Hélvio Romero/Estadão
A Leitura foi o foco desta edição do Pisa, o que quer dizer que os resultados dessa área são mais detalhados Hélvio Romero/Estadão

Pisa: Brasil tem leve melhora em prova mundial, mas 4 em 10 alunos não aprendem o básico

Exame mede desempenho de jovens de 15 anos em Leitura, Matemática e Ciência; País ainda está entre últimos do ranking

Renata Cafardo e Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 05h01
Atualizado 03 de dezembro de 2019 | 14h48

SÃO PAULO - A nota dos estudantes brasileiros de 15 anos teve uma leve melhora na maior avaliação de educação básica do mundo, o Pisa. No entanto, 4 em cada 10 adolescentes não conseguem identificar a ideia principal de um texto, ler gráficos, resolver problemas com números inteiros, entender um experimento científico simples.

Apesar de já ter tido posições piores, o País também se mantém entre as últimas colocações do ranking internacional nas três áreas avaliadas, Leitura, Matemática e Ciência. E ainda é uma das nações com maior diferença de desempenho entre estudantes ricos e pobres.

Os resultados do Pisa foram divulgados nesta terça, 3, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em Paris. Participaram da prova, realizada no ano passado, 600 mil estudantes em 79 países. O exame é feito desde 2000, de três em três anos, com nações membros da OCDE e convidados, como é o caso do Brasil. A China, representada pelas províncias de Pequim, Shangai, Jiangsu e Zhejiang, ficou em primeiro lugar dos rankings mundiais das três áreas.

A nota média do Brasil em Leitura subiu de 407 para 413 pontos, entre 2015 e 2018, a mais alta já registrada no Pisa pelo Brasil. Apesar do avanço em relação à última edição não ser estatisticamente significativo, a tendência de aumento desde 2000 é considerada relevante pela OCDE. 

Além disso, a amostra de alunos do Brasil cresceu muito nos últimos anos, o que, em geral, tenderia a baixar a nota do País. Isso porque o Brasil tem aumentado nos últimos anos o índice de jovens de 15 anos na escola - idade em que o adolescente deve ingressar no ensino médio. A inclusão leva jovens de baixa renda a frequentarem a escola.

O relatório do Pisa destaca, logo nas primeiras páginas, o Brasil como um dos seis países em que “a qualidade da educação não foi sacrificada quando se aumentou o acesso à escola”. Os outros são México, Albânia, Indonésia, Turquia e Uruguai.

“Um aumento na inclusão tende a mascarar eventuais melhoras no desempenho dos alunos, já que é possível assumir que os jovens que não estavam no sistema escolar nas edições passadas teriam um desempenho relativamente baixo”, disse ao Estado a analista de educação da OCDE Camila de Moraes, que é brasileira. “Em países onde a inclusão aumentou, a manutenção dos resultados em um mesmo patamar pode ser em si um fato positivo.”

Além disso, ao comparar os 25% dos jovens de melhor desempenho no Brasil, o relatório mostra um aumento de 10 pontos a cada três anos, entre 2003 e 2018, em Matemática. Em Ciência, são oito pontos a cada três anos.  Ou seja, se não houvesse inclusão a nota geral do Brasil poderia estar maior.  

Só 2% dos jovens brasileiros conseguem distinguir fato de opinião

A Leitura foi o foco desta edição do Pisa, o que quer dizer que os resultados dessa área são mais detalhados. Além de cobrar interpretação e compreensão de texto, a prova incluiu competências necessárias para  “construir conhecimento, pensamento crítico e tomar decisões bem embasadas”, como explicou o relatório da OCDE. “O smartphone transformou a maneira como as pessoas leem e a digitalização levou ao surgimento de novas formas de textos”, explicou o documento.

Os resultados mostram que só 10% dos jovens no mundo conseguem distinguir fato de opinião, habilidade considerada complexa pelo Pisa. No Brasil, esse grupo representa 2% e não inclui jovens de baixa renda.

A mais alta colocação brasileira está também no ranking de Leitura (54ª posição), ficando acima de cinco países latinos: Argentina, Colômbia, Peru, Panamá e República Dominicana. Há duas semanas, o ministro da educação, Abraham Weintraub, havia dito que o Brasil ficaria em último lugar na América Latina no Pisa por causa das “abordagens esquerdistas” de governos anteriores.  

