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As emoções importam

Damos grande importância à saúde física dos filhos. O mesmo não ocorre com a saúde mental

Rosely Sayão*, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2019 | 03h00

Gosto muito de ler textos na internet escritos por jovens. Há diversas plataformas e sites que recebem blogs e textos, e eu escolho para seguir os que, tanto pelo conteúdo quanto pela forma, me agradam e fazem sentido para mim. Com certa frequência, realizo um rodízio nessas escolhas para ter acesso a diferentes temas e estilos. 

Criei um ritual para iniciar meu dia: após tomar meu café, sento em frente ao computador e leio dez ou 12 textos desses. Foi numa dessas manhãs, alguns anos atrás, que aconteceu o que relato a seguir e o tempo não apaga de minha memória.

Já era meu terceiro ou quarto texto, quando me deparei com o título “Carta de Despedida”. Antes de iniciar a leitura, já lamentei o que imaginei que fosse uma despedida de postagens daquele autor que eu já apreciava muito. 

À medida que fui lendo, entretanto, fui me angustiando. Tratava-se de uma despedida da vida: o autor anunciava que iria suicidar-se ao finalizar a escrita. Seu motivo principal? Ele já havia comentado em alguns de seus textos o quanto sofria com a síndrome do pânico. Mesmo tendo se tratado, não conseguia melhorar e lamentava profundamente afetar tanto a vida de sua mãe e irmã, com quem morava, por não conseguir ficar sozinho nunca. “Isso não é vida” foi uma frase que ele escreveu. 

Terminei de ler a carta e me dei conta de que era o primeiro dia de abril, conhecido como o Dia da Mentira. Um tanto quanto íntima do estilo do autor, sabia que não seria o jeito dele fazer uma brincadeira macabra nesse dia, mas, esperançosa, joguei o nome no buscador para ver se encontrava algo. Encontrei: uma página dele em uma rede social com um comunicado, escrito pela irmã, informando a morte do autor da carta. 

Estamos no chamado Setembro Amarelo, dedicado a ações e campanhas de prevenção ao suicídio. Precisamos pensar e falar sobre o suicídio, tema em geral tabu em nossas conversas. Evitá-lo não o faz desaparecer. Segundo informações da Organização Mundial da Saúde, a taxa de suicídios no Brasil tem crescido nos últimos anos, contrariando a tendência mundial, que aponta uma queda. 

O que temos, hoje? Crianças fazendo referência ao suicídio e adolescentes que tiram a própria vida. Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a segunda principal causa de morte em nosso País! Em tempo: o autor referido tinha 26 anos quando se suicidou. É principalmente por isso que o tema merece atenção. 

Não é simples entender o que leva uma pessoa, por mais jovem que seja, a desistir da vida. Sofrimento psíquico intenso, depressão, desencanto, vida social insatisfatória, desamor e muitos outros fatores estão entre os motivos que podem contribuir para uma atitude dessas. 

Precisamos reconhecer empecilhos que, muitas vezes, não nos permitem ver e, consequentemente, ajudar quem está nessa situação. Desde que nossos filhos são pequenos, aprendemos a dar grande importância à saúde física deles. Mas o mesmo não ocorre com a saúde mental. Ainda é difícil para a maior parte dos pais entender que as emoções dos filhos não são bobagens: são parte crucial da sua personalidade e equilibram, ou desequilibram, a saúde física também.  

Para ilustrar, vamos considerar o estereótipo de que homens não devem chorar ou expressar seus sentimentos porque isso demonstraria fragilidade. Quantos meninos e adolescentes se permitem chorar ao enfrentarem dissabores da vida ou falar de seus medos e dores? Quantos pais conseguem entender a importância de ensinar os filhos a reconhecer suas emoções e ouvi-los sem julgar? 

A esse respeito, é bem interessante assistir a um vídeo da campanha australiana da organização Man Up, que estimula o homem a se abrir: 


Respeitar as emoções que os filhos experimentam, ensiná-los a aceitar as próprias diferenças e a ter amor à vida são passos fundamentais na prevenção do suicídio.

* É PSICÓLOGA

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