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Fernando Reimers é especialista em educação internacional e professor da Universidade Harvard Reprodução/Twitter

Aula ao vivo não é a melhor forma de ensinar durante a pandemia, diz educador de Harvard

Fernando Reimers tem pesquisado desde março de 2020 o impacto educacional da pandemia em vários países e lançou um livro contando experiências de 28 líderes educacionais durante o período

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2021 | 15h00

SÃO PAULO — O especialista em educação internacional e professor da Universidade Harvard, Fernando Reimers, tem pesquisado desde março de 2020 o impacto educacional da pandemia em vários países. Este mês, ele lançou o livro Leading Education Through Covid-19, ainda sem tradução em português, que conta experiências de 28 líderes educacionais durante a pandemia.

Para Reimers, que é venezuelano, a inovação tem sido a grande chave para conseguir educar neste momento. Ele discorda da metodologia das aulas ao vivo e diz que se não houver boa liderança, inovação e colaboração entre governo e sociedade, a pandemia pode resultar no “maior retrocesso na educação em um século”. 

Qual o papel da inovação durante a pandemia?

A inovação tem sido fundamental para oferecer algumas formas de continuidade educacional durante o período em que as escolas não têm funcionado regularmente, embora certamente não tenha conseguido garantir as mesmas oportunidades de aprendizagem que as escolas oferecem ao ensinar pessoalmente, mesmo com todas as suas deficiências. Entre os que eu estudei, há várias características comuns, como conseguir educar crianças de diferentes condições sociais, como fizeram no Chile por exemplo. A intenção da inovação deve ser sempre garantir a aprendizagem do aluno, apesar de todos os obstáculos e dificuldades. Para dar certo, elas são feitas por equipes, muitas vezes em parcerias público-privadas, com lideranças humildes que promovem a voz e a participação de professores e membros da comunidade, facilitam alianças entre instituições e promovem a aprendizagem coletiva. 

Acredita que há benefícios que podem vir deste período para a educação?

A pandemia nos mostrou a importância de cultivar as habilidades dos alunos para aprender de forma autônoma e a necessidade de habilidades digitais. Acredito que a ênfase nessas questões continuará após a pandemia e que continuaremos a buscar maneiras de complementar a educação presencial com a educação à distância.

Há outras formas de ensino remoto que não seja apenas deixar os alunos diante de telas de computadores?

Claro, existem muitas maneiras de tornar a educação a distância dinâmica e interessante para os alunos. Isso inclui a promoção da aprendizagem baseada em projetos e formas de ensino centradas no aluno, que combinam o estudo independente com discussões em tempo real com professores e colegas. Mas, para conseguir implementar formas mais eficazes de ensino remoto, os professores precisam ser treinados e apoiados.

Aqui no Brasil, em 2021, passamos a fazer a chamada aula ao vivo, em que os alunos que estão na escola e os que estão em casa assistem à mesma aula. Isso acontece em outro lugar?

Se isso acontecer em outros lugares, não acho que seja a maneira mais eficaz de ensinar nesse contexto. Eu acho que é melhor fazer projetos separados para o ensino presencial e para ensino remoto. Tentar fazer um projeto que funcione igualmente bem para ambos é um desafio que poucos conseguiram resolver bem.

Acredita que o ensino remoto vai continuar mesmo com o fim da pandemia?

Não acho que as escolas remotas devam continuar depois da pandemia porque há benefícios indiscutíveis na educação presencial. As escolas talvez possam achar formas de complementar o ensino com atividades remotas. Elas podem permitir que os alunos trabalhem com mais autonomia ou colaborem com outros alunos em escolas diferentes, dentro do Brasil e até mesmo em outros países. Isso seria muito benéfico.

Qual deve ser o impacto na aprendizagem dos estudantes no mundo?

Ainda não sabemos, mas é certo que muitos alunos não aprenderam quase nada, entre eles, muitos não voltarão à escola. A pandemia sem dúvida aumentará as desigualdades sociais. O grande desafio para os sistemas educacionais será tentar recuperar o aprendizado perdido e preencher essas lacunas. 

Que outros efeitos a pandemia traz para a educação no mundo?

A pandemia tem efeitos diretos e indiretos na educação. Os efeitos diretos são aqueles que resultam da aprendizagem interrompida pelo fechamento da escola. Os efeitos indiretos são aqueles que resultam do impacto da pandemia na saúde e nas condições de vida dos alunos. Quando um membro da família fica doente ou morre, isso gera estresse e traumas para os alunos, dificultando os estudos. Quando um dos pais perde o emprego ou a renda, isso também afeta o apoio que as famílias podem dar aos alunos. Quando a violência doméstica aumenta em uma família, como resultado do estresse múltiplo criado pela pandemia, isso também afeta as chances de aprendizagem. Infelizmente, alguns desses efeitos continuarão mesmo depois que todo mundo da educação for vacinado. Os próximos anos serão muito difíceis para a educação. Exigirão uma liderança muito boa, muita inovação, muito profissionalismo e muita colaboração entre vários grupos sociais, entre o governo e a sociedade civil, para que a pandemia não resulte no maior retrocesso na educação em um século.

