ALI HAIDER/EFE
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Bolsonaro garante Enem e diz que prova 'começa a ter a cara do governo'

Declaração ocorre após pedido de demissão em massa no Inep com a saída de 37 servidores que desempenhavam funções cruciais para a realização do exame

Felipe Frazão, enviado especial

15 de novembro de 2021 | 17h00

DUBAI - O presidente Jair Bolsonaro disse nesta segunda-feira, 15, que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) “começa a ter a cara do governo”. A declaração ocorre após pedido de demissão em massa no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), com a saída de 37 servidores que desempenhavam funções cruciais para a realização do exame.

O presidente disse que o ministro Milton Ribeiro, da Educação, garantiu que o Enem será realizado sem impactos pelas demissões. A prova será aplicada nos dias 21 e 28 de novembro para cerca de 3,1 milhões de candidatos ao ingresso no ensino superior.

“O Milton é do ramo. Ele mandou uma mensagem há pouco e disse que a prova do Enem vai ocorrer na mais absoluta tranquilidade", disse Bolsonaro, durante entrevista na Expo Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. “Começam agora a ter a cara do governo as questões da prova do Enem. Ninguém precisa agora estar preocupado com aquelas questões absurdas do passado, o tema da redação não tinha nada a ver com nada. Realmente é algo voltado ao aprendizado”, disse Bolsonaro.

Os servidores do Inep que pediram exoneração alegaram na carta de demissão "fragilidade técnica e administrativa da atual gestão máxima" do instituto, além de situações de assédio por parte do presidente do instituto, Danilo Dupas. O pedido de demissão coletiva começou inicialmente com 13 nomes, mas na sequência mais funcionários decidiram a assinar a carta.

"É um absurdo o que se gastava com poucas pessoas lá”, acusou Bolsonaro, sem dar evidências, nem dizer a quem se referia.

 No domingo, o Fantástico, da TV Globo, trouxe entrevistas com alguns dos 37 servidores do Inep que entregaram seus cargos. Eles relataram tentativas de interferência no conteúdo das provas para não desagradar ao Palácio do Planalto na elaboração das questões.

A debandada no Inep afeta, principalmente, a Diretoria de Planejamento de Gestão, que abrange duas áreas ligadas diretamente à aplicação da prova e à logística do Enem. Entre os servidores que pediram exoneração boa parte participou da equipe para gestão de incidentes no ano passado, que cuida de eventuais problemas no dia do exame. Por exemplo, são responsáveis pelo remanejamento de locais de prova em casos de problemas climáticos. E, na hora da prova, resolvem incidentes como a demora para a abertura de portões. Com as saídas agora, não está claro quem fará parte desse comitê de crise.

Servidores também acusam o presidente do Inep de tentar passar uma portaria se eximindo da responsabilidade por eventuais problemas no dia do Enem, o que ele negou em seu depoimento à Comissão de Educação da Câmara na quarta-feira da semana passada. Desde o início do governo Bolsonaro, o Inep sofre com a saíde de servidores que alegam interferência política e desvalorização da técnica. Sete ex-ministros da Educação chegaram a divulgar em abril uma carta dizendo que o Inep estava "em risco".

REAÇÃO

Priscila Cruz, presidente do Todos pela Educação, afirma que Bolsonaro atua de olho na reeleição, quando alega que as questões “começam agora a ter a cara do governo”. “Os itens (as questões) utilizados no Enem, bem como em outros exames e avaliações realizados pelo Inep, são exaustivamente formulados, pretextados e combinados em cadernos de provas para que o grau de dificuldade e competências avaliadas sejam equivalentes”, pontua.

“A fala do presidente pode ser caracterizada como indício de que houve interferência do governo na prova, ferindo a credibilidade do resultado”, afirma Priscila. Para a presidente do movimento Todos pela Educação, a situação reforça a necessidade de que o Instituto Nacional de Estudos Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira seja um órgão independente do Ministério da Educação, a fim de evitar possíveis ingerências de qualquer corrente ideológica em seu trabalho. “Quem avalia resultados educacionais não pode ser subordinado a quem implementa políticas educacionais.”

Segundo a especialista, o governo está usando o órgão “na guerra ideológica que promove para manter-se como assunto, inflamar as redes bolsonaristas e agir pela reeleição do presidente”. / COLABOROU IGOR SOARES

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