Cibele Barreto
Cibele Barreto

Candidato deve se dividir entre estudo e simulados de vestibular

Aprender conteúdo e treinar tempo de prova são os principais investimentos para alunos

Guilherme Guerra, especial para o Estado

25 Setembro 2018 | 06h30

SÃO PAULO - A rotina é similar para muitos vestibulandos: acordar cedo, estudar de manhã, almoçar, voltar aos livros à tarde, chegar em casa à noite e, se houver tempo, novamente estudar até a hora de dormir. E a prática costuma ser a mesma também: ler a teoria, fazer exercícios, refazer provas antigas e tirar dúvidas com professores e colegas. O que diferencia um aluno aprovado é, muitas vezes, o equilíbrio entre treinar o que o candidato tem afinidade ou dificuldade. Em suma, o desafio é priorizar o conteúdo.

“O candidato precisa saber que ninguém sabe tudo. Se estudou intensamente e acertar tudo o que sabe, ele vai bem”, diz o coordenador do Anglo Vestibulares, Daniel Perry. Na sua experiência, os candidatos têm ótima preparação, mas pecam no exagero do conteúdo. Para o professor, ter estratégia é essencial para um bom desempenho no vestibular.

Perry recomenda que, no estudo, o aluno não deixe de lado o seu “diferencial”: as disciplinas em que tem facilidade. “O vestibulando precisa fazer manutenção do que sabe”, afirma. “E, claro, estudar com intensidade os assuntos com mais dificuldade para preencher lacunas e suprir defasagens”.

Nessa estratégia, ele indica fazer simulados em casa, com duração similar ao Enem e à Fuvest, para definir um plano e saber como começar uma prova. Dificilmente o estudante conseguirá correr atrás de um conteúdo que perdeu. Por isso, o mais importante é ligar o cronômetro e fazer o simulado analisando o desempenho dentro do tempo estipulado.

Outra dica é estudar no fim de semana. Victoria Riva, aluna do Anglo, faz isso aos sábados, mas descansa aos domingos. No terceiro ano do cursinho, quer entrar para Medicina em uma universidade pública. Ela acredita que melhorou, principalmente em relação ao fator emocional. “No ano passado, o que mais me prejudicou foi o nervosismo. Não passei na Unesp (Universidade Estadual Paulista) por dois pontos. São coisas mínimas que fazem diferença. Um ponto a menos e você desce 200 posições (na classificação)”, diz a aluna.

Tentativa

O coordenador do Anglo aconselha que o candidato não tente passar para só uma universidade, mesmo que seja o sonho do estudante. Perry frisa que dominar a técnica de fazer provas é primordial para pegar o jeito. “Vestibular é mais rotina do que evento.”

E o resultado pode não ser o esperado, o que nem sempre é ruim. “Nunca me planejei para o Enem, meu foco era Fuvest”, lembra Luca Rodrigues Miguel, calouro de Engenharia Mecatrônica na Universidade de São Paulo (USP). Ex-aluno do Objetivo, o estudante de 18 anos encarava os livros das 7 às 20 horas. “Eu me surpreendi quando passei pelo Enem na Fuvest.” Desde 2015, a USP reserva uma parte das vagas para o Enem. “Valeu a pena. Se não tivesse passado, ainda iria querer ir para o mesmo lugar.”

Valorização excessiva leva à frustração

Vestibular é apenas uma etapa, lembra diretor do Porto Seguro. Aprimoramento é constante

Diretor pedagógico do Colégio Porto Seguro, Carlston Luís Pires de Toledo afirma que o vestibular no Brasil ganhou uma aura mística, atribuindo a conquista a um marco de felicidade e comemoração. E isso pode ser ruim tanto para quem é aprovado quanto para quem não é. Seja por uma possível frustração com a graduação, seja pelo fato de não ter passado na prova, o candidato precisa saber dosar os sentimentos para não se desapontar no final.

Para evitar surpresas ao longo do curso, o calouro deve entender que a carreira começa no primeiro dia da universidade, diz Toledo. Ele recomenda que toda a graduação seja planejada, com palestras e aulas escolhidas a dedo. “No primeiro dia, o estudante começa a traçar o seu destino”, afirma. Aos poucos, com a rotina universitária, vai se profissionalizando. “Ele não se torna médico de uma noite para outra. Estudar é contínuo.”

Além disso, a jornada só está começando com a peneira do vestibular. 

“Existem boas empresas com funil ainda mais estreito para o processo seletivo para trainee”, diz. E o diploma tem pouca garantia de estabilidade em um mercado de trabalho cada vez mais exigente. Para Toledo, é necessário sempre estar em busca de aprimorar a formação profissional.

À frente

Já aqueles que não foram aprovados no vestibular têm de usar a oportunidade para aprender com os erros cometidos e de notar que se tornaram pessoas melhores do que eram no início do ano letivo. “Seu ponto de partida não é o mesmo das semanas anteriores. Não é estaca zero, vai ter uma nova tentativa.”

Focar em si depois de uma reprovação é uma tarefa solitária, mesmo que a escola, família e amigos ajudem. “Não pode se permitir o derrotismo. Essa não vai ser a única vez que ele vai falhar na vida”. 

‘Medo de reprovação pode causar branco’

Entrevista: Neide Noffs, psicopedagoga e professora da PUC-SP

Uma rotina muito intensa de estudo e a cobrança para passar no vestibular podem ser prejudiciais ao aluno, afirma a psicopedagoga Neide Noffs, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Para aprender, precisamos de tempo de concentração e foco juntamente com a assimilação do conteúdo”, explica. Na hora da prova, o medo de reprovação pode levar ao esquecimento e à famosa frase “Me deu um branco”. 

Leia abaixo o que a professora da PUC-SP recomenda a vestibulandos durante a preparação e a realização dos exames e também às famílias para estimularem os estudantes.

Em uma rotina diária de estudos, qual é a importância de descansar?

O momento de descanso se apresenta como relevante porque o estudo deve possibilitar o aprender. E, para aprender, precisamos de um tempo de concentração e foco juntamente com a assimilação do conteúdo. O descanso propicia a elaboração do aprendido para que a nossa cognição processe o que foi estudado.

Como o estudante pode diminuir a cobrança, seja dele mesmo ou externa, da família ou da escola?

O vestibular é um momento de ansiedade e tensões que podem ser suavizadas se você acreditar que o processo de estudo começou meses antes da prova final.

Como os pais podem ajudar?

Os pais podem colaborar estimulando o estudo. Isso ao facilitar a organização do espaço e acolhendo o filho. Eles devem evitar, neste momento, depositar no filho suas frustrações e os problemas vividos em relação a experiências escolares. O tempo que antecede o vestibular é sempre permeado de dúvidas sobre o potencial de aprendizagem exigido.

O que uma pressão muito forte pode causar no aluno?

A pressão próxima do vestibular pode desencadear baixa autoestima. Na hora da prova, um medo da reprovação pode levar a esquecer as informações adquiridas, àquela frase “Me deu um branco”.

 

 

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