Bianca Ventura
Bianca Ventura

Bom colégio exige bons profissionais

Com laboratórios, quadras e salas especiais fechados na pandemia, trabalho de educadores fez a diferença na relação com alunos e suas família

Luciana Alvarez, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2020 | 05h00

Com os portões fechados por causa da pandemia, a escola invadiu a casa dos alunos. Por meses, ela esteve com a vida em família em celulares, tablets e computadores. E os alunos – muitas vezes acompanhados de suas famílias – entraram na casa dos professores e demais funcionários. As formas de aprender e ensinar mudaram. As relações, ainda mais. Durante meses, prédios, laboratórios, salas especiais e toda a infraestrutura física ficaram absolutamente irrelevantes. Uma boa escola foi aquela que tinha bons profissionais.

Professor de Artes para os primeiros anos do ensino fundamental, em tempos pré-pandemia Tomás Decina contava com um ateliê muito bem preparado no Colégio Equipe. “A aula presencial tem muita exploração de materiais, tudo diversificado: argila, tintas, madeira, papéis bem grandes”, cita. Ainda que privado dos materiais específicos, o professor continuou mantendo os alunos interessados e explorando o universo das artes plásticas, por meio de propostas provocadoras que chegavam à casa dos alunos em vídeos engraçados.

Entre as propostas pediu esculturas com edredons e busca de materiais da mesma cor pela casa. “Eu tinha uma preocupação de não ficar só no desenho, no papel. Precisava ampliar as possibilidades. Senti que os alunos foram receptivos, que as famílias se envolveram”, conta Decina. Para ser capaz de criar propostas interessantes, contou com o apoio de colegas das artes plásticas e com professores de outras etapas e disciplinas. “De saída, eu me apoiei nos documentos curriculares, em fazer uma versão da nossa proposta dentro de casa. Mas também troco muita informação com amigos e amigas que dão aulas. Estou me beneficiando de uma rede de amigos profissionais”, diz. 

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Aqui na escola, a gente nunca teve dúvida nenhuma de que o grande diferencial são as pessoas. Ter uma plataforma tecnológica potente, ter um prédio com infraestrutura e bons espaços, tudo isso é interessante. Mas escola é gente
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Wilton Ormundo, diretor do ensino médio da Escola Móbile

Segundo Ormundo, mais do que títulos, os profissionais de uma escola precisam ser criativos, críticos e flexíveis. “Procuro contratar pessoas que problematizem. Em nossas reuniões pedagógicas tem sempre alguém falando “mas e se...”, afirma. Segundo ele, a visão crítica faz as pessoas anteciparem problemas; a criatividade, a encontrar soluções. Ser maleável é importante para aceitar que, às vezes, a ideia do outro é melhor que a sua. “Sem ter uma equipe flexível, jamais teria conseguido enfrentar a pandemia de forma produtiva”, diz.

O grupo de funcionários de uma escola precisa ainda ser diverso, recomenda o diretor da Móbile. “Tenho um professor de 60 anos e outro de 24, que trabalham juntos. Cada um com suas características, ambos têm abertura para o novo, estão acostumados a viver novas realidades, fazer projetos novos, achar soluções criativas”, conta o diretor.

A pandemia foi um momento de muitas experiências, de erros e acertos. Saber reconhecer o que não funcionou e buscar outras soluções foi o que fez Teresa Chaves, professora de História da Móbile. “Agora percebo que meu olhar inicial foi muito ingênuo”, conta.

Com um mestrado em tecnologia da informação, ela foi responsável por dar formação para boa parte da equipe sobre como usar as videoconferências. “Mas achava que daria para transpor o que se passava normalmente nas salas de aula para o vídeo, que iria manter meu planejamento.” Teresa logo percebeu que ficou muito cansativo e as relações foram ficando distantes. Teve então de pensar em outras iniciativas, em formas mais intimistas para se aproximar dos estudantes.

Organizou um “café com professores” para os alunos e professores conversarem sobre qualquer assunto. “A única condição é que todos liguem as câmeras. É um espaço para construção de vínculo, inclusive entre alunos de classes diferentes”, afirma.

Também chamou a equipe da escola para montar listas com dicas culturais em um aplicativo. “Vale tudo: a receita de brownie da avó, indicação de filmes, livros, lives, shows, perfis para seguir no Instagram. A intenção é driblar um pouco os algoritmos e conhecer sugestões de pessoas diferentes”, afirma Teresa. A seu pedido, os alunos fizeram uma playlist cooperativa de músicas para os professores – e vice-versa.

