Aulas de bolsa de valores para jovens

Aulas de bolsa de valores para jovens

Colégios paulistanos se destacam em disputa mundial de investimentos e educação financeira

Tulio Kruse, especial para o Estado

27 Abril 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Ter entre 14 e 17 anos e poder simular uma operação na bolsa de valores em uma disputa envolvendo 453 instituições em todo o mundo. Esse foi o desafio assumido por estudantes de colégios paulistanos, como Santa Cruz, no Alto de Pinheiros, e o Decisão, no Aeroporto. Eles se destacaram nas primeiras fases da disputa em que se busca o melhor plano de investimento para US$ 100 mil (R$ 347 mil). O dinheiro entregue a cada equipe é virtual, mas a disputa tem por base fatos reais. 

Em uma plataforma digital, os alunos investem em ações de empresas verdadeiras, e os preços variam de acordo com o seu desempenho no mercado. 

O plano de investimento também deve ser ajustado ao perfil de um empresário real, como se os estudantes estivessem prestando uma consultoria financeira, e tomando decisões de compra e venda de ações para um cliente. 

Um ranking com as escolas participantes, incluindo as dez brasileiras, mede o desempenho financeiro de cada grupo na bolsa de valores e, ao fim da disputa, ganha quem tiver o relatório com as melhores justificativas para as decisões que tomou.

Ética como opção.Para uma competição que simula o investimento em bolsa de valores, os alunos do Colégio Santa Cruz se classificaram para a final, entre os 12 melhores do mundo, com uma estratégia incomum. Em vez de focar nas ações que mais valorizavam quantitativamente, apostaram nas empresas com melhor desempenho em aspectos como responsabilidade social, ética e relações justas com fornecedores, além de bons indicadores de sustentabilidade.

+++ Escolha profissional mais cedo

Agora, os estudantes farão uma apresentação nos Estados Unidos, na etapa final do programa de educação financeira. “Tentamos nos apropriar mais dos conceitos de uma estratégia com análise qualitativa, fazer ecoar mais o caráter do nosso cliente e não só tentar ganhar o máximo de retorno possível”, explicou Lucas Mazzuchelli, do 2.º ano do ensino médio. “A competição para a gente foi muito mais um passo de aprendizado do que ficar pensando em como ir melhor do que os outros”, disse Gustavo Dias, do 3.º ano, que foi quem descobriu a competição, na internet, reuniu os colegas e conversou com a escola. 

Um professor de Matemática orientou os estudos, mas a estratégia do grupo foi definida pelos estudantes. A final está marcada para o dia 5 de maio. Os alunos do Santa Cruz devem participar por meio de videoconferência - uma vez que não deverão viajar para a Pensilvânia.

Diferencial. Na fase preliminar, a disputa já incluiu uma apresentação pública a empresários, profissionais renomados da Wharton School, escola americana vinculada à Universidade da Pensilvânia, e promotora do evento. A oportunidade assustou os alunos da zona sul. 

Era a primeira vez que Jucélio Brandão, Luiza Lopes e Christopher Reis, todos de 14 anos, fariam uma apresentação para uma plateia de economistas e empresários - e em inglês, que não dominavam. Estavam intimidados e nervosos. Os meninos nunca passaram por tal situação - mantêm os estudos, por exemplo, com bolsas parciais.

Não bastasse o desafio, se deram conta que destoavam no figurino: vestidos com calça jeans, camiseta e peças do uniforme escolar, eram os únicos estudantes que não usavam terno ou traje formal. Mais cedo, pegaram carona para sair da Cidade Ademar, na zona sul da capital, e chegar à sede do BTG Pactual, um dos maiores bancos de investimento do País, no Itaim-Bibi, zona sul. “A gente era novo no pedaço”, disse Luiza. 

A impressão dos alunos é de que o grupo se prejudicou pelo nervosismo e pela defasagem no inglês, apesar de ter aplicado os conceitos de economia tão bem quanto os adversários. Agora, planejam participar novamente no próximo ano. “Tínhamos um conteúdo muito bom, mas não conseguimos nos apresentar direito porque foi nossa primeira vez”, afirmou Luiza, líder do grupo, que está decidida a fazer graduação em Economia.

Resultado. No fim, o Colégio Decisão, que ficou entre os 20 primeiros colocados durante boa parte do programa, acabou em 23º no ranking mundial. Diferentemente de outros colégios finalistas, o Decisão tem um modelo de negócios com base na oferta de educação acessível a regiões periféricas da capital. A mensalidade é mais barata que a média praticada no mercado: os preços variam de R$ 600 a R$ 800, seguindo a renda média da população no entorno.

Para se preparar para a competição, os alunos receberam lições de casa para o período das férias. Eram vídeos e textos sobre o mercado financeiro que deveriam estudar para se inteirar do assunto. Cada um dos cinco integrantes ficou responsável por um setor da economia, e as decisões sobre compra e venda de ações eram definidas em reuniões semanais, durante cerca de três meses. 

“Não tinha a mínima ideia do que era bolsa de valores e investimentos, não sabia muito bem no que estava me metendo”, diz Jucélio, do 1º ano do ensino médio.

A evolução dos alunos foi rápida, segundo os professores. “Eles chegaram no fim de dezembro sem saber nada e ao longo de fevereiro e março já estavam trazendo notícias de política e de macroeconomia e fazendo links de como que essas notícias poderiam influenciar as empresas em que investiam”, diz Rafael Camacho, sócio da Rede Decisão, mentor dos alunos. “Mais do que a evolução do conhecimento técnico, eles cresceram muito no trabalho em grupo.” 

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