Mesmo assim, metade dos estudantes não consegue chegar ao nível 2 de desempenho na área (os patamares vão de 1 a 6), considerado o conhecimento mínimo esperado para a idade. Isso quer dizer que os estudantes de 15 anos não entendem o propósito de um texto e não encontram informações que estão explícitas.  A maior parte dos brasileiros (26,7%) está no nível 1A, ou seja, apenas entendem o significado literal de frases ou passagens curtas, reconhecem o tema principal ou o objetivo do autor em um texto sobre um assunto familiar.

Brasil tem pior desempenho em Matemática

Em Matemática, também houve melhora significativa nos resultados entre 2003, primeiro ano em que o Pisa destacou a área, e 2018. Entre 2015 e o ano passado, a nota do Brasil subiu de 377 para 384. No entanto, a pior posição no ranking do Brasil é em Matemática, 70ª colocação, ficando atrás de Peru, Colômbia e Líbano. Mas ainda acima de Argentina, Panamá, Filipinas, entre outros.

No Brasil, só 32% dos estudantes estão no nível 2, considerado básico, e acima dele em Matemática. Apenas esse grupo consegue, por exemplo, comparar distância de duas rotas ou converter preços em diferentes moedas. Entre os países da OCDE, o índice de jovens do nível 2 para cima é de 76%.  

Entre os melhores resultados de Matemática estão os países asiáticos, como China, Cingapura, Hong Kong e Coreia. Na China, 16% dos estudantes estão no mais alto nível da disciplina, com raciocínio matemática considerado muito avançado. Entre os países da OCDE, só 2,4% chegam a esse patamar.

No ranking de Ciência, os asiáticos também se destacam, junto com a Estônia, com mais de 90% dos seus estudantes acima do nível básico. O Brasil ficou na 66ª posição entre os 79 países. A nota também subiu entre 2015 e 2018, de 401 para 404. Mas só 1% dos estudantes brasileiros está nos maiores níveis de desempenho, o que quer dizer que dominam conceitos científicos sobre vida e espaço e sabem até mais do que se espera no currículo para a idade. 

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Três em cada dez alunos brasileiros relatam sobre bullying algumas vezes ao mês, mostra Pisa

Média de relato deste tipo de violência escolar é menor entre países da OCDE, de 22,3%; pesquisas associam esse problema a taxas mais elevadas de evasão

Isabela Palhares e Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 05h01

SÃO PAULO - Três em cada dez alunos de 15 anos no Brasil afirmam sofrer bullying "algumas vezes ao mês", segundo dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), mais importante avaliação de educação básica do mundo. Os jovens brasileiros são alvos desse tipo de violência com mais frequência e em mais formas do que a média dos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). 

Desde 2015, além da aplicação de provas de Leitura, Matemática e Ciência, os organizadores do Pisa perguntam aos alunos sobre experiências de bullying (o que pode envolver intimidações físicas ou verbais) no ambiente escolar. Entre os países  da organização, 22,3% relatam sofrer bullying com frequência e foi constatado que diferenças culturais e normas sociais influenciam os tipos de violência sofrido pelos estudantes.

A proporção de estudantes brasileiros que sofrem as diferentes formas de bullying é maior do que a média. No Brasil, 16% relatam ter sido alvo de agressões verbais, 10% dizem ter sido ameaçados, 12% afirmam ter seus pertences roubados ou destruídos e 9% agredidos - enquanto, na média da organização, foram 13%, 5,5%, 6% e 7%, respectivamente. 

"Esse comportamento violento pode ter consequências físicas e emocionais a longo prazo nos estudante", diz o relatório, que destaca a situação como preocupante, uma vez que pesquisas mostram haver maior incidência de abandono escolar entre quem sofre e quem comete bullying. 

Os meninos tendem a estar mais envolvidos em situações de violência escolar, tanto como vítimas como agressores. Nos casos de bullying, se envolvem mais em vioências físicas. Já as garotas, em agressões sociais, como exclusão e violência verbal. 