Aproximação segura

A sala da orientadora educacional Bianca Ventura, do Colégio Anglo 21, sempre esteve aberta para receber os alunos que buscassem alguma ajuda ou conselho. Mas nem sempre se sentiam tão confortáveis em ir até ela. “Dentro da escola, os colegas acabam sabendo quando alguém vai até lá me procurar. Então, eles sentem que devem certas explicações aos amigos, precisam se justificar”, relata.

Ironicamente, a pandemia que acabou com o olho no olho trouxe os alunos para perto. “Peguei um número corporativo e criei grupos de WhatsApp com eles. A escola não tinha essa interlocução com os alunos; antes eles tinham um grupo que é só deles. Além do grupo, muitos me procuram individualmente. Nunca tinha atendido tantos estudantes como agora. São menos filtros no acesso”, diz a orientadora.

Mesmo o relacionamento com famílias se estreitou. “Ajudou para eu olhar para a realidade do que acontece na casa do aluno. Passei a fazer reunião com filhos de pais separados com o pai e a mãe; ante era mais muito difícil ter a presença dos dois”, cita Bianca. Da mesma forma, os pais puderam perceber melhor como é a rotina de estudos, como é o trabalho dos professores. Tudo isso, garante a orientadora, promoveu mais empatia e relações mais horizontais.

O processo tem sido desgastante para os trabalhadores das escolas, mas uma equipe unida se ajuda mutuamente. “Fizemos encontros virtuais com os funcionários, para poder falar das nossas dores ao perceber que o que a gente sabia fazer não era mais o suficiente”, relata a orientadora.

Em meio a tantos problemas causados pela pandemia, a orientadora acredita que a pandemia deixa legados positivos nas relações pessoais dentro das escolas. “Não tem retrocesso possível ao que éramos antes. Precisamos que os ganhos sejam valorizados, que a gente incorpore tudo o que está aprendendo”, afirma Bianca.

Trabalho em equipe sai valorizado da pandemia

“Não existe professor isolado. Ou não deveria existir. Quando há um senso de equipe, eles se apoiam e todos ficam fortalecidos”, diz Márcia Padilha, pesquisadora e formadora em educação e inovação. Para além de motivação e ânimo, equipes bem integradas permitem que o aluno seja acompanhado de forma holística. O professor conhece a evolução dele ano a ano, assim como o desempenho em outras disciplinas.

O trabalho colaborativo dos funcionários de uma escola traz vantagens porque mostra um modelo para inspirar os alunos, assim como multiplica o número de experiências e, com elas, as chances de sucesso, explica Márcia. 

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Ensinar-educar é complexo. A gente educa sobretudo pelo exemplo. É complicado uma escola que não sabia trabalhar em equipe ensinar seus alunos a trabalhar em equipe
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Mesmo colégios que tradicionalmente preparam para vestibulares estão mudando sua cultura, passando a valorizar habilidades socioemocionais. Isso não apenas por ser uma exigência da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que orienta a educação básica brasileira desde 2018, mas porque é uma exigência atual. “A gente fala tanto em indústria 4.0, em colaboração, diversidade. É uma tendência no mundo corporativo, que é onde muitos pais costumam projetar o futuro profissional dos filhos.”

E, em grupo, é de fato mais fácil encontrar boas respostas para problemas. “Agora na pandemia, por exemplo, os professores que tinham mais facilidade com tecnologias, mais repertório para uso delas na educação, puderam ajudar os que tinham menos. Se a minha escola trabalha em colaboração, a curva de aprendizagem é mais rápida, porque cada um experimenta uma coisa e acaba virando um conhecimento coletivo da equipe”, diz Márcia.

Segundo ela, os pais que procuram um colégio devem tentar perceber se a equipe docente tem boa relação com os gestores, se há suporte por parte de coordenadores. “Podem pesquisar se há muita troca de professores, buscar perceber o clima, como são as relações. Eu evitaria locais em que os professores são muito isolados, ou muito competitivos”.

Balanço

Trabalhando com monitoria para 15 escolas públicas na pandemia, Márcia acredita que faltou aos colégios de elite um olhar para uma equipe mais ampla, a que trabalha pela educação de forma geral. “Poderiam ter tido uma postura um pouco mais solidária, não apenas em ações isoladas, mas problematizando e propiciando que os estudantes desenvolvessem ações de solidariedade e transformação social via tecnologias. De modo geral, pecamos um pouco tentando manter uma normalidade um pouco forçada em um cenário difícil.”

Na visão da educadora, a escola é o lugar da sociedade. “Deve criar possibilidades de transformações positivas. A gente vai para a escola para aprender sobre nossas cultura e tradições, mas também para transformar.”

 

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