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Países bem posicionados no Pisa fecharam escolas por menos dias

Estudo analisou 21 nações durante a pandemia; dados mostram que a volta presencial não aumentou número de contaminações

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2021 | 15h00

Países que são considerados modelos de educação e com os melhores resultados no Pisa, a maior avaliação internacional de estudantes, fecharam escolas por menos tempo durante a pandemia. Alemanha, Reino Unido, Dinamarca, Suécia, Cingapura e França ficaram menos de 90 dias com aulas não presenciais. O Brasil - sempre entre as últimas colocações no ranking do exame - teve 267 dias de escolas fechadas até o fim de janeiro. A maioria dos Estados ainda não reabriu suas redes e a preocupação com a situação atual da pandemia de coronavírus no País está fazendo com que governadores e prefeitos adiem a volta.

Os dados foram tabulados pela consultoria Vozes da Educação, com apoio da Fundação Lemann e do fundo Imaginable Futures, considerando a situação da educação em 21 países durante a pandemia. Ao cruzarem informações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre números de casos com os dias em que escolas ficaram abertas, concluíram que elas não foram responsáveis pelo aumento das transmissões  - assim como outros estudos científicos têm mostrado.

“Temos que comprar brigas maiores antes de pensar em deixar as escolas fechadas”, diz o diretor executivo da Fundação Lemann, Denis Mizne. “Dados os efeitos deletérios sobre a aprendizagem, para a saúde mental e para as famílias, e a quantidade de evidências de baixa infecção nas escolas, a gente deveria estar discutindo o que mais se pode fazer para abrir escola mais rápido”, completa. 

Um exemplo no estudo é a França, que fechou bares e restaurantes, mantém as escolas abertas desde o dia 4 de janeiro, e não teve aumento de casos. No Reino Unido, apesar de escolas terem sido fechadas em janeiro e fevereiro em um duro lockdown, o primeiro ministro Boris Johnson anunciou que elas voltarão em março, mais de um mês antes de academias, salões de beleza e outros serviços. 

Segundo a fundadora do Vozes da Educação, Carolina Campos, responsável pela pesquisa, as análises mostram que outros locais abertos, como bares, restaurantes e comércio, influenciaram muito mais na subida da curva de casos do que as escolas. O estudo também indica que os países que ficaram menos tempo com a educação fechada também tiveram uma reabertura de sucesso. Entre os fatores em comum estão uma comunicação transparente com a sociedade, monitoramento dos casos de covid e uma coordenação nacional da abertura, pontos também deficientes no Brasil. 

Entre os 21 países analisados, 17 deles fizeram monitoramento dos casos de covid, com rastreamento de contatos para isolar infectados e entender se a contaminação foi na escola ou fora dela. Só cinco deles (Argentina, Chile, França, Reino Unido e Uruguai) incluíram os professores na lista prioritária para vacinação contra a covid.

Muitos deles tiveram que abrir e fechar escolas diversas vezes, mas, para Carolina, isso é o esperado para o “novo normal na educação” já que estamos ainda no meio de um pandemia e “infecções infelizmente ainda vão ocorrer”. “É importante que os pais no Brasil se acostumem que abrir e fechar escola ou colocar uma turma em quarentena não são sinônimos de insucesso”, diz. “Isso é muito melhor do que manter as escolas fechadas. Se o Brasil tivesse reaberto em setembro, quando a curva estava baixa, teríamos oferecido com dignidade um semestre para as crianças.”

Comunicação

O estudo mostra que países que tiveram sucesso na reabertura realizaram uma comunicação homogênea e coerente entre gestores, fizeram lives frequentes com o ministro da educação, criaram sites com números de casos de cada escola, chamaram sindicatos para colaborar. “A escola é um espaço de informação e ao passar boas informações, ela passa confiança. Os pais querem ouvir do professor, do diretor se vai abrir ou fechar, não só do secretário de educação”, diz Carolina. 

“Se você tem a experiência de que pode confiar no governo e nas autoridades, é mais provável que você siga as orientações que forem passadas”, disse o vice-presidente do sindicato de professores da Dinamarca, Dorte Lange, citado no estudo. O país se tornou um exemplo de cooperação entre entidades e governo na Europa durante o processo de abertura de escolas. Mesmo nas nações latinas vizinhas, há exemplos de melhor comunicação e integração nacional. O ministro da Educação argentino tem viajado pelas 24 províncias do país, buscando dialogar com governos locais e representantes sindicais. No Chile, foi criado o programa “Yo confío en mi escuela” (Eu confio na minha escola), dando automonia para as comunidades escolares nas decisões de reabertura. 

No Brasil, não há nenhum plano do Ministério da Educação (MEC) para a volta presencial. Sindicatos também têm tentado impedir a abertura das escolas em Estados como São Paulo, um dos primeiros a retornar em 1º de fevereiro. Antes dele, Goiás autorizou a volta em 25 de janeiro. Têm atualmente aulas presenciais também os Estados do Rio de Janeiro e Paraná.

Já o Piauí anunciou esta semana que adiou a volta presencial por causa da nova onda da pandemia no País e em vários outros Estados do Nordeste, como Bahia, Rio Grande do Norte e Paraíba, as aulas serão apenas remotas por enquanto. Para Mizne, o calendário de aberturas no País está muito lento. "Países que levam a educação a sério priorizaram a reabertura”, diz Mizne. “Essa discussão já está superada lá fora, agora precisaríamos estar pensando no micro, se precisa de professores extras, como melhorar a infraestrutura para higiene, chamar pais para ajudar, e não se abrimos ou não.” 

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