Augusto Damineli e os mistérios da Eta Carinae

Na seção Autógrafo, a pesquisa da estrela que colocou a astronomia do Brasil em projeção mundial

Elida Oliveira, Especial para O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2009 | 06h06

A seção Autógrafo convida um estudante de graduação para fazer uma pergunta a algum profissional que ele admira. Dessa vez, o tema em discussão é Astronomia. Victor Souza Lyra, de 24 anos, estudante do 4° ano de Física da UFSCar pergunta a Augusto Damineli, astrônomo do Instituto de Astronomia e Geofísica (IAG) da USP:  Como foi o processo de pesquisa e descoberta dos mistérios da Eta Carinae? "A Eta Carinae me capturou. É uma estrela misteriosa, em uma nebulosa a 8 mil anos-luz de nós. É a maior e a mais luminosa que se conhece – brilha como 5 milhões de sóis. E está morrendo. Acreditava-se que ela explodiria em 500 mil anos, mas hoje a previsão é de que isso pode acontecer em 10 ou 50 anos. Quando explodir, no Hemisfério Sul não terá noite e o universo todo vai saber: a Eta Carinae morreu. Quando comecei a minha pesquisa notei que ela emitia luz em dois canais de energia: um de alta frequência (típico de estrelas quentes) e outro de baixa (de estrelas frias). Deduzi que eram duas estrelas, girando uma em volta da outra.  Uma vez eu estava observando e a estrela de alta energia começou a se apagar. O equivalente a 60 sóis sumiu. "É um eclipse", pensei. Se fosse, em um ou dois dias a estrela teria de reaparecer. Mas após um mês ela continuava apagada, ainda que com leves sinais de retomada. Levantei a tese de que a estrela de alta frequência tinha "entrado" no vento da outra e de que a colisão entre ventos é que produzia o efeito de "apagamento". Outros astrônomos trabalham comigo nessa hipótese, desenvolvendo simulações em computador. São cálculos difíceis e levamos anos para reproduzir os dados observados.  Minha contribuição foi mostrar que esse fenômeno de apagamento ocorre a cada 5 anos e meio e se deve a um sistema de estrelas duplas. Investi quase duas décadas na pesquisa. Ano após ano, eu entrava em processos de seleção para usar telescópios e passava noites seguidas observando a Eta Carinae. Quando mostrei que a hipótese explicava os dados, quase ninguém acreditou. Mas minha teoria acabou se mostrando correta. Já foram realizados cinco simpósios dedicados à Eta Carinae, hoje a estrela mais observada em todo o céu, depois do Sol." Veja também: Daminelli comenta importância do telescópio espacial Hubble Astrônomos lançam resolução 'pelo direito à luz das estrelas' Imagem revela detalhes da nebulosa de Carina  

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