Werther Santana/ Estadão
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Candidatos a prefeito, não desistam dos estudantes

Mesmo entre os mais apaixonados e envolvidos alunos da escola, há abandono. São também vítimas da pandemia

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2020 | 21h00

Apesar de muitos candidatos a prefeito no País se guiarem por pesquisas de opinião pública sobre voltar ou não às aulas presenciais, a preocupação dos eleitores deveria se voltar ao que está sendo proposto para lidar com os prejuízos das escolas fechadas em suas cidades. Ainda não há números fechados, mas estima-se que 30% dos jovens podem deixar a escola por causa da pandemia - mais uma triste consequência do coronavírus para a educação. 

Atualmente o País já tem uma taxa alta de evasão de adolescentes: 4 em 10 jovens de 19 anos não concluem a escola. Por mais que a rede municipal quase não ofereça o ensino médio, onde os jovens normalmente estão, também é responsabilidade do prefeito quando cidadãos param de estudar. 

Há situações em que escola não tem nada a ver com o fato de um adolescente abandoná-la. Principalmente na pandemia. Os jovens têm deixado a escola porque não têm internet ou equipamento para fazer aulas online - por melhor que elas sejam. Porque suas famílias, por diversos motivos, não os estimularam suficientemente e não mostraram a importância da educação para o seu desenvolvimento. E, claro, por causa da situação financeira. 

Mesmo entre os mais apaixonados e envolvidos alunos da escola, há abandono. Fernanda Lopes Cunha, de 16 anos, mora na cidade de Barra do Choça, na Bahia, a mais de 500 quilômetros de Salvador. Fala com um sorriso lindo sobre tudo o que aprendeu na escola. Da alegria que tinha ao chegar, cumprimentar os professores, aprender. Lembra da sua última feira de ciências, em que apresentou um projeto que falava “de como a educação salva”.

“A primeira vez que fui ao cinema foi porque professores me levaram”, contou no 4º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, na semana passada. Mas Fernanda recentemente deixou a escola, no 2º ano do ensino médio. E ainda teve de mudar de cidade, não há emprego onde mora e ela precisa trabalhar para ajudar a família durante a pandemia. A ex-estudante emocionou a todos ao imaginar sua vida daqui pra frente, longe da escola. “O ensino médio era um sonho pra mim.”

Não há em nenhum dos planos de governo dos três primeiros colocados à eleição municipal de São Paulo, a maior cidade do País, uma palavra sobre jovens e crianças como Fernanda. A preocupação precisa ser imediata, depois de um tempo fora da escola é ainda mais difícil voltar. 

O atual prefeito Bruno Covas (PSDB) menciona rapidamente em seu projeto entregue ao Tribunal Superior Eleitoral uma “proposta pedagógica eficaz que garanta o aprendizado de todos e oferte reforço escolar a nossas crianças e adolescentes no pós-pandemia”. Celso Russomano (Republicanos) até se estende ao falar de projetos para a educação no pós-pandemia, citando acolhimento emocional de professores e alunos, avaliação diagnóstica e reforço escolar. Mas, mais uma vez, a atenção é para aqueles que estão na escola. O plano de Guilherme Boulos (PSOL) é o mais vago nesse sentido, fala em garantia do emprego do professor e o retorno às aulas “somente quando for seguro”.

O Unicef enfatiza que entre os danos das escolas fechadas estão o aumento dos casos de gravidez na adolescência, do trabalho infantil e os jovens levados para o tráfico. E oferece ajuda. O projeto Busca Ativa Escolar ensina municípios a encontrar e levar de volta os estudantes que se evadiram. É parceiro também, com outras entidades, numa campanha pop contra a evasão, que lançou neste mês filme e música com os cantores Carlinhos Brown e Lexa. A letra pede aos jovens: “não desista do seu direito de aprender”. Candidatos a prefeito, não desistam do direito deles aprenderem. Não deixem a pandemia fazer mais essas vítimas. 

É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E  FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE  JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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