Apesar da alta proporção de brasileiros vítimas de violência escolar, o relatório destaca como positivo o fato de os estudantes terem uma percepção sobre a gravidade desse tipo de episódio - 85% disse concordar que devem ajudar quem não consegue se defender sozinho. 

"Professores e diretores não devem apenas ser capazes de reconhecer quando o bullying acontece, mas também devem criar uma atmosfera menos propensa para que ele ocorra. Pesquisas sugerem que ambientes escolares apoiadores e solidários têm menos ocorrência  de violência entre os estudantes", diz o relatório. 

Mesmo com uma boa percepção sobre a violência, a maioria dos estudantes brasileiros relata ter experiências negativas na escola - 52% relataram que seus colegas não cooperam uns com os outros e 57% dizem se sentir em competição com os outros. Além disso, 23% dizem se sentir solitários na escola. "Em escolas onde os estudantes percebem que há maior senso de justiça e gentileza, em que se sentem pertencentes e têm professores menos punitivos, os jovens se sentem menos inclinados a ter um comportamento arriscado ou violento", diz o estudo. 

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Ministro erra previsão e Brasil não é o último do Pisa na América Latina; veja mais destaques

País, porém, ainda está longe das primeiras posições do ranking: ocupa o 54º lugar em Leitura, principal área avaliada pelo exame internacional nesta edição

Renata Cafardo e Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 05h00

SÃO PAULO - Apesar de o ministro da educação, Abraham Weintraub, ter dito em novembro que o Brasil ficaria em último lugar da América Latina no Pisa, maior avaliação da educação básica do mundo, outros cinco países da região tiveram nota pior no ranking principal desta edição, o de Leitura. 

Veja mais destaques sobre o Brasil nesta edição do exame, aplicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que mede conhecimentos em Leitura, Matemática e Ciência entre jovens de 15 anos:

  • Brasil está em 54º lugar em Leitura, principal área avaliada nesta edição, entre 79 países participantes.
  • Quatro em cada 10 alunos brasileiros de 15 anos não conseguem identificar a ideia principal de um texto, ler gráficos, resolver problemas com números inteiros, entender um experimento científico simples.
  • Em Matemática, tiveram pior desempenho que os brasileiros na América Latina os estudantes da Argentina, do Panamá e da República Dominicana, entre outros não latinos. Em Ciência, foram só dois latinos: Panamá e a República Dominicana, a última do ranking mundial.
  • Pela 1ª vez, o Pisa separou os resultados do Brasil pelas regiões do País. A diferença de pontuação chegou a até 43 pontos, tendo o Sul como o de mais alto desempenho nas três disciplinas.
  • Em Leitura, a Região Sul teve uma nota de 432 pontos, resultado que se assemelha ao de países como Malta e Sérvia. Já o Nordeste apresentou o menor desempenho, com 389 pontos em Leitura, nota similar a do Azerbaijão e Cazaquistão. 
  • A Região Centro-Oeste teve o segundo melhor desempenho, seguido pelo Sudeste. A região Norte ficou à frente só do Nordeste. O aumento do número de jovens que fizeram a prova, conforme a OCDE, permitiu ter amostra suficientemente relevante para calcular o resultado de cada região separadamente.
  • As meninas brasileiras tiveram pontuação melhor que os meninos em Leitura, com 26 pontos a mais. Os garotos, no entanto, tiveram melhor desempenho em Matemática, com 9 pontos acima. Em ciências, não há diferença significativa entre eles.
  • Entre os alunos com mais alta proficiência em Matemática e Ciências, um em cada três meninos quer trabalhar na área de Engenharia e uma em cada quatro meninas que trabalhar na área da Saúde.
  • 41% dos jovens brasileiros dizem que os professores têm de esperar "um longo tempo" para que os alunos se acalmem antes de iniciar a aula.
  • Metade dos jovens brasileiros já matou um dia de aula e 44% dizem já terem se atrasado para a escola nas duas semanas antes do teste do Pisa.

