Biodigestor produz energia para sítio do interior paulista

Reportagem foi uma das duas vencedoras do Prêmio Tetra Pak de Jornalismo Ambiental

08 Agosto 2013 | 18h51

Caio Felipe Ferreira Carvalho*

Dejetos de vacas ajudam a produzir a energia elétrica consumida na ordenha e também os fertilizantes utilizados na pastagem e na lavoura de um sítio em Buritama, a 542 quilômetros de São Paulo. A iniciativa, que utiliza um biodigestor para transformar os excrementos em energia, foi desenvolvida para evitar que fezes e urina dos animais provocassem a contaminação do meio ambiente.

O produtor rural Acir Peliello instalou o sistema em sua propriedade há quatro anos de forma bastante simples. Com a ajuda de uma empresa especializada, interligou encanamentos que recolhem o esterco dos animais, concentrado após a lavagem de diferentes áreas do sítio. Também são aproveitados os dejetos de uma pequena criação de porcos.

O líquido passa por um processo de decomposição anaeróbica, em que bactérias consomem o material em um ambiente sem oxigênio, vedado por lonas. A queima do gás metano, liberado nessa ação, alimenta um gerador de energia. Os resíduos que ficam no biodigestor seguem para uma lagoa e se transformam em fertilizantes, que são levados ao pasto por meio de um motor de caminhão.

Peliello investiu cerca de R$ 40 mil para montar o sistema. Além dos benefícios ao meio ambiente, ele estima que o investimento propicie uma economia anual de R$ 50 mil nas contas de energia da propriedade rural e na compra de adubo. 

Inicialmente, apenas o fertilizante era gerado no sítio. O biodigestor foi a alternativa adotada por Peliello para o custo alto de instalação de uma fossa de concreto para o tratamento do esterco, necessária por causa da  quantidade cada vez maior de gado. “Estou próximo a um reservatório do Rio Tietê”, explica Peliello. “Cada vaca produz 40 quilos de dejetos por dia. A força da natureza, com a chuva, levaria tudo para o rio.”

A energia mantém os sistemas de resfriamento e nebulização para 140 vacas e todo o processo de ordenha, entre o início da manhã e o fim da tarde. O restante da propriedade ainda não é abastecido por essa eletricidade. A ampliação da rede de distribuição, explica Peliello, demandaria um investimento maior. No entanto, nem toda a geração chega a ser utilizada. 

Professora do curso de biocombustíveis da Faculdade de Tecnologia (Fatec), em Araçatuba, Sandra Maria de Melo considera o projeto um exemplo como prática sustentável. “Quando os resíduos são lançados no solo ou no ambiente aquático, desencadeiam inúmeros problemas ambientais”, explica. Ela também destaca o reaproveitamento de materiais recicláveis na propriedade.

Biodigestores que transformam dejetos bovinos em biogás ainda são pouco utilizados no País, afirma o pesquisador Wilson Tadeu Lopes da Silva, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Segundo ele, a prática tem sido mais comum no Paraná e em Santa Catarina na suinocultura, facilitada pelo confinamento dos animais.  “É uma tendência, mas isso tem muita a ver com a conscientização do próprio agricultor”, avalia. Para o pesquisador, normas mais rígidas para o manejo dos resíduos agropecuários também colaborariam.

*Vencedor do Prêmio Tetra Pak de Jornalismo Ambiental

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