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Assédios nas redes

Uma pesquisa mundial realizada pela Plan International, uma organização não governamental que defende os direitos de crianças, adolescentes e jovens, apontou que 58% das meninas já sofreram assédio online

Rosely Sayão, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2020 | 05h00

A maioria de nossas crianças e adolescentes acessa a internet e frequenta redes sociais. Se antes era por pura diversão, hoje é também por dura obrigação. É que, com escolas fechadas ou funcionando com pequenos grupos que vão às aulas alternadamente, o ensino remoto está sendo praticado por muitos. E tem mais: por esse cenário de incertezas em relação à pandemia, o Conselho Nacional de Educação já aprovou o funcionamento do ensino remoto até o fim de 2021.

Ou seja: por um bom tempo ainda os estudantes terão de, obrigatoriamente, frequentar o mundo virtual. Parece que o ensino híbrido – aulas presenciais e remotas – terá grande importância a partir de agora. E, atenção: quanto mais nossas crianças e jovens frequentam o mundo virtual, maiores são nossas responsabilidades. Por quê? Muitas crianças, a partir de 8 anos, já frequentam algumas redes sociais, e nem sempre com a tutela dos pais. E elas nem poderiam estar lá porque, como sabemos, é a partir dos 13 anos que qualquer rede social aceita a adesão dos internautas. O problema maior é que parte dessas crianças enganou a idade quando da inscrição, com o consentimento dos pais!

Estes, costumam justificar sua atitude dizendo que os filhos nasceram no mundo “50% virtual, 50% real” e que, por isso, eles não conseguem ficar excluídos das redes. E como as crianças sabem muito bem ser insistentes e usar argumentos que seduzem os pais, como por exemplo o conhecido “todos os meus colegas têm página lá”, acabam convencendo-os de que participar de uma rede social é algo tranquilo. Não é.

Uma pesquisa mundial realizada pela Plan International, uma organização não governamental que defende os direitos de crianças, adolescentes e jovens, apontou que 58% das meninas já sofreram assédio online. No Brasil, esse índice é bem maior: 77%! (para ver a pesquisa na íntegra, clique aqui).

Vale a pena relembrar alguns aspectos importantes a respeito de crianças e de adolescentes até os 16 anos, mais ou menos. Como seres em formação, eles ainda não têm recursos pessoais desenvolvidos, o que os deixa frágeis e vulneráveis frente às adversidades da vida. É por isso que eles precisam dos adultos: para que cuidem deles porque ainda não sabem se cuidar.

Nessa idade, ainda estão em formação a sua identidade, diversos aspectos da personalidade, o autoconhecimento e o processo da conquista da autonomia, entre outros. Ah! Ainda que tenhamos nos desacostumado com a existência do autocontrole, de tanto testemunharmos adultos descontrolados nos espaços públicos e nos noticiários, as crianças e adolescentes ainda precisam de um tempo para alcançar a maturidade e, consequentemente, o autocontrole. E viver sem isso é prejudicial, pessoal e socialmente.

Considerando isso, vamos pensar nas crianças e adolescentes nas redes. Primeiramente, muitas delas sofrem assédio e nem sabem identificar isso porque não conhecem o fenômeno, não foram orientadas. Elas apenas sofrem com as consequências dessas vivências: a autoimagem fica danificada, emoções fortes como a tristeza, a ansiedade e a angústia, por exemplo, as assaltam, podem desenvolver distúrbios alimentares, do sono, muitas se isolam etc. Em resumo: a saúde dessas crianças e jovens em todos os seus planos – físico, mental e social –, pode ser prejudicada.

É inegável que o uso da internet traz muitos benefícios a eles, mas prejuízos também, justamente pelo fato de ainda não terem desenvolvido os recursos pessoais que possibilitam proteção para se defender de ataques e assédios. Mais uma vez: é por isso que precisam de nós, adultos, tutelando seu acesso à internet. E tutelar é justamente isso: defender e proteger quem está sob sua responsabilidade, certo?

Antes de as escolas fecharem por causa da pandemia, a maioria dos pais se preocupava com o tempo de dedicação dos filhos ao mundo virtual. Nunca existiu nem existirá um tempo cronológico adequado porque as crianças são diferentes, vivem em ritmos diferentes; o importante era não permitir o exagero, ou seja, mais horas no mundo virtual do que em outras atividades.

Mas agora é preciso redobrar a atenção porque não basta limitar o tempo na internet: é preciso cuidar do que eles fazem nas redes. Sua filha ou seu filho sai do local virtual em que estava assim que você se aproxima? Sinal de alerta!

Se não dá para ficar perto deles o tempo todo, lembre-se de que eles podem usar a internet no celular ou tablet com a imagem espelhada no aparelho de televisão. Dessa maneira, você tem mais facilidade para saber o que ele está fazendo, mesmo estando mais distante dele.

Eles precisam saber que você irá tomar os cuidados necessários para protegê-los no uso da internet. Nada de olhar o celular escondido: diga claramente que é sua responsabilidade fazer isso regularmente. 

ROSELY SAYÃO É PSICÓLOGA, CONSULTORA EDUCACIONAL E AUTORA DO LIVRO EDUCAÇÃO SEM BLÁ-BLÁ-BLÁ

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