Veja destaques internacionais:

  • A China, representada pelas províncias de Pequim, Shangai, Jiangsu e Zhejiang, ficou no topo dos rankings mundiais das três áreas (Leitura, Matemática e Ciências)
  • A Argentina é país é o pior da América do Sul no ranking de Matemática e, no mesmo grupo, ocupa a penúltima posição em Leitura e em Ciências.
  • Os Estados Unidos estão com o desempenho dos estudantes nas três áreas avaliadas (Leitura, Matemática e Ciência) praticamente estagnado desde 2000. O país, porém, tem aumentado as diferenças entre seus estudantes, com os jovens de mais alto desempenho ampliando sua pontuação, enquanto os demais permanecem no mesmo patamar. 
  • Portugal ficou próximo da média da OCDE nas três áreas avaliadas, mantendo a tendência de crescimento dos últimos anos. No entanto, o país europeu acentuou as desigualdades na última edição Com o aumento da diferença entre alunos pobres e ricos e com menor desempenho entre imigrantes. 
  • A Estônia se mantém como o melhor avaliado da Europa. No ranking global, ocupa a 4ª posição em Ciências, 5ª em Leitura e 8ª em Matemática. A diferença entre alunos pobres e ricos é de 61 pontos, 28 a menos que a média da OCDE. A desigualdade de gênero também não preocupa. Na Estônia, a proporção de meninos que quer seguir na carreira na área de Engenharia é de um em cada seis. Entre as meninas, a proporção é de uma em cada sete.

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'O Pisa é do PT', diz Weintraub para justificar 'tragédia' do Brasil em prova

Ministro da Educação lembrou que avaliação se refere a 2018, atacou os governos petistas e poupou Michel Temer

Felipe Cordeiro, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 11h46
Atualizado 04 de dezembro de 2019 | 05h55

SÃO PAULO - O ministro da Educação, Abraham Weintraub, atacou e culpou os governos petistas pelo resultado do Brasil que considerou "uma tragédia" no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês). "O Pisa é do PT, não do (presidente Jair) Bolsonaro", afirmou Weintraub ao comentar os resultados de 2018 do exame, divulgados nesta terça-feira, 3, pelo Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

"Integralmente culpa do PT, integralmente culpa dessa doutrinação 'esquerdófila' sem compromisso com o ensino. Quer discutir sexualidade, não quer ensinar (a) ler e escrever", disse o ministro, que poupou a gestão anterior, de Michel Temer (MDB). "Ele ficou pouco tempo. Não dá para culpar o cara. O exame foi feito no começo de 2018. Ele ficou um ano lá, não vou culpar... Ele é culpado de ser vice da (presidente) Dilma (Rousseff). Isso ele é culpado - e de outras coisas também."

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Integralmente culpa do PT, integralmente culpa dessa doutrinação 'esquerdófila' sem compromisso com o ensino. Quer discutir sexualidade, não quer ensinar (a) ler e escrever
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Abraham Weintraub, ministro da Educação

A nota dos estudantes brasileiros de 15 anos teve uma leve melhora na maior avaliação de educação básica do mundo. No entanto, quatro em cada 10 adolescentes não conseguem identificar a ideia principal de um texto, ler gráficos, resolver problemas com números inteiros, entender um experimento científico simples.

Tecnologia em sala de aula e escolas cívico-militares

"Esse governo não tem nada ver com o Pisa", enfatizou o ministro. "Quando vocês olharem em termos históricos, 2019 vai ser o ponto de inflexão."

Para Weintraub, um das soluções para melhorar o desempenho dos estudantes brasileiros é investir em tecnologia nas escolas e substituir o material didático.

"Os antigos não funcionam. A prova está no Pisa de 2018", disse. "A gente começa a mudar isso com livro didático, com técnicas diferentes, com métodos diferentes, que foram feitos, apresentados e discutidos, começaremos a implantar isso no Brasil inteiro."

Weintraub afirmou que o Ministério da Educação (MEC) teve acesso a dados que mostram que as notas dos colégios cívico-militares estão acima da média da OCDE e defendeu o modelo, uma das bandeiras da área de educação do governo Bolsonaro.

"Na média, é uma tragédia, mas, quando a gente olha as escolas militares e cívico-militares já existentes, o Brasil está acima da média da OCDE."

Pisa

Os resultados do Pisa foram divulgados nesta terça pela OCDE, em Paris. Participaram da prova, aplicada em 2018, 600 mil estudantes em 79 países. O exame é feito desde 2000, a cada três anos, com nações membros da OCDE e convidados, como é o caso do Brasil.

