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‘Bullying pode ser motivo para trocar criança de colégio’

Professora da Faculdade de Educação da USP explica o que deve ser feito caso filho seja vítima de agressões na escola

Entrevista com

Silvia Colello

Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

30 Outubro 2016 | 07h00

Problemas graves na escola, como casos de bullying, podem justificar uma mudança de colégio, se a instituição não ajudar a contornar a questão. Em entrevista ao Estado, Silvia Colello, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), explica que aspectos justificam uma mudança de escola e destaca a importância da tentativa de diálogo antes de assumir posturas radicais.

O que pode ser feito antes de mudar de escola por nota baixa?

Pais e escolas sempre têm de estar muito próximos no acompanhamento da vida escolar, independentemente de qualquer coisa ou de casos extremos. Nota baixa é um aspecto, mas às vezes tem casos de bullying, de inadaptação social, ou a criança é muito tímida, fica isolada. Às vezes parece que está dando tudo certo, a criança tira notas boas, mas está infeliz na escola, não tem amigos.

A repetência é um motivo para sair ou isso pode ser contornado pelos pais?

A repetência é uma medida que deixa marcas, mas isso tem que ser avaliado caso a caso. Às vezes a criança está imatura, precisa de um tempo a mais. Se for essa a opção (tirar da escola), conversar muito com a criança para tentar minimizar os efeitos do sentimento de fracasso, de baixa autoestima. 

Alguns pais mudam de escola porque a metodologia não é adequada ao filho. Como perceber isso?

Muitos pais procuram a escola que frequentaram ou a escola que foi boa escola paro o irmão mais velho, por exemplo. E partem da ideia de que se já deu certo, vai dar de novo. E isso não é regra. Os pais têm de compreender que não existe escola perfeita, mas existem escolas com propostas educativas que podem se ajustar mais ou menos àquela criança.

Quando eu falo de ajustar, eu falo da metodologia que atende às expectativas, bate com a personalidade e o perfil da criança. Mas é também o ambiente da escola. Tem pais que são muito liberais e põem em uma escola muito rígida porque eles acham que, na média, vai dar certo. Isso não funciona bem porque a criança vive em um esquema de contradição. A proposta tem se aproximar do perfil da família. 

A escolha de uma escola que não estimula o aluno a estudar deve ser repensada pelos pais?

Deve. A escola tem que estimular o aluno. Não só garantir a aprendizagem, mas ensinar a estudar. Dar para o aluno a oportunidade de ele ser um pesquisador, um protagonista do seu processo de aprendizagem. Para te dar um exemplo: eu vejo muitos alunos meus na universidade que são bons alunos, mas não têm autonomia para aprender. Não sabem ir à biblioteca, fazer uma pesquisa. Porque a vida inteira receberam o conteúdo apostilado, mastigado.

Então, são escolas que garantem o conteúdo, mas não garantem a formação do estudante de forma mais ampla. Nem sempre os pais têm condição de ver isso. Às vezes eles estão tão preocupados com o vestibular, por exemplo, que não percebem que o projeto educativo é muito mais amplo. Envolve formar um sujeito com autonomia para a aprendizagem, que tenha liderança, valores, como respeito à diversidade, tolerância, que seja capaz de ter uma reflexão crítica. 

Insistir em uma escola onde a criança está sofrendo bullying ou tem dificuldades para se enturmar pode ser uma boa medida?

O bullying é uma prática que costuma deixar marcas muito profundas nas crianças e jovens. Então, em um primeiro momento, os pais têm que procurar a escola e cobrar iniciativas com relação ao bullying. Não é assim: começou o bullying, tira da escola. Em primeiro momento tem de conversar com a escola, mas se a coisa não se resolver, deve mudar de escola, sim. Se deixar uma criança por anos sofrendo bullying, é forte a probabilidade de ela levar isso para a vida inteira.

Eu lamento porque muitas escolas não conseguem lidar com isso, os professores não estão preparados e a escola finge que não vê. Tão importante quanto conteúdos é garantir a boa convivência respeito, tolerância, o atendimento à diversidade. Eu desconfiaria de uma escola que só trabalhe conteúdo e não se preocupe com essas questões.

Em relação a crianças mais novas, no Fundamental 1, por exemplo, quais os sinais de que a adaptação à escola não está indo bem?

Os pais me perguntam: como eu sei que a escola está sendo boa? É só olhar para o seu filho. A criança tem de dar mostras de estar bem. Ele vai feliz para o colégio, recebe amigos, é convidado para festas, participa das atividades extras da escola, dá conta das lições. Na infância, a escola é o eixo da vida da criança. Ou deveria ser. Se não for, é sinal de preocupação.

Na pré-adolescência, as coisas mudam um pouco. O jovem tende a bater um pouco de frente porque entram em seu circuito outras esferas de referência, para concorrer com a vida escolar. É comum que o jovem fale que não gosta da escola. Mas aí o canal é conversar. “O que está acontecendo? Por que você não gosta?” Às vezes o adolescente fala que não gosta de um professor ou porque no dia teve lição demais. Os pais têm de sentir se é um aspecto pontual, periférico ou um problema de fato. 

 

A partir de quando a criança pode efetivamente opinar sobre a mudança de escola?

Participar sempre e se responsabilizar pela mudança progressivamente, cada vez mais a partir da pré-adolescência. A partir de uns 10 anos, a escolha tem de ser cada vez mais dividida com o jovem. Na adolescência, se você  contraria o jovem nessa escolha, a chance de dar errado é muito grande. Mas, ao mesmo tempo, você não pode falar: “veja a escola que você quer”. O jovem tem que ser corresponsável por essa mudança, principalmente quando existe uma situação de fracasso.

Então, às vezes mudar de escola pode ser visto como uma segunda chance: “olha, naquela escola você não foi responsável, não fez a lição, provocou todo mundo, não obedeceu. Nós vamos mudar você de escola e você vai entrar ‘zerado’ na outra. Ninguém te conhece e você faz uma nova história”. A mudança às vezes é muito boa como forma de recomeçar porque na escola anterior aquele aluno já estava marcado. Que a mudança seja um rito de retomada, de mudança de postura. 

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