Blitz verde na Escócia

Para reduzir em 10% as emissões de CO², Universidade de Edimburgo promete mudar a rotina de alunos e docentes

Severin Carrell, The Guardian

14 Dezembro 2009 | 23h46

Se fosse adotada em uma cidade, a campanha da Universidade de Edimburgo, na Escócia, para transformar o estilo de vida e os hábitos de consumo de sua comunidade nos mais "verdes" de toda a Grã-Bretanha teria conquistado as manchetes dos jornais. Numa das revoluções mais silenciosas do Reino Unido, cada um dos 25.700 estudantes e 10.400 funcionários enfrentará um desafio significativo: em menos de um ano, reduzir em 10% o número de voos, o consumo de carne, as contas de luz e o uso de automóveis. Com uma população de 36 mil pessoas, a universidade equivale em tamanho a uma pequena cidade. Numa estimativa bastante conservadora, essa "cidade" emite ao menos 350 mil toneladas anuais de gás carbônico.  A universidade é uma das muitas instituições educacionais britânicas que decidiram participar da campanha climática 10:10, cujo objetivo é alcançar uma redução de 10% nas emissões já em 2010. O programa, porém, vai além da esfera administrativa e atinge áreas sensíveis, como o grande número de viagens aéreas feitas por pesquisadores e alunos. Na semana passada, a iniciativa recebeu um estímulo considerável: a instituição recebeu 340 mil libras do governo escocês para financiar uma equipe que vai mapear emissões e administrar a campanha para reduzi-las. A universidade já tem modernos equipamentos de climatização, que poupam milhares de toneladas de emissões por ano. Os prédios mais antigos vêm ganhando inovações, como iluminação ativada por sensores. O edifício mais novo já tem tecnologia de baixo consumo energético. Mas, de acordo com David Somervell, assessor de Sustentabilidade da universidade, essa foi a parte relativamente fácil das mudanças – o consumo de energia corresponde a um sexto do total de emissões. Transformar o estilo de vida de estudantes e acadêmicos é uma tarefa muito mais árdua, porque a campanha acaba representando uma intromissão na vida das 36 mil pessoas. Voos rotineirosPesquisas sobre o estilo de vida de calouros da universidade, a maioria deles britânicos, revelaram um dado desafiador: estimuladas por tarifas baratas, as viagens aéreas se tornaram rotina. Um questionário apresentado a 2 mil estudantes de um alojamento no centro de Edimburgo pecou pela ingenuidade: tinha espaço para os alunos listarem apenas oito viagens. Muitos entrevistados tiveram de usar o verso do formulário na resposta. A universidade bancou 7 mil passagens aéreas em 2007 e 2008 para professores participarem de conferências. Esses voos representam 95% das emissões no quesito viagens de acadêmicos e funcionários. Lançaram na atmosfera quase 5 mil toneladas de CO². Mas viagens internacionais dos alunos estrangeiros são um problema muito mais grave. Os 7.500 estudantes de fora da Escócia produziram cinco vezes mais emissões apenas em voos para seus países, ou 25.855 toneladas de CO².  Isso cria um problema para universidades que vêm tentando reduzir emissões e aumentar o número de estudantes internacionais para ampliar receita, influência e prestígio. Apesar desse conflito de interesses, Somervell acredita que o ônus da poluição produzida por estudantes pode ser atenuado por outras medidas. A campanha pedirá a alunos que tornem alojamentos mais "verdes". Além disso, vai encorajar dietas com menos carne, estimular caronas, incentivar a troca de aviões por trens e o uso de videoconferências. Somervell argumenta que, diante da elevação do custo da energia, das mudanças climáticas, dos impostos potenciais sobre lançamento de poluentes e do corte nas verbas repassadas pelo governo, reduzir as emissões de gás carbônico demonstra responsabilidade social. "Trata-se de reduzir riscos futuros e de assegurar que tenhamos uma estratégia para o nosso futuro."

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