Brasileiro faz contas melhor do que escreve

O brasileiro tem mais facilidade com números do que com a leitura e a escrita. Uma pesquisa realizada pelo Ibope e divulgada nesta terça-feira prova o que já se via no balcão de bar, no ônibus, na barraca de camelô. Pessoas às vezes incapazes de escrever mais que o próprio nome fazem contas de cabeça.A dificuldade maior, porém, está em resolver problemas com mais de uma operação, cálculos de porcentagem ou mesmo entender mapas, gráficos e tabelas. Apenas 21% da população chega a esse nível de habilidade matemática.Analfabetos funcionaisO levantamento ouviu duas mil pessoas - em uma amostragem de todas as classes sociais, níveis escolares e idades - e concluiu que 3% dos brasileiros não conseguem sequer ler o preço de um produto no supermercado. Eles são os chamados analfabetos funcionais em matemática. O conceito se relaciona à capacidade de utilizar as habilidades em leitura e escrita no dia-a-dia. Mesmo entre as pessoas que cursaram até a 3ª série do ensino fundamental, há analfabetos funcionais.No ano passado, o estudo foi realizado pela primeira vez, medindo a capacidade de leitura e o número de analfabetos foi superior ao verificado em matemática: 9%. "Entender os números e fazer contas acaba sendo uma questão de sobrevivência", diz o secretário-executivo do Instituto Paulo Montenegro, braço para educação do Ibope, Fábio Montenegro.?Ninguém me engana nas contas?"Não sei ler quase nada, mas, nas contas, ninguém me engana", diz o vendedor ambulante José Clovis da Silva, de 35 anos. Ele vende passes de ônibus e outros apetrechos - como fitas cassete e canetas - perto da Avenida Paulista. Sempre por perto, está a calculadora, que ele diz usar até para realizar cálculos de porcentagem.A maquininha - muitas vezes proibida nas salas de aula - foi permitida durante o estudo do Ibope. "As pessoas precisam aprender a fazer o que a máquina não faz, como resolver problemas, planejar e comparar", diz a educadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Maria da Conceição Fonseca, que foi consultora na pesquisa. Ela defende, inclusive, que a calculadora seja mais usada no meio escolar.PerguntasOs entrevistados responderam a 36 questões durante o mês de novembro. As perguntas eram baseadas em anúncios ou reportagens fictícias. Entre as tarefas mais simples estavam a de ler apenas o preço de um produto ou anotar um número de telefone. Dependendo do resultado, as pessoas evoluíam para questões em que era necessário indicar o menor preço entre vários produtos ou somar os valores de objetos que seriam comprados. Só depois surgiam perguntas relacionadas a porcentagem e análise de gráficos e tabelas.A maior parte dos brasileiros (44%) se concentra no nível 2 de alfabetismo matemático, um abaixo do maior. Eles são capazes de fazer operações usuais como adição e subtração e até mesmo algumas multiplicações isoladas. Com isso, conseguem contar dinheiro, fazer troco e comparar números decimais. "Levo uma meia hora para juntar as letras, mas troco eu não erro", diz Manoel Mariano da Silva, de 41 anos, que trabalha numa barraca de frutas. A pesquisa, chamada de Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional (INAF), é organizada também pela ONG Ação Educativa. O objetivo é fornecer os dados - inéditos no País - para governos e entidades.

Agencia Estado,

17 de dezembro de 2002 | 21h07

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