Adilson Godoy
Adilson Godoy

Busca de beleza com saúde amplia campo para Nutrição

Profissional da área pode ajudar na busca por aliar estética e boa alimentação

Luciana Alvarez, Especial para O Estado

26 Junho 2018 | 03h00

Nos últimos anos o consumo de refrigerantes tem caído no Brasil, uma indicação de que as pessoas estão buscando se alimentar de maneira mais saudável e manter-se em boa forma. Contudo, doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como diabetes e hipertensão, que têm forte relação com a alimentação pouco saudável, estão em crescimento. É nesse cenário complexo - e aparentemente contraditório - que trabalham nutricionistas.

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“Embora uma parcela da população tenha aumentado o consumo de produtos industrializados e ultraprocessados, pela praticidade, também se tem notado uma preocupação dos consumidores com a qualidade, buscando alimentos que promovam saúde e benefícios ambientais”, afirma Célia Regina de Ávila Oliveira, coordenadora-geral do Curso de Nutrição da Universidade Paulista (Unip). Portanto, nas faculdades, os debates buscam entender o paradoxo da modernidade alimentar e os fatores que interferem nos sistemas alimentares, diz a professora.

“As DCNT são de etiologia multifatorial e compartilham vários fatores de riscos modificáveis, como alimentação inadequada, tabagismo, falta de atividade física, obesidade.” Segundo ela, os efeitos interligados da alimentação e outros hábitos sobre a saúde estão levando ao crescimento no número de profissionais da área, já formados, a cursar Nutrição.

Outra contradição com a qual os nutricionistas precisam lidar é o crescimento do mercado fitness, setor que movimenta mais de R$ 8 bilhões só nas academias, segundo a Associação Brasileira de Academias (Acad). Apesar da promessa de uma vida saudável, a busca de um corpo dentro de certos padrões acaba levando muitas pessoas a adotar hábitos alimentares até perigosos.

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“Existe uma diferença entre alimentação fitness e saudável. Eles não são conceitos equivalentes. Um dos papéis do curso de Nutrição, e do nutricionista no exercício da profissão, deve ser desmistificar certos conceitos”, afirma Claudia Bogus, uma das coordenadora do Curso de Nutrição da Universidade de São Paulo (USP). “As lojas de produtos fitness estão cheias de opções pouco saudáveis. Saudável é comida de verdade, natural.”

Assim como a busca por um corpo perfeito pode ir na contramão de bons hábitos alimentares, o glamour de programas de gastronomia pode afastar as pessoas da cozinha. “Os alunos também estão expostos a essa visão. Mas insisto que cozinhar é algo do dia a dia. Se apenas exemplos de preparos difíceis são mostrados na TV, as pessoas se distanciam da cozinha. Por mais que nem todos cozinhem, todos devem estar atentos ao que consomem”, afirma a professora da USP.

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Relação com pacientes. Perceber que mais pessoas buscam conhecimento para escolher como se alimentar é algo que Semíramis Domene, coordenadora de curso de Nutrição da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), recebeu bem. “Nosso curso, assim como deve ser em todos os cursos de Nutrição, forma profissionais para a promoção do direito humano a uma alimentação adequada. Acompanho com alegria a tendência de as pessoas buscarem se informar para ter um padrão alimentar que promova saúde”, afirma. 

A tendência de a população em geral buscar mais informação pode provocar embates entre as pessoas atendidas e o nutricionista. No entanto, segundo Semíramis, isso não é novidade. “Todo mundo tem uma receitinha de um chá poderoso, todos entendem mais que o nutricionista: o vizinho, a TV, o padre. Uma receita traz um conforto. As pessoas gostam desse modelo, mas ele é irreal. É da natureza do nosso trabalho lidar com essas questões.”

A própria indústria alimentícia, muitas vezes, acaba se aproveitando da busca por alimentos saudáveis sem entregar o que promete, causando mais desinformação. “Hoje não dá para pensar em alimentar a população sem a indústria. Ela ajuda muito. Mas, em alguns produtos, faz um apelo exagerado sobre os benefícios. Nenhum alimento sozinho vai proteger contra problemas cardíacos ou prevenir o envelhecimento”, cita Semíramis.

Num mundo em que as pessoas são bombardeadas por informações, o papel do nutricionista é fundamental, defende a professora. “A nutrição é um processo de educação que pressupõe a autonomia do indivíduo. Todos nos alimentamos várias vezes, não tem como o nutricionista supervisionar.” 

A vontade de propagar informação de qualidade, com bases científicas, e ajudar a população a adotar hábitos de alimentação que promovam saúde tem feito crescer o interesse pela chamada nutrição social, diz Semíramis. “Muitos dos nossos alunos querem trabalhar em unidades básicas de saúde. A ideia é mostrar como aproveitar bem os alimentos, as formas de preparo.”

Farmácia. Além do impacto direto nas graduações de Nutrição, o aumento da procura por uma dieta saudável atinge cursos de Farmácia, embora com menos força. Segundo Eder de Carvalho Pincinato, coordenador do curso de Farmácia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, não houve mudanças significativas no currículo, mas dentro de disciplinas, especialmente nas voltadas para a área de alimentos. “A tendência fitness é incorporada como ferramenta para ilustrar a importância de determinada disciplina, ou como uma tendência de negócio”, explica. Segundo o professor, com a mudança nos hábitos de consumo, abre-se uma oportunidade de oferta de produtos que sigam essa tendência mais natural.

Depoimento: ‘Ganhei mais vitalidade’

Caroline Bittencourt, modelo e aluna do 5º semestre de Nutrição na Unip

Aos 16 anos comecei a atuar como modelo. Fiquei acostumada a fazer dieta, mas não havia uma preocupação com uma dieta saudável. Se um dia a gente comia mais, depois ficava só tomando sopas, por exemplo. Não havia uma consciência sobre um padrão alimentar correto. 

Vejo que a busca pela beleza estética está muito presente na sociedade, ganhou força até, mas há junto uma busca pela saúde. Quando eu era adolescente, ir com meus amigos a uma lanchonete e comer alimentos pouco saudáveis era um programa que fazia com frequência. Hoje, minha filha e suas amigas não querem ir.

Para mim, a mudança se deu quando fiz 30 anos e fui buscar uma alimentação saudável. A mudança alimentar me deu mais energia, melhorou minha qualidade de vida. Para além da questão estética, me deu mais vitalidade. Como é uma coisa que eu gosto, que vejo que existe mercado, decidi que precisava estudar e voltei para a faculdade. 

Esse é o meu terceiro curso superior. Sou formada em Administração e Artes Cênicas, mas é a primeira vez desde o ensino médio que estou precisando estudar Química, Biologia. No começo foi um choque, mas eu adoro o assunto. Minha intenção é seguir na carreira na área clínica. 

 

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