Daniel Teixeira/Estadão - 04/05/2022
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Renata Cafardo
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Máscaras nas escolas podem ser uma proteção, mas também são um risco

Alguns colégios aumentaram as medidas sanitárias contra a covid nas últimas semanas; cientistas se preocupam com a geração que cresce com uma barreira entre a criança e o professor, entre ela e o amigo

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2022 | 05h00

As máscaras e as escolas são um filme à parte na história da pandemia. Foi nos ambientes escolares, com exceção dos de saúde, onde elas mais foram apropriadas, naturalizadas, incorporadas. Mesmo as crianças não sendo os grandes vetores ou grupos de risco da covid, elas aprenderam melhor do que muitos a usar a proteção. Para o bem ou para o mal. 

Quando muita gente ainda achava normal fechar educação e abrir bar durante a pandemia, pesquisas provaram que a escola tinha baixíssima contaminação. O resultado era explicado pela característica do vírus, mas também porque as medidas de proteção eram seguidas com rigor. Na rua raramente um policial abordava o cidadão quando elas eram obrigatórias. Mas, nas escolas, os professores foram os fiscais da máscara no nariz e na boca.

Com a melhora da situação epidemiológica, veio a liberação total e oficial das máscaras. Mas algumas escolas particulares, muitas vezes com o medo do medo de pais e de professores, não cumpriram. Escolheram seus próprios critérios, nem sempre claros, para decidir a hora certa de tirar a proteção. E, com o tempo, também sem muita explicação, ela foi liberada. 

Mas veio a Páscoa, o carnaval fora de época, e novamente a educação puxou para ela a responsabilidade de segurar a pandemia. Uma subida de 5% no número de casos não assustou o secretário de Saúde ou outros especialistas. Mas algumas escolas de novo decidiram fazer suas regras e voltaram com as máscaras. Nenhum outro setor fez o mesmo. 

O que o tempo de isolamento acrescido de uma vida cheia de proteções causou às crianças e adolescentes começa a aparecer. Em São Paulo, sete de dez estudantes da rede pública estão com sintomas de ansiedade e depressão. Outro estudo indicou aumento da violência nas escolas. Diretores observam indisciplina, dificuldade de cumprimento de regras e de convivência. 

Meninos e meninas tiveram aulas na cama, com um celular em uma mão e um doce na outra, por quase dois anos. Quando voltaram ao seu espaço mais importante de desenvolvimento, tiveram de se afastar, de se proteger dos outros, de viver com medo. 

A covid foi devastadora, matou milhões e deixou sequelas em outros. A máscara salvou vidas. Mas cientistas do mundo todo também se preocupam com a geração que está crescendo com uma proteção entre ela e o professor, entre ela e o amigo. Ainda não é possível saber todas as consequências. Mas o certo é que, no contexto atual da pandemia no Brasil, a máscara nas escolas pode ser uma proteção, mas é também um risco.

*FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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