A China, representada por quatro províncias, ficou em primeiro lugar dos rankings mundiais das três áreas avaliadas - Leitura, Matemática e Ciência. Nesta edição, o foco foi em Leitura.

PT

O ex-ministro da Educação Aloizio Mercadante rebateu as críticas do atual titular da pasta e defendeu as gestões petistas.

"Mais uma vez, ao invés de procurar fazer uma análise aprofundada e apresentar propostas concretas para a melhoria da qualidade da educação brasileira, o governo Bolsonaro prefere justificar a tragédia que está em curso na educação com respostas evasivas e uma guerra ideológica obscurantista", afirmou, em nota, Mercadante, que esteve à frente do MEC em duas ocasiões durante o governo de Dilma Rousseff.

Segundo Mercadante, os governos petistas "patrocinaram uma extraordinária inclusão educacional".

"Em 2002, 36,9% da população tinham concluído o ensino fundamental, em 2015, atingimos 54,45%, o que reforça que ainda temos um imenso desafio na inclusão escolar. Entre os 5% mais pobres, apenas 6,8% tinham o ensino fundamental, em 2015, eram 30,3%", declarou.

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Artigo: Há avanços, mas País precisa se inspirar em nações de sucesso e investir em professor

'Há pouca inclinação do MEC a seguir as melhores evidências. Por outro lado, há um crescente compromisso dos Estados'

Priscila Cruz, João Marcelo Borges e Olavo Nogueira Filho, Todos pela Educação

03 de dezembro de 2019 | 08h00

Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que realiza o Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), abre assim um dos relatórios analíticos dos resultados divulgados nesta terça-feira: "Garantir aos cidadãos os conhecimentos e habilidades necessárias para que alcancem seu pleno potencial, para contribuírem para um mundo crescentemente interconectado e para transformar melhores competências em vidas melhores, precisa tornar-se a preocupação central das lideranças públicas ao redor do mundo. Para atingir esses objetivos, mais e mais países estão olhando para as melhores evidências de políticas públicas educacionais de maior sucesso e eficiência".

Nesse pequeno conjunto de palavras há uma imensidão. Os propósitos e caminhos aí colocados estão ainda distantes da realidade brasileira: garantia de aprendizagem para todos; educação como estratégia de país e de vidas mais plenas; uso obstinado das melhores evidências na política educacional.

O Brasil, como amplamente divulgado nesta terça, ainda permanece entre as últimas colocações no Pisa. Tivemos avanços significativos na primeira década dos anos 2000 e estagnação desde então. A boa notícia é o crescimento da proficiência média dos alunos brasileiros, ainda que tímida, ao mesmo tempo em que avançamos no aumento das matrículas, incluindo cada vez mais crianças e jovens dos níveis socioeconômicos mais baixos. Os países que estão no topo do ranking concluíram a universalização muitas décadas antes de nós. Também é digno de nota que nosso desempenho não tenha piorado entre 2015 e 2018, a despeito de grave recessão econômica que fez decrescer o investimento real por aluno.

Para avançarmos com muito mais vigor e consistência ao longo dos próximos anos, precisaremos colocar em prática a dupla tarefa proposta por Angel Gurría: uma agenda política, que dê centralidade à educação como estratégia de país; e uma agenda técnica, referenciada nas evidências de políticas públicas de maior sucesso. A saber, o maior determinante do sucesso dos países bem-sucedidos é o investimento nos professores: atratividade para a docência; excelência na formação; carreira estimulante e com cobrança de resultados, com melhores condições de trabalho; e apoio pedagógico constante. Claro que não basta apenas investir em políticas docentes. Mas, sem elas, nenhuma medida surtirá resultados suficientes para mudar a educação brasileira de patamar. O Brasil deveria se inspirar na experiência de sucesso de outros países e implementar reformas que tenham como pilar mais importante a profissionalização da carreira do professor.

