As transformações na memória de um professor

O professor Wilson Choeri, aos 75 anos de idade e mais de 50 de magistério, começou a lecionar em um tempo que as professoras eram maioria no curso primário, mas, no secundário, os homens dominavam. Da mesma forma, nos cursos superiores de ciências exatas, a presença feminina era raridade. Atualmente, a divisão dos docentes nos níveis mais altos de ensino se equipara."Minha turma de física só tinha duas moças e, quando comecei a dar aula, aos 18 anos, o primário era quase privativo das moças", lembra Choeri, que foi aluno, professor e há oito anos é diretor-geral do Colégio Pedro II, no Rio, inaugurado em 1837 e até hoje referência em ensino público de qualidade.Choeri viu de perto a ampliação da presença das mulheres registrada nas Estatísticas do Século XX, do IBGE, e também as diversas modificações nas diretrizes de educação e ensino no País. É capaz de citar de cor números de leis e os anos das grandes mudanças.Virada educacionalPara ele, porém, a grande virada educacional aconteceu em 1930, quando tinha apenas dois anos. Foi a criação do Ministério da Educação e Cultura e a formulação de uma programação e um calendário escolar, a ser seguido por todos os estabelecimentos de ensino. No mesmo período, chegaram ao País as faculdades de Filosofia, que deviam ser cursadas pelos futuros professores."O panorama do magistério foi se modificando", diz o diretor do Pedro II, que hoje tem 14.700 alunos. As mudanças seguintes criaram primário, ginásio, científico e clássico, extinguiram a temida prova de admissão, adotaram a nomenclatura primeiro e segundo grau, já substituídos por fundamental e médio. Encurtaram o período de férias e aumentaram o número mínimo de dias de aula."Silêncio religioso"Trabalhando há 35 anos em outro tradicionalíssimo colégio carioca, o centenário Santo Inácio, da rede particular, o professor Georges Frederic Mirault, de 60 anos, coordenador do ensino médio, lembra que hoje as aulas não são mais marcadas pelo "silêncio religioso" do passado. Os alunos têm mais diálogo com os professores, mais acesso a tecnologia e a formas novas de aprendizado.No entanto, diz Georges, não há como escapar dos livros didáticos obrigatórios e de determinadas regras. "O vestibular exige coisas que deveriam ser ensinadas na universidade. Deveria ser mais básico. O aluno fica em pânico", afirma o coordenador.Georges defende, porém, algumas regras ainda rígidas do Santo Inácio, como a proibição de os alunos fumarem em qualquer dependência e o uso de uniformes. "A gente acredita na roupa de trabalho. O uniforme evita comparações de grifes", diz o professor, lembrando que, no seu tempo de estudante do mesmo Santo Inácio, "os alunos assistiam às aulas de paletó e só tiravam na hora do recreio".

Agencia Estado,

30 de setembro de 2003 | 16h44

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