Artigo: Formação de escritores: entre o desejo e a necessidade

Ao longo da história do ensino da escrita, investiu-se muito na formação de leitores e pouco na de produtores de textos

Márcia Fortunato, Especial para o Estadão.edu

28 Abril 2011 | 14h25

Por Márcia Fortunato*

 

"Na história da civilização ocidental, a escrita passou por um longo processo evolutivo, não só porque as línguas são dinâmicas e se alteram com o uso que delas se faz, mas porque evoluíram as técnicas gráficas (de produção do sinal gráfico ou do suporte). A escrita manuscrita, impressa, digital, em rolo, códice, livro ou página eletrônica geram produtos diversos, com funções sociais distintas, histórica e socialmente definidas.

 

Nos dias atuais, o computador pessoal representa um novo suporte para o texto e cria uma nova forma para o livro. O uso da escrita se disseminou entre os indivíduos que usam a internet e a autoria passou a ser exercida como ato banal: qualquer pessoa pode se apoderar da palavra para escrever e publicar o que pensa. Essa situação provocou maior interesse pela aprendizagem da escrita em decorrência da necessidade de ampliação das competências escritoras dos escritores (ou escreventes, já que nem todos se percebem escritores).

 

É nesse cenário que a aprendizagem da escrita tornou-se mais desejada e necessária. Escrever bem faz a diferença e a escola é exigida quanto à qualidade do ensino. Entretanto, se o texto é objeto cultural que participa de uma extensa rede de relações sociais e semióticas, o escritor só pode ser encarado como o sujeito que articula essas relações e que, portanto, deve dominar não apenas conhecimento linguístico, mas sobretudo o das práticas sociais em que está envolvido e dos sistemas semióticos correlacionados ao objeto que produz. A formação de escritores exige, portanto, um programa de ensino que responda a essas necessidades.

 

Quando se pensa em formar escritores de literatura de modo sistemático esbarra-se, em princípio, nos preconceitos gerados, muitas vezes, pelo pouco conhecimento que se tem acerca dos procedimentos de autoria, das habilidades mobilizadas pelo escritor ao escrever ou sobre o modo como os textos se constroem e se constituem enquanto eventos sociais. Além do mais, ao longo da história de ensino da escrita, investiu-se muito na formação de leitores e pouco na de produtores de textos, o que resultou em pouco conhecimento acumulado sobre como se ensina a escrever.

 

Entretanto, assim como admitimos a possibilidade de ensinar música para formar músicos, ou artes plásticas para formar artistas plásticos, é possível ensinar a escrever para formar escritores. Um programa de ensino para formar escritores de textos literários tem a importante tarefa não só de ensinar a produzir contos, novelas, romances, poesia, roteiros de cinema e vídeo, mas também de formar leitores críticos que disponham de instrumental teórico para analisar não só os textos alheios em sua dimensão estética, histórica e social, mas também seus próprios projetos estéticos no contexto de uma prática em que a autoria se exerce como ofício, como atividade intencional, não acidental ou intuitiva.

 

Investir na formação de escritores de literatura é, por outro lado, um modo de constituir um espaço privilegiado de investigação e ampliar, assim, as possibilidades de interlocução acerca das teorias e métodos de ensino das práticas sociais de uso da escrita. Nesse espaço de interlocução, cria-se a possibilidade de uma discussão séria a respeito do que precisamos aprender para dominar o ofício de escritor."

 

* MÁRCIA FORTUNATO É COORDENADORA DO CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM FORMAÇÃO DE ESCRITORES E ESPECIALISTAS EM PRODUÇÃO DE TEXTOS LITERÁRIOS DO ISE VERA CRUZ

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