Caminhos cruzados

Marcelo Furtado já esteve em rota de colisão com José Goldemberg; agora, virou seu aluno

Ana Bizzotto, Especial para O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2009 | 05h30

"Ele é do Greenpeace, mas ninguém é perfeito, né?", brinca o físico e professor da USP José Goldemberg, referindo-se a Marcelo Furtado, diretor-executivo da ONG no Brasil. Quase sempre situados em lados opostos em reuniões e gabinetes, o ex-ministro e o ativista viraram parceiros na USP: Goldemberg é co-orientador da dissertação de mestrado de Furtado, que está em fase de conclusão. "Podemos até discordar, mas concordamos que é preciso mudar", diz o diretor do Greenpeace.   Graduado em Engenharia Química, Furtado trabalha no Greenpeace há mais de dez anos. Diz que a admiração pelo professor surgiu no episódio em que Goldemberg, secretário de Ciência e Tecnologia do governo Collor, pressionou pelo fechamento do projeto nuclear da Serra do Cachimbo, nos anos 90 (veja cronologia abaixo). "Não só era um físico nuclear, mas um ministro fazendo aquilo. Sinalizava à sociedade uma ruptura com a ditadura."   Nessa época, avalia Furtado, era comum o movimento ambientalista apresentar bandeiras políticas sem discutir soluções. "As ideias do professor eram semelhantes às dos ativistas, mas com muito mais consistência. Sua trajetória foi construída com base em conteúdo, inovação e coragem de assumir riscos."   Confira também:    Trecho da conversa entre José Goldemberg e Marcelo Furtado   Os dois começaram a ter contato mais estreito depois da Eco-92, conferência mundial sobre ambiente realizada no Rio. Para Furtado, o então ministro da Educação Goldemberg teve um importante papel articulador no debate sobre energias renováveis. "O setor energético era muito preconceituoso. Ele foi um dos poucos dispostos a reunir a academia, a sociedade civil e a indústria. Se tornou uma referência", conta.   "Percebi que o Marcelo se diferenciava claramente de outras pessoas que encontrava nas conferências. Em qualquer mesa redonda em que ele fala, fico impressionado com a sua posição clara e corajosa", diz Goldemberg. "Uma coisa que me irritou a vida toda é a quantidade de gente pouco transparente que encontro. Posso não concordar sempre, mas ele explica seu ponto de vista e assim força opositores e neutros a tomar posições."   "Ele detesta enrolação", confirma Furtado. "Se a reunião fica chata, ele encerra. Se não é na sala dele, se levanta e vai embora, esteja o presidente da República ou quem for. E a hora do almoço é sagrada."   Colaboração   Os caminhos dos dois voltaram a se cruzar em 2002, logo que Goldemberg assumiu a Secretaria do Meio Ambiente paulista. "Tivemos um primeiro embate quando a gente lançou um relatório de áreas contaminadas no Brasil, entre elas várias no Estado de São Paulo", diz Furtado. "Então eu já fui preparado para a secretaria, mesmo conhecendo a trajetória dele, para brigar."   Furtado ficou surpreso quando Goldemberg mandou liberar dados oficiais sobre áreas contaminadas e abriu as portas da secretaria para receber um técnico indicado pelo Greenpeace. "Não só os técnicos da secretaria não estavam acostumados a uma ONG trazer uma discussão técnica, mas também ficaram surpreendidos com a capacidade desse cientista de discutir. Acho que foi nesse momento que começamos a trocar mais e mostrar a ele que existiam ambientalistas preocupados com conteúdo."   O contato mais direto ocorreu quando os dois trabalharam juntos na preparação de uma proposta para a Rio+10. Com base em um paper do secretário, o Greenpeace conseguiu apoio do Brasil e de outros países da América Latina para sugerir a meta de que 10% da energia usada no mundo até 2010 venha de fontes renováveis. Apoiada por 72 países, ela virou política da União Europeia, que fixou a meta de 20% até 2020. Quando decidiu partir para o mestrado, em 2007, Furtado convidou Goldemberg a ser co-orientador da dissertação, sobre comercialização de energias renováveis no Brasil. O diretor do Greenpeace admite que já lhe "puxaram a orelha" desde que voltou à sala de aula. "Ele não se dedica o suficiente, é ocupado demais. Mas quando se dedica, vai muito bem", afirma o ex-ministro.   Para Goldemberg, o fato de Furtado ter buscado o mestrado na USP é simbólico de uma "aproximação tácita" entre universidade e ambientalistas. "A academia deixou de ser preconceituosa e as ONGs entenderam que precisam se capacitar", diz, antes de uma última provocação bem-humorada: "Daqui a pouco eles ficarão ricos e reacionários."   História e encontros:   1990: Fechamento de poço de 320 m de profundidade em base da Aeronáutica na Serra do Cachimbo (PA). No local, seria construída uma instalação subterrânea para testes nucleares e armazenamento de lixo atômico. Secretário nacional de Ciência e Tecnologia, José Goldemberg foi um dos principais artífices da medida. O presidente Fernando Collor transformou a solenidade num espetáculo de mídia, jogando terra na perfuração com uma pá   1992: Realizada no Rio a Eco-92, Conferência da ONU para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. A reunião consagrou o conceito de desenvolvimento sustentável   1997: Assinatura do Protocolo de Kyoto, que prevê a redução da emissão de gases do efeito estufa 1999:  Criação, pelo governo federal, da Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima 2001:  Greenpeace divulga relatório de áreas contaminadas. Marcelo Furtado era coordenador internacional da campanha de resíduos perigosos da ONG. O ano também foi marcado pelas reuniões preparatórias da Rio+10, evento que deu sequência à Eco-92 2002: Realizada em Johannesburgo, África do Sul, a Rio+10. Cetesb divulga pela primeira vez listagem oficial de áreas contaminadas de São Paulo, na gestão de Goldemberg como secretário do Meio Ambiente. Desde então a lista tem revisões periódicas   2007: Furtado inicia mestrado na USP e convida Goldemberg para co-orientar sua dissertação sobre a comercialização de energias renováveis no Brasil

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