anos, morador da Vila Sônia, zona sul de São Paulo, chegou ao Objetivo na Paulista às 11h30. "Cheguei cedo para garantir que não aconteçam imprevistos", disse.

Domiêncio, que cursa o terceiro ano do ensino médio, afirmou que tanto a crise no Inep quanto as declarações do presidente acabam impactando os candidatos no Enem.

" A gente sabe como é o nosso presidente. Na escola estávamos estudando os possíveis temas que poderiam cair na prova como: feminicídio, crise no meio ambiente, entre outros polêmicos. Mas depois das declarações do Bolsonaro, achamos prudente junto aos professores trocarmos o foco para capitalismo e governo conservador".

Mais calmo do que imaginava, o estudante do curso técnico de engenharia mecatrônica Felipe Santos Silva, de 17 anos, chegou à PUC-Minas, em Belo Horizonte, para as provas daquele que considera “o pior Enem de todos”.  

Não bastassem a pandemia e as aulas online, Felipe avalia como “surreal" os últimos acontecimentos envolvendo o exame deste ano. “Dei azar de fazer o pior Enem de todos. Estudar em 2021 tem sido muito desanimador”. 

Ele se refere tanto à dificuldade de se preparar por conta da pandemia como dos fatos envolvendo a aplicação do Enem. “Se cair um tema na redação, por exemplo, de assédio moral, será que eu vou poder citar o caso do próprio Inep?”, ironiza o aluno do Cefet-MG, referindo-se à demissão coletiva de membros do instituto. 

Tiago de Moura, de 25 anos, prestou o exame pela primeira vez em 2015, e agora repete a prova em Porto Alegre em busca de uma bolsa do Prouni. Ao comparar a preparação para a prova prestada há seis anos, ele diz ter se sentido mais acuado neste ano. “Na época eu tinha mais segurança, pois sabia que o que eu estudei iria cair na prova, mas neste ano estudei de forma muito insegura, pois a gente sabe que o governo está mexendo na prova.”

Gustavo Reis, de 17 anos, faz a prova em Salvador e conta que se preparou muito, mas admite que no ano passado foi atrapalhado pelo nervosismo. Dessa vez, quando ficou sabendo das demissões no Inep, parou de acompanhar o noticiário, por orientação dos professores.

“O psicológico pesa muito na hora da prova e influencia no nosso rendimento. São noventa questões, decidi não acompanhar muitas notícias relacionadas ao governo, para controlar a minha ansiedade. Sempre que vejo a injustiça me sinto muito impotente. É como se a gente não tivesse poder de mudança nenhuma, então foi melhor evitar”, comentou o estudante.

Pai de Maria Eduarda, de 17 anos, o aposentado Ilson Rodrigues, de 57, conversava com outros pais após deixar a filha em um dos locais de prova, na zona centro-sul de Manaus. Ele teme que o exame reprove quem considera o regime militar brasileiro uma ditadura. “Nossa filha foi formada acreditando que foi uma ditadura. Ela nunca foi ensinada na escola que era uma revolução. Isso vai causar problemas, tendo em vista que eles tiveram uma formação totalmente diferente”, apontou.

Ativismo e passado

“No ano passado, já teve interferência do governo federal e a prova não teve questões sobre o período da ditadura militar, por exemplo. Este ano, é de se esperar que não apareçam questões sobre a pandemia e desmatamento, que podem incomodar o governo de Bolsonaro”, disse um candidato de 38 anos que preferiu não se identificar quando esperava o momento de entrar para a prova, em Sorocaba, interior de São Paulo. 

Ele está no quinto Enem e parou de trabalhar para se dedicar aos estudos. “Tive formação de operário e só agora estou buscando recuperar as oportunidades que não tive”, disse. Ele esperava que a redação fosse de um tema que não expusesse o governo. 

O estudante lembrou que o presidente Jair Bolsonaro disse que o Enem teria a cara do seu governo. “Ele não quer o ativismo da oposição, mas quer o seu ativismo. Creio que a prova foi moldada para levar ao esquecimento o passado difícil do Brasil, como as torturas e mortes durante o regime militar.” 

Ele disse que também se sentia inseguro devido à pandemia. “Estou de máscara e vacinado com duas doses, mas sei que muita gente não tomou a vacina. Nem todos têm a consciência de não se apresentar para a prova se estiver com algum sintoma.”

A candidata Maria Eduarda Butieri Gomes, de 20 anos, que não prestou a prova do ano passado por causa da pandemia, disse que a interferência de governantes na elaboração das questões pode ser um fator limitante para o desempenho dos estudantes. “Você estuda tudo esperando que possa cair tudo, mas alguns temas são vetados. Isso limita e prejudica quem se preparou para uma prova mais ampla”, disse. É o seu segundo Enem – ela prestou em 2019 – e espera conseguir vaga em biomedicina ou farmácia.

O candidato Joshuel Sanzovo, de 23 anos, que esperava a abertura dos portões para seu segundo Enem, disse que a interferência do governo afeta a qualidade da prova. “Por anos o Enem seguiu um padrão que, bem ou mal, avaliava o candidato. No ano passado, a fórmula já foi alterada e este ano, tudo indica que a interferência tenha sido ainda mais alta. Na redação, por exemplo, certamente não vão focar o momento do país. Não vejo como isso pode ser bom para avaliar o conhecimento.”

O candidato Bryan Pereira Duarte, de 18 anos, disse ter feito o possível para não deixar que os “fatores políticos” prejudicassem a preparação para seu primeiro Enem. “Se a gente se ocupa com esses fatores extras acaba perdendo o foco no estudo. Tento não pensar para não ficar nervoso.” 

Ele esperava uma redação sobre um tema atual. “Vou encarar o que vier.” 

Houve casos de retardatários que perderam a prova em pelo menos dois locais do exame em Sorocaba. Na Universidade Paulista (Unip), um estudante chegou alguns segundos atrasado e culpou o serviço de transporte por aplicativo. “Cancelaram duas vezes e acabei atrasando”, disse ele, que pediu para não ser identificado. Uma estudante chegou a tempo, mas não pode fazer a prova por documentação incompleta. /COLABORARAM BRUNO TADEU, LAILA NERY, EDUARDO AMARAL E ALINE RESKALLA, ESPECIAIS PARA O ESTADÃO

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