As Humanas no palco do conhecimento

Área dá falsa impressão de atrair pouco interesse porque não precisa ser ‘traduzida’ pela mídia

José de Souza Martins, sociólogo, é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

27 Outubro 2009 | 01h11

É relativamente difundida a impressão de que as Ciências Humanas não gozam do mesmo prestígio, na mídia e nos meios de divulgação, de que gozam as chamadas Ciências Exatas e as Ciências Biológicas. A impressão é, em boa medida, falsa. Com frequência, a mídia recorre a especialistas dessas áreas para discorrer didaticamente sobre tema que eventualmente tenha aparecido no noticiário, uma descoberta científica, um novo medicamento, uma nova técnica de tratamento de saúde ou uma sacada genial que resolveu algum velho enigma matemático. É que o conhecimento produzido nessas áreas é geralmente difundido em revistas científicas de acesso difícil ao grande público. Sua popularização depende do chamado jornalismo científico, que traduz em linguagem comum textos herméticos. É frequente que um jornal se reporte a um artigo da Nature ou da Lancet, revistas de grande prestígio entre especialistas, que não raro anunciam inovações e descobertas científicas.   Nas Ciências Humanas as coisas geralmente não acontecem desse modo. No entanto, sua popularidade é, provavelmente, maior do que a das ciências dessas outras duas grandes áreas. Dentre os livros científicos de maior vendagem no mundo estão os da Nova História, não só traduzidos para várias línguas como transpostos para o cinema, a literatura e o teatro. Cito o livro de Natalie Zemon Davis, O Retorno de Martin Guerre (Paz e Terra, 1987), que inspirou o filme Le Retour de Martin Guerre, dirigido por Daniel Vigne e estrelando Gérard Depardieu e Nathalie Baye. A própria historiadora foi consultora na produção do filme.   Não só em relação à História o homem comum pode ir diretamente à fonte e ler o livro original em que descobertas e interpretações são expostas, coisa que rarissimamente acontece nas Exatas e Biológicas. Também a Antropologia tem gozado de prestígio e popularidade. Lembro a obra do antropólogo americano Oscar Lewis, sobre a cultura da pobreza no México, reeditada em formato de livro de bolso, traduzida em várias línguas e lida amplamente por pessoas que não precisam da mediação interpretativa da mídia.   O mesmo se dá com livros de Sociologia, como os de Peter Berger e Thomas Luckmann, em particular A Construção Social da Realidade, editado em formato de bolso e vendido em livrarias de aeroportos e de estações ferroviárias. No Brasil, um clássico da Sociologia, Parceiros do Rio Bonito, de Antonio Candido, inspirou o filme Marvada Carne, dirigido por André Klotzel e estrelado por Fernanda Torres, Adilson Barros e Regina Casé. Foi num artigo do sociólogo Florestan Fernandes, "Contribuição para o estudo de um líder carismático", que Paulo Betti em parte se inspirou para produzir o filme Cafundó, sobre João de Camargo, um negro místico de Sorocaba. Em geral, nesses casos, ainda que haja citações explícitas, a mídia e o público não percebem a origem dos enredos e dos temas em obras das Ciências Humanas. Diversamente das Exatas e Biológicas, as Humanas estão amplamente presentes na criação do novo senso comum, próprio da modernidade.   Estamos, portanto, em face de visibilidades diferentes dos diferentes campos do conhecimento científico e não em face de menor relevância das Ciências Humanas ou de menor importância científica dessa área ou de menor interesse pelo conhecimento que nela se cria. Com frequência jornalistas recorrem a sociólogos e cientistas políticos para interpretar corretamente pesquisas divulgadas pelo IBGE ou por institutos sobre pobreza ou sobre estranhos desencontros entre a alta popularidade do presidente da República e a clamorosa pobreza de massas imensas da população.   Certa secundarização das Ciências Humanas entre nós é própria deste momento histórico da sociedade brasileira. As ciências das outras duas áreas investigam e explicam realidades que não estão sujeitas à apreciação subjetiva dos envolvidos. Na Física ou na Biologia, o conhecimento é objetivo e resulta da obediência a cânones precisos. No caso das Humanas, o conhecimento é sobre o homem e é produzido pelo próprio homem, ainda que especialista treinado para a prática da isenção ética em relação ao objeto do conhecimento. Um biólogo não pode tomar o partido da minhoca que estuda nem um botânico pode se envolver afetivamente com a urtiga que é seu objeto de análise. Com o homem as coisas são diferentes. Entre a ciência e a sociedade que estuda interpõem-se as ideologias, o homem como ser de consciência e não só como objeto.   As Ciências Humanas no Brasil vivem um momento adverso, marcado pela confusão do público entre ideologia e ciência. Aí se interpõem as ideologias religiosas e políticas, o senso comum. Os cânones para "filtrar" essas interferências na produção do conhecimento científico são aí mais complicados do que nas outras ciências. Este é um momento da sociedade em que o homem comum se satisfaz com explicações de natureza ideológica. Ele não tem carências de consciência social que o levem a indagações que lhe permitam não só superar as ideologias, mas também compreendê-las como mediações deformantes da realidade social. É, pois, pequena a oportunidade de que as Ciências Humanas ocupem com rosto próprio o primeiro plano no palco do conhecimento. No entanto, elas estão lá, todo o tempo.

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