Infelizmente, não cumprimos nenhum desses requisitos no governo federal. A melhoria da qualidade da educação está longe de ser uma prioridade federal e há pouca inclinação do Ministério da Educação (MEC) a seguir as melhores evidências. Por outro lado, há um crescente compromisso dos Estados com a melhoria da qualidade da educação básica (em particular no Nordeste, com destaque para Ceará e Pernambuco) e também maior protagonismo do Congresso Nacional.

Já passou da hora de o Brasil fazer o que outros países fizeram ao implantar reformas educacionais exitosas: discutir e negociar para construir consensos mínimos informados pelas melhores evidências, que se materializem em medidas legislativas e executivas consistentes e abrangentes. A tarefa é enorme, urgente, mas perfeitamente possível.

*PRISCILA CRUZ É PRESIDENTE-EXECUTIVA DO TODOS PELA EDUCAÇÃO

*JOÃO MARCELO BORGES É DIRETOR DE ESTRATÉGIA POLÍTICA DO TODOS PELA EDUCAÇÃO

*OLAVO NOGUEIRA FILHO É DIRETOR DE POLÍTICAS EDUCACIONAIS DO TODOS PELA EDUCAÇÃO

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Artigo: Não há receita mágica para virar o jogo, mas há um caminho

Nas três áreas do conhecimento, Brasil está na lanterna do Pisa; Base Nacional Comum Curricular (BNCC) tem potencial para reverter os resultados ruins

Alice Ribeiro, Movimento pela Base

03 de dezembro de 2019 | 12h57

Embora tenha apresentado leve melhora na pontuação geral entre 2015 e 2018 nas três áreas do conhecimento, o Brasil ainda se encontra na lanterna do Pisa, a avaliação internacional de estudantes da OCDE, que teve os resultados divulgados nesta terça-feira, 3. Quatro em cada dez alunos brasileiros sequer alcançam o nível 2 de aprendizagem, considerado mínimo, em Leitura, Matemática e Ciências.

Os alunos brasileiros de nível socioeconômico mais alto leem pior do que alunos mais pobres de vários países.  O desempenho demonstra que redes públicas e particulares encontram imensos desafios para garantir a aprendizagem de qualidade para todos.

Não há uma receita mágica para virar o jogo, mas há um caminho que começou a ser traçado em 2015, com a construção da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que tem potencial para ajudar.

A BNCC deixa claro o que todos os estudantes têm o direito de aprender na sua trajetória escolar. Diz também que essa aprendizagem vai além de conteúdos: é preciso que crianças e jovens desenvolvam competências e habilidades, para que consigam interpretar um gráfico, analisar e comparar dados, investigar e registrar fatos, argumentar e apresentar suas ideias num mundo cada vez mais digital. Uma formação muito mais próxima da oferecida por países líderes do Pisa e, o mais importante, mais significativa para as crianças e jovens brasileiros.

A BNCC - que é uma política de Estado, prevista na Constituição e no Plano Nacional de Educação -, é referencial obrigatório para os currículos de todas as redes públicas e particulares do País. Os currículos, portanto, se tornam peça ainda mais central, e devem nortear outros elementos do sistema educacional fundamentais para ajudar na virada:  a formação e a valorização dos professores (que devem ensinar o que determinam os currículos e é de direito dos alunos), os materiais didáticos (para apoiar as práticas de sala de aula) e as próprias avaliações nacionais (que devem medir, como faz o Pisa, o quanto os estudantes estão aprendendo o que deveriam). 

O Brasil avança neste caminho. A BNCC chega às escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental em 2020 e, nas de Ensino Médio, em 2021. Para as primeiras etapas, 100% dos referenciais curriculares construídos em regime de colaboração entre estados e municípios estão prontos.  A formação dos professores em serviço, alinhada aos currículos, teve início este ano. Novas diretrizes curriculares nacionais de formação inicial de professores, alinhadas à BNCC, foram aprovadas em novembro. Editais dos livros didáticos do PNLD e matrizes de avaliações, como o Saeb, começaram a ser alinhados.

A implementação de uma política estruturante como a BNCC exige intenso e articulado trabalho de implementação por parte das redes de ensino e precisa ser monitorada e apoiada. O esforço vale a pena. A BNCC não é uma receita mágica, mas uma oportunidade que o Brasil não pode deixar passar. Com ela, esperamos que o direito a uma educação de qualidade seja respeitado, e que o Pisa possa, em breve, contar uma outra história sobre a educação brasileira.

*ALICE RIBEIRO, SECRETÁRIA EXECUTIVA DO MOVIMENTO PELA BASE

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Entenda o que é o Pisa, principal avaliação de estudantes do mundo

Exame é feito de três em três anos, desde 2000; veja perguntas e respostas para saber mais sobre a avaliação

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2019 | 14h00

SÃO PAULO - O Programme for International Student Assessment, conhecido apenas como Pisa, tornou-se o maior exame de estudantes do mundo. Ele é feito de três em três anos, desde 2000, e os novos  resultados serão divulgados nesta terça-feira, 3, em Paris.

Para quem não se lembra, o Pisa é aquele exame que fez a Finlândia ficar conhecida como a melhor educação do mundo porque apareceu no topo de seus rankings. E mostrou o Brasil no outro extremo, entre os piores.

A prova é feita pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e os resultados são muito esperados pela comunidade educacional. Há pouca expectativa de o Brasil alcançar um bom desempenho, mas os dados podem ser usados para inúmeras análises, como comparações entre estudantes de escolas públicas e particulares, pobres e ricos, meninos e meninas.

Saiba mais sobre o Pisa nas perguntas e respostas abaixo:

O que é o Pisa?

É a maior avaliação internacional, feita com estudantes de 15 anos, de três em três anos. Os testes são de Leitura, Matemática e Ciência.

Quem faz?

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) realiza o exame com seus países membros e convidados. O Brasil é convidado desde a primeira edição, no ano 2000.

Quais resultados saem neste ano?

Nesta terça, serão divulgados os resultados de exames feitos em 2018 por 600 mil alunos em 79 países. Cada edição, o Pisa foca em uma das três áreas, desta vez o foco é em Leitura. Mas há também perguntas de Matemática e Ciência.

O que se entende por Leitura no Pisa?

Além da competência de interpretação e compreensão de texto, o Pisa agora mede habilidades dos estudantes de analisar, avaliar, checar a veracidade do que está escrito, quais as fontes, o que pretende o autor.

O que se pode saber com o Pisa?

Os mais conhecidos resultados são os rankings de países, em que a nota de cada um é usada para saber os melhores e piores em Leitura, Ciência e Matemática. Mas os dados também indicam o desempenho por gênero, por nível socioeconômico, a condição emocional dos alunos, o clima na escola. É possível fazer comparações entre escolas públicas e particulares, entre alunos mais pobres e mais ricos etc.

O que o Pisa já nos mostrou sobre o Brasil?

O Brasil, em geral, fica nas piores colocações dos rankings, mas seu desempenho melhorou ao longo dos anos. Na primeira década dos anos 2000, o País foi um dos que mais avançaram em sua nota em Matemática, sendo um destaque da OCDE. Depois, o resultado ficou estagnado. O resultado dos brasileiros sempre esteve abaixo da chamada média dos países participantes, a maioria deles desenvolvidos.

E sobre o mundo?

Foi por meio da avaliação que o mundo descobriu a Finlândia como uma grande referência na educação, já que ela apareceu no topo do ranking em 2000. Asiáticos, como Cingapura e Hong Kong, focaram seus sistemas nas avaliações e também têm ótimos resultados. Em 2015, o melhor país da Europa foi a pequena Estônia.

Por que o Pisa é importante?

Desde que foi criado, o Pisa já levou a mudanças importantes em políticas educacionais em vários países, como Alemanha, Portugal e muitos asiáticos, que se surpreenderam com os resultados iniciais. A avaliação também ajudou a nortear provas feitas pelos próprios países em suas redes, inaugurando uma era de testes feitos com estudantes para medir sistemas de educação.

Além disso, o Pisa foi uma prova inovadora, ao avaliar competências e habilidades e menos conteúdo, o que influenciou a maneira de pensar educação no mundo todo. No entanto, os críticos da avaliação sustentam que o Pisa levou países a adaptarem seu ensino apenas para se saírem bem nos testes da OCDE.

Como foi a prova de 2018 no Brasil?

Participaram no Brasil 17.507 estudantes, a maioria de escolas